Mr. Holmes – O cavalheiro solitário

Muitas vezes, e de diversas formas, na literatura ficcional ou mesmo fantástica, nos deparamos com aqueles personagens que vivem até mais do que seus criadores. Eles o superam. A eterna história de Pigmalião se repetindo em um círculo sem fim (nenhuma intenção de quotar O Rei Leão).

O caso de Mr. William Sherlock Scott Holmes ou simplesmente Mr. Sherlock Holmes não foi diferente. Acredito que a maioria saiba como Arthur Doyle tentou aniquilá-lo durante seu famoso duelo contra o temido professor Moriarty e foi abertamente repreendido por seus leitores que, indignados, mandaram cartas e mais cartas ao endereço do autor implorando pelo retorno de sua amada criação. Pode-se dizer que foi à contragosto, e ficou claro para o senhor Doyle que seria escravo de seu detetive para o resto da vida ou até que finalmente se cansassem dele.

Sessenta casos foram publicados em folhetim, mais de cem ilustrações foram feitas para retratá-los. Hoje, graças ao bom Deus, pois eu não estava lá em 1887 (ou… será que estava…?), há um charmoso museu situado no endereço mais famoso de Londres: Baker Street. Jamais me esquecerei da emoção de virar aquela esquina e avistar de dentro do táxi a fachada da casa. Foi como se estivesse entrando num dos meus romances favoritos; uma personagem perturbada por algum dilema e que precisava desesperadamente de um conselho do célebre detetive consultor – o único de sua espécie.

Sir Arthur Conan Doyle se foi. Sherlock Holmes vive. Pessoalmente, não sei o que o doutor pensa a respeito das conclusões a que chegam os estudiosos da obra sherlockiana ou dos novos romances que são publicados fazendo uso de sua figura, como este de que tratará este artigo. Contudo, sei que todos se esforçam ao máximo para manter a integridade de Holmes. Afinal, como pessoalmente pude verificar, ele é mais do que mera obra da mente de seu criador. As pessoas realmente acreditavam em sua existência, para elas, Sherlock Holmes viveu. Se fumava ou não o cachimbo não se sabe, talvez tenha sido apenas uma tática de marketing do ilustrador, não importa: desejavam tanto acreditar em uma mente capaz de retirá-los das trevas do “não saber o que fazer” que deram-lhe a vida.

Uma vida, porém, dúbia. Há várias perguntas não respondidas sobre a verdadeira natureza de Mr. Holmes. Recentemente, também tive o prazer de me familiarizar com a obra de uma escritora americana chamada Laurie King. Ela criou para Holmes uma parceira à altura. Mary Russell. Tocando num dos principais pontos acerca da incógnita que é Sherlock Holmes: sua sexualidade. Doyle fez dele um misógino, mas, seus leitores – não sei quanto aos do passado, mas os de hoje, em sua maioria – fizeram dele um homossexual. Eles acreditam e algumas montagens cinematográficas dão dicas a esse respeito, que Holmes e Watson tinham um relacionamento, que eram parceiros amorosos. No entanto, os atuais donos dos direitos autorais da obra de Doyle repudiam a ideia (quando o aclamado seriado da BBC queria tornar isso uma realidade concreta, eles disseram que “ou muda ou não vai acontecer”). Não por preconceito, creio eu, mas porque, nesse caso, “não saber” é o que torna Sherlock Holmes, Sherlock Holmes.

Mas, vamos agora passar para a razão de eu estar aqui escrevendo esse post. Ontem a noite, conclui a leitura de outra obra sobre a vida do pomposo detetive (como o chamo carinhosamente): Um Pequeno Truque da Mente de Mitch Cullin. Ele, o autor, se distanciou muito do que eu estava acostumada a encontrar na nova ficção sobre Sherlock. Em sua obra, Holmes está aposentado e vivendo isoladamente num chalé em Sussex, cuidando de suas abelhas. Esta informação consta no canon (informações certas e originais da saga do detetive) e foi aproveitada para explorar o caráter deste ao longo da história. Como sobreviveria a brilhante mente de Holmes contra as intempéries da velhice? Tendo enterrado todas as pessoas com quem já se importara na vida, como lidaria com a noção de ser um cavalheiro solitário?

