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A pianista descalça

Numa tarde de Sábado, era Dezembro, vésperas de chegar o tão adorado Natal, uma garotinha deparou-se com uma visão que mudaria para sempre a sua vida. Era uma senhora, parecia estar em seus sessenta anos de idade, tinha o cabelo castanho bem rente, estilo Audrey Hepburn em A Princesa e o Plebeu – embora a menina só fosse vir a fazer tal comparação anos mais tarde – usava uma combinação de blusa e saia longa pretas, mas esses detalhes eram os de menor importância naquele momento.

A senhora estava sentada ao piano; um belo piano de cauda e nos pedais, seus pés. Sem sapatos. Subiam e desciam sem parar, e a mulher tocava sem olhar para as teclas. Na verdade, não olhava para lugar nenhum, apenas para a frente, em transe, como se uma cena bem bonita estivesse percorrendo sua mente ao passo que a música se desenrolava. Esta era desconhecida da menina, mas parecia significar o mundo para sua performista.

Hipnotizada por aquilo que via, a garotinha andou hesitante até o instrumento, parando a poucos metros a fim de observar melhor os pés descalços. De tudo o que poderia passar pela sua infantil cabecinha a respeito daquela cena, o que lhe chamava mais a atenção era o fato gozado de que a mulher não usava sapato algum. Estavam jogados a poucos centímetros dos pedais. A menina continuou ali, observando. Era o máximo que conseguia fazer, visto que nunca fora boa em começar um diálogo com nenhum estranho – esse era o talento de sua mãe.

Por fim, a música que estivera mantendo a senhora longe cessou e ela, notando a presença da menina, baixou o rosto para fitá-la com um meio sorriso. A criança sorriu de volta – um hábito seu, dar sorrisos a quem quer que fosse – e permaneceu onde estava, sustentando o olhar da outra. Aquilo, para o observador comum, teria durando um segundo, mas, para uma criança ansiosa de cinco anos e meio, ansiosa e que se sentia tola por não encontrar palavras, foi quase um minuto inteiro.

Então, surgiu em seu socorro, seu pai, que numa forma de intermédio disse que sua criança gostara da música. Ele não poderia estar mais errado, afinal, ela nem sabia que música era aquela, por que deveria se importar? Sua curiosa estava nos pés descalços. Ela não poderia ter tocado com os sapatos? Certas perguntas, no entanto, não devem ser feitas por uma menininha que mal sabe das coisas e cujo maior medo na vida era ofender um desconhecido. Logo, limitou-se a acenar a cabeça concordando com o que seu pai dissera e afastou-se alguns metros, enquanto a senhora falava qualquer coisa a ele.

Passaram-se anos e a pergunta jamais foi respondida. Ninguém sequer ficara sabendo do ocorrido, a não ser pela mãe da criança. A história da mulher descalça ao piano deu lugar a outras em seu subconsciente, mas sem jamais deixá-lo completamente. Quando, então, chegou o dia em que a própria garotinha passara a ter aulas de piano, como num lampejo, sua memória trouxe à tona aquele instante… aquele momento de cócoras analisando os pés da senhora. Agora, a garotinha já era garota e entendedora o bastante do instrumento para saber que não era permitido pisar ao pedal em público sem que estivesse com os sapatos calçados…

Mas ali era a sua casa e não custaria nada tentar… não custaria nada sentir. Ela estava praticando um de seus Czerny’s e retirou os chinelos. Ao primeiro toque, o pedal estava gelado. Seria praticamente um martírio permanecer com o pé naquela posição, no entanto insistiu. Se aquela estranha conseguiu, por que ela não iria? Descalça, continuou a praticar o exercício até o pedal amornar. A sensação era boa. Sentir as vibrações do piano enquanto cada tecla tocada acionava uma corda diferente por trás da madeira. E sem os sapatos, era mais harmonioso o movimento de subir e descer necessário para a expressividade da melodia.

Embalada por aquelas sensações calorosas, a garota parou por um instante com o exercício e começou a dedilhar a sua melodia favorita. O som calmo e conhecido possibilitou que ela não precisasse olhar para as notas, apenas para frente, enquanto imaginava a cena a qual a canção lhe remetia. O campo. Um rio azulado e ao mesmo tempo uma mulher usando um vestido preto parada à frente da vitrine de uma enorme joalheria comendo donuts com café.

Quem avistasse aquela cena pensaria que não passava de uma garota tocando uma música qualquer de pés descalços. Quando, na verdade, era uma garota experimentando o mundo pelos pés de uma velha pianista descalça.

xoxo

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2 comentários em “A pianista descalça

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