Thoughts on Books

Amanhã é outro dia.

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Uma vez, Elizabeth Bennet, numa tentativa de troçar de Fitzwilliam Darcy, perguntou a ele se considerava o orgulho um defeito ou uma virtude.

“E o Vento Levou” é uma das grandes obras da literatura americana. Acredito ser para os Estados Unidos, o que Guerra e Paz é para os russos. Conheci o trabalho de Margaret Mitchell através do cinema, após muitos anos de indiferença para com a produção de 1939. Passei dezoito anos da minha vida desdenhando deste trabalho, por acreditar ser nada mais do que uma grande borra água com açúcar… Claro, até então eu desconhecia o final de Mitchell… desconhecia a grandeza de seu filho único.

A história é mais do que um conto de amor. O que o vento levou não foi apenas o que Rhett Butler sentia por Scarlett O’Hara, até passar a não dar a mínima. Mas sim, o estilo de vida exaltado pelos sulistas. A forma pacata de vê-la acontecer, que seguia as regras quase medievais de sucessão, de propriedade de casamentos, de honra, das noções de certo e errado. Tudo isso dizimado pelos ianques – como é chamada a população do norte – das mentes de homens e mulheres que, então, deveriam aprender seu lugar no novo mundo.

Entre várias análises, o livro nos traz esta a respeito de como encontrar novo propósito para a vida, uma vez que aquilo que acreditávamos ser o certo, passa a ser o retrógrado. Como lutar, sobreviver e seguir em frente diante de uma reviravolta inesperada? Para tanto, temos as figuras dos nossos personagens principais. Primeiramente, temos Scarlett O’ Hara. Uma mulher com mil defeitos e uma qualidade, sendo que esta, por pouco, não poderia se passar por outro deles também. Refiro-me a sua força. Scarlett era a típica menina rica mimada, acostumada a ter todos os seus caprichos satisfeitos, completamente apática as necessidades dos outros.

No entanto, durante a guerra, vê-se obrigada a tomar as rédeas sobre o próprio medo para salvar Tara; sua casa que fora quase destruída pelas invasões dos ianques. A mocinha que nunca “pegara na enxada” nada vida e jamais tivera que se preocupar em contar quanto dinheiro tinha no bolso, torna-se a chefe da família, responsável por todos, uma vez que sua mãe falecera e seu pai, corroído pela dor da perda da esposa, perdera sua vitalidade, vontade de viver e sanidade junto com ela. Essas provações fazem com que Scarlett passe a ser completamente obcecada por dinheiro e também constroem uma casca sobre seu coração que a torna quase desumana.

Existe uma personagem secundária, com a qual tem dois de seus diálogos mais significativos e que, acho que por querer, Mitchell deixou uma metáfora. A personagem é vovó Fontaine, uma senhora de quem Scarlett sentia muito medo quando nova, mas com quem, depois desses acontecimentos na guerra, o leitor percebe, passa a ter algo em comum. Vovó Fontaine, sob outros pretextos, também fora obrigada a “pegar no pesado” quando jovem e muitos de seus sentimentos sobre o ocorrido combinam com o que Scarlett sentira durante sua chegada a uma Tara praticamente esquecida por Deus. A anciã alertou a outra para que aqueles temores não erguessem uma muralha em seu coração, para que ela não se fechasse para os sentimentos primários, tais como o amor… Porém, Scarlett O’Hara sempre fora uma pessoa bastante literal e incapaz de entender metáforas ou conversas demasiado complexas, de forma que a ignorou e acabou tendo seu coração corrompido.

Corrompido de várias formas, mas nunca sobre outro fator de grande importância para a trama: seu suposto amor por Ashley Wilkes. Este, que a meu ver, representa o tipo de pessoa incapaz de se afastar do passado e que, portanto, se estagna no tempo diante de todas as mudanças trazidas por uma grande mudança, no caso, a Guerra Civil. O seu tipo, os cavalheiros do sul, haviam morrido. Tudo aquilo pelo que lutaram: as fazendas enormes com infindáveis quantidades de negros para servi-los e que passariam de pai para filho, se fora. Ashley estava perdido. Sempre fora uma criatura poética, das letras, ao passo que Scarlett, em sua literalidade, sempre fora uma menina pragmática. Eles não combinavam, mas ela não conseguia enxergar, pois, como pontuou a vovó Fontaine, Scarlett era muito esperta no que concernia a números, mas muito tola no que se referia a pessoas. Não conseguia lê-las ou entendê-las. Todos viam a infelicidade de Ashley em seu deslocamento no “novo mundo”, no entanto ela preferia se convencer de que tudo estava bem a deixá-lo ir…

Existe uma frase que diz: há uma grande diferença entre amar alguém e amar a ideia que se tem sobre aquele alguém. É a melhor definição para a relação de ambos. Scarlett amava o que Ashley representava, mas nunca fora capaz de entendê-lo a fundo e só percebeu isso quando já era tarde demais. O que nos traz a Rhett Butler. Eu me apaixonei por Rhett, ah sim, mas isso não o escusa de muitos dos erros que cometeu junto da senhorita O’Hara… Mas foi capaz de olhar a criatura nos olhos, entendê-la e amá-la em meio a todos os seus tormentos pessoais. Havia muita verdade em cada frase desdenhosa que dirigia a Scarlett enquanto tentava explicar a ela as limitações de seus argumentos e quando tentava justificar suas ações durante a guerra.