Essa análise feita de forma dolorosamente brilhante por Cullin nos leva a compadecermo-nos por alguém que, em toda sua arrogante juventude (palavras dele na obra, não minhas), demonstrou possuir uma compostura de ferro, inabalável. Em seu último caso, que no livro Holmes tenta reescrever para livrá-lo dos por ele chamados de “floreios e hipérboles de Watson”, o detetive se vê tentando solucionar o enigma da senhora Ann Keller. O início é tedioso e se alastra até o ponto marcante: Na intenção de segui-la, ele se disfarça como um bibliotecário romântico, colecionador de livros. Durante seu breve diálogo com a moça, Mitch nos passa a ideia de que Holmes/bibliotecário sentiu alguma coisa por ela… “Uma espécie de amor, alguns dirão para tentar se sentirem melhor”, como o detetive confidencia depois para sua governanta. Se não amor, uma curiosidade pelo sexo oposto. Forte o suficiente para depois de deixá-la ir, sentir um vazio no peito. Sentir-se só e não esquecê-la nunca mais. Na narrativa, Holmes afirma que o bibliotecário não tinha a mais nobre das intenções para com ela.

Seguidamente, ele afirma não saber nada sobre o sentimento; nunca buscara ou fora capaz de entender o amor. Aqui – e pelos acontecimentos ao redor do diálogo entre ele e a governanta, Sra. Munro, – é quando, pelo menos eu, senti uma enorme vontade de entrar no livro e dizer a Sherlock Holmes que ele entende sim o amor, mas da maneira dele. Minha frase favorita de Tolstói diz que há vários tipos de amor quanto há corações. De fato, talvez, não fosse amor o que sentira pela Sra.Keller, mas naquele breve instante juntos houve o interesse. Ela o cativou o suficiente para influenciá-lo numa das maiores decisões de sua vida, a qual não revelarei aqui por considerá-la spoiler.

Enfim, lágrimas e mais lágrimas caíram dos meus olhos ontem à noite enquanto terminava minha leitura, pois é uma análise fantástica sobre uma parte do caráter de Sherlock Holmes que merecia tanto destaque quanto a sua sexualidade. A sua solidão. De certa forma, possivelmente, uma está atrelou-se a outra durante a narrativa, mas a segunda ganhou um destaque poético muito acalentador.

Espero não tê-los cansado nesse desabafo… Mas, a figura do personagem de Conan Doyle marcou-me profundamente na infância e continua a marcar, de forma que eu precisei falar sobre o livro de Mitch Cullin aqui. E encerro, com uma quote da obra que me fez vir até aqui.

Assim, com a rápida chegada do anoitecer, eu nada levaria do jardim, exceto aquela ausência impossível, aquele vazio interior que ainda comportava o peso de outra pessoa: um espaço que tomava a forma de uma mulher singular e curiosa que nunca conheceu meu eu verdadeiro.

xoxo

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5 comentários sobre “Mr. Holmes – O cavalheiro solitário

  1. “Jamais me esquecerei da emoção de virar aquela esquina e avistar a fachada da casa” Acho que essa é mais uma das coisas que compartilhamos, a emoção de conhecer “a casa” de Sherlock Holmes 🙂

    Você escreve muito bem, de verdade. É uma delícia de ler! Sou suspeita para falar de Sherlock Holmes e confesso que fico com um pé atrás – talvez os dois – quando se trata de outra pessoa escrevendo sobre o detetive. Mas fiquei muito tentada a ler o livro. Eu já estava louca pelo filme (e estou ainda, segurando o torrent aqui na esperança de poder ver Ian McKellen interprtar Holmes no cinema), mas agora senti uma necessidade enorme de conferir o livro. Antes, de preferência hahaha A questão é só se eu consigo um exemplar até lá.

    Amei!! Pode ter certeza de que assim que eu ler o livro/assistir ao filme irei comentar com você ❤
    Beijo!

    Curtido por 1 pessoa

    • Eu seeeei!! Aquela plaquinha na sua foto de capa do twitter denuncia muito o seu amooor, sem falar as nossas conversas!! Significa o mundo que você deu uma passada por aqui e que bom também que você gostou da minha resenha hahahaa. Vou querer saber com detalhes o que achou do livro/filme depois, okey? Okey. Bjooos!

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  2. Como de costume…. QUE ESCRITA, MULHER!!!! Eu me senti em Londres quando li você descrevendo sua chegada em Baker Street! Saia do Direito logo e vá pro jornalismo, pra poder escrever mais postagens nesse estilo. Você devia virar crítica de cinema e literatura! E viva Holmes!

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    • Hey! Hahaha, e eu achando que um dia você ficaria enjoado de ouvir meus relatos sobre Londres. Fazemos isso desde a quinta série né? E, sim, eu devia! Mas, entre o dever e o fazer há uma grande ponte que eu ainda não me sinto confortável em atravessar. Quem sabe o que o destino nos reserva… Um bjoo e obrigada pelo carinho de sempre!

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