O romance entre eles é o que me levou a mencionar o momento entre Elizabeth e Darcy no início deste post, pois entre ambos havia um jogo irresponsável de egos, de orgulhos que não deveriam ser feridos. No referente a Scarlett, suas ações se guiavam puramente pelo despeito e por considerá-lo um ordinário se comparado ao seu doce senhor Wilkes. Seu orgulho era o de uma criança que não gostava de ser repreendida; de quem rissem dela. Ouso dizer, ela sofria da síndrome da rainha má e achava que por sua grande beleza deveria ser amada e idolatrada por todos, que deveria vir em primeiro lugar em suas afeições. Já Rhett, como nos é revelado no fim, seu orgulho jazia no fato de nunca querer ser subjago, humilhado ou que brincassem com suas emoções. Em suas palavras, se Scarlett soubesse o quanto a amava desde o início, teria sido tão impiedosa quanto fora com todos os outros rapazes que a cortejavam, bem como com seus dois primeiros maridos.

E eu não tiro a razão de Rhett quando, em várias passagens do texto, a narradora nos mostra que realmente, por todas as vezes que ele rira dela, Scarlett planejava arrancar uma confissão calorosa de amor a fim de humilhá-lo. Em todas as suas relações, gostava de ser aquela que ordenava como o jogo deveria ser jogado, de dominar. Finalmente, ao começar a perceber seus sentimentos por Rhett, no entanto, ele já estava tão desgastado de seu amor por ela, que as zombarias chegaram ao ápice e mesmo sabendo que o amava, ela ainda permanecia orgulhosa o bastante para não deixar, por um segundo, que ele tivesse a última palavra e pagava-lhe na mesma moeda. Isso custou-lhes a vida de um filho não nascido…

Faltava comunicação onde só havia joguinhos de poder. Ainda assim, foram lágrimas e lágrimas caindo quando ao final, ela lhe jurava amor e Rhett já não dava a mínima. Margaret foi clara ao afirmar que deixou o final em aberto para que seus leitores decidissem se eles voltaram ou não a ficar juntos. E eu gostaria muito que a romântica incurável de meu coração falasse mais alto: Claro que eles ficaram juntos! Eles foram feitos um para o outro, só tinham que sentar, deixar as máscaras de lado e falar abertamente. Contudo, não consigo… O argumento de Rhett no final fora muito válido ao afirmar que “mesmo o mais imortal dos amores pode se desgastar” e usando o dela por Ashley como exemplo. E ultimamente temos vistos vários outros exemplos… Garota Exemplar, ainda que de uma forma meio sociopata, tratou sobre o tema e depois de toda a, desculpem o termo, “merda” que Scarlett fez, não acho que seria possível…

Scarlett, nunca tive paciência de pegar fragmentos quebrados, colá-los e dizer a mim mesmo que o todo consertado está tão bom quanto quando era novo. O que está quebrado está quebrado… e prefiro lembrar de como era em seu apogeu do que consertá-lo e passar a vida enxergando as partes coladas.

Entendem? Durante toda a obra, Scarlett desenvolve sua filosofia inquebrável de que “Não pensarei nisso hoje… pensarei amanhã…” e, embora eu realmente acredite que para vários assuntos seja uma atitude sensata, não seria o bastante para eles. Rhett já estava em seus 45 anos e ela ainda com 28… seria necessário um tempo de trabalho muito grande para que nenhum dos dois enxergassem as partes coladas, porque, afinal, a culpa cabia a cada um. O orgulho destruiu o que poderia ter sido um casamento feliz entre mentes iguais, que reconheciam seus males e ainda assim escolheram um ao outro. Devido a isso, ao fechar o livro pela última vez, meu pensamento final foi que o amanhã não viria dessa vez, Scarlett. Não como você planejou…

Por fim, quero falar sobre ela: Melanie “Melly” Wilkes. Amada por muitos mais do que a própria protagonista, Melly é a figura verdadeiramente humana da obra. Embora todos a vejam como uma santa, em vários momentos ela demonstra as fraquezas naturais de todo o ser humano, mas como decide agir sobre elas, sempre escolhendo o que era melhor para os outros, a tornou uma das personagens mais queridas por mim. Muitos dirão que a personalidade de Scarlett faz com que o livro seja tão delicioso de ser livro, mas eu digo que a figura de Melaine é tão importante quanto. Ela foi a única amiga verdadeira da senhorita O’Hara e seu senso de lealdade me é invejável e inabalável caráter também. Ela via todas as coisas que Scarlett fizera por ela ao longo da narrativa como prova de seu bom ser, quando na verdade se guiavam pela culpa de quebrar uma promessa feita a Ashley. E, talvez, alguns digam que, de fato, havia bondade na senhorita O’Hara ao nunca deixar Melly para traz, mas eu digo: Não adianta praticar boas ações, se em seu coração não há nada que as impulsione além do senso de dever, da aprovação ou reprovação alheia.

Eu poderia ficar horas divagando sobre a marca que este livro deixou em mim, passando a ser um dos melhores da minha vida. No entanto, não quero entendiá-los… Então, bola para frente, “afinal, amanhã é outro dia.”

xoxo

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3 comentários em “Amanhã é outro dia.

  1. Ana, sou a louca dos old movies e dito isso, obviamente que já assisti E O Vento Levou. Morro de vontade de lê-lo, e agora mais ainda depois dessa resenha. Claro que reconheço os personagens e histórias por conta do filme e com certeza ao chegar a ele, imaginarei Scarlet como Vivian Leigh e Rhett como Gable. Mas tudo bem, tenho certeza de que como sempre, o livro é melhor que o filme. Acredito que sejam quase mil páginas de uma leitura magnífica! :*

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    1. Louca por old movies? Deixa eu te dar um abraço?! Deixa. *abraça virtualmente*. Nossa! Eu já perdi conta de quantas vezes já assisti e o vento levou! É um filme maravilhoso!! E o livro, sim, melhor ainda, justamente pela relação entre esses personagens mais secundários que foram cortados do filme! Serão páginas worthy of your time

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