O Perfume de um Assassino

Este post é mais um da série: antes tarde do que nunca, da minha vida. Acho que já cheguei a mencionar em outro momento que este é um dos vários mantras que veem se mostrando recorrentes conforme os anos passam por aqui. Em ambas as menções, se refere a leituras adiadas que, após feitas, fazem com que eu me arrependa de ter cometido tal atrocidade. Existem livros que não são apenas bons porque alguém com credibilidade no seu círculo de amigos o recomenda com aquela veemência de: “Meu Deus, Carol… VOCÊ PRECISA LER ESSE LIVRO! ELE É A MELHOR COISA DO MUNDO E VAI MUDAR A SUA VIDA!”, mas porque realmente foram escritos com o cunho de se tornarem a grande obra prima de determinado autor. E marcam não um tempo, mas uma ideia.

Vamos lá, então. Faz um mês que terminei a leitura de O Perfume, autoria de Patrick Süskind. Acredito que tenha sido no primeiro ano do colegial que meu professor de História, o inesquecível mister Márcio (Mario Bros para os íntimos alunos gozadores), me abordou na minha mesa dentro da sala de aula dizendo: Aninha, (forever in love com esse carinho todo) você já leu O Perfume? E eu, na minha tola superioridade disfarçada de inocência respondi: Não! Na aula seguinte, ele me trazia seu exemplar – capa dura, azul marinho, páginas amareladinhas – para que o fizesse. Fiquei com essa preciosidade por dois horários de aula… e o devolvi no final. Detalhe que eu havia gostado dos dois primeiros capítulos que lera – durante a explicação, vejam vocês! – porém, não estava acostumada a pegar livros emprestados e, na época, era extremamente enrolada com leituras…

Hoje, no entanto, mais madura e com o meu próprio exemplar baixado e em mãos no meu leitor digital, tive o mesmo impacto naqueles primeiros versos/orações; e se houvesse alguma maneira de ter feito diferente, ter ficado com a cópia do meu professor, devorado rapidamente, como fiz dessa vez e devolvido cheia de figurinhas para trocar… O quão divertido não seria! Porque ele tinha razão. E se há algo que eu gosto de dizer as pessoas que me recomendam um livro é: “Você tinha razão ao dizer que eu gostaria desse livro. É tão encantador saber que me conhece tão bem.” Mas daí vocês tenham em mente que a história de O Perfume trata do “nascimento” de um assassino e pensem: “Wow! A pessoa que a conhece tão bem recomenda justamente um livro no qual o protagonista é um assassino? O que pensar?” Calma lá.

Romances tais quais o do senhor Patrick Süskind realmente possuem um apelo subjetivo em mim. Não por tendências psicopatas/sociopatas; NÃO! Mas, pela riqueza de detalhes que me garantem uma profunda análise psicológica do personagem. Permitindo que eu, assim, seja capaz de analisar seus motivos e o seu crescimento. Afinal, do contrário, nos resumiríamos a dizer: Ah, tal personagem fez isso porque ele é mal. E o outro agiu assim porque era bom. Gente. Gente. Nós sabemos que isso não rende boa literatura. Pode passar batido por nós durante os primeiros anos da infância, quando começamos a entender o certo e o errado, mas, ao pisar nos primeiros degraus da maturidade, devemos entender o conceito de cinza e deixar o preto e o branco para trás.

Além disso, Patrick foi um escritor alemão capaz de abrir os olhos para a verdadeira Paris. Quero dizer, em filmes como o da Sofia Coppola (Maria Antonieta) em que a fotografia grandiosa de Versailles acaba sendo demasiadamente enaltecida e nos cega para o que, de fato, foi aquele século. Sinceramente, esse livro não muda minha paixão pela arquitetura de Paris, La Vie en Rose e afins, mas me abre os olhos para outro tipo de detalhes. O cheiro de Paris. As primeiras páginas do romance se iniciam com tamanha insalubridade… o nascimento de Jean-Baptiste Grenouille em meio a uma barraca de peixes próxima às docas… É asqueroso. Brutal. E de floreado de tal forma que o que nos transporta para dentro da história não são os acontecimentos em si, mas o cheiro dos acontecimentos. Subitamente, vemo-nos envoltos pela sujeira da capital francesa.

E o mais interessante e que nos é revelado já no início da estória é que Jean-Baptiste, apesar de ter o nariz mais aguçado da Europa, capaz de ditar mais de mil aromas diferentes, não possui o seu. Ele não cheira. Por isso, passa despercebido entre a multidão e repudiado por aqueles que conhece, julgando-no estranho. Há uma passagem maravilhosa no texto, enquanto Grenouille começa a questionar a ausência de sua própria essência, na qual o autor abre para uma reflexão fantástica, a meu ver. De forma bem simplória, uma pessoa honesta tem um cheiro específico que faz dela alguém em quem se possa confiar. Uma jovem bonita, tem em sua essência algo que faz com que os homens a desejem… seguindo essa linha de raciocínio que, obviamente, é BEM MELHOR desenvolvida nas palavras de Patrick, temos a máxima de sua obra colocada diante de nossos olhos:

“Quem dominasse os odores, dominaria os corações das pessoas”.

A partir desta descoberta, vemos o interesse de Grenouille em alcançar o perfume perfeito. Aquele que fará com que todos se dobrem a sua vontade… Não vou revelar mais, porque espero tê-los incitado com apenas essa una citação. Contudo, concluo esta resenha com um pensamento pessoal. Süskind é alemão e escreveu sobre a conduta de um assassino. De forma ficcional, mas o fez e utilizando-se de um pretexto que, aos nossos olhos pode soar absurdo, mas, será mesmo? No que concerne às teorias penalistas, os pensadores alemães sempre obtiveram grande destaque… Por que não haveria de ser um dos primeiros sentidos que desenvolvemos enquanto seres humanos, objeto de estudo para eles? Um bebê reconhece o cheiro de sua mãe e este lhe transmite segurança. Tal qual por um momento se passou com Grenouille, poderia a manipulação do perfume de um assassino mudar o que pensamos dele? Se fossemos incapazes de resistir ao seu odor, a melhor coisa que já sentimos, o veríamos como inocentes?

Com todas as forças, gostaria de dizer que não. Mas fui manipulada pela construção textual de Patrick… e ainda reflito. É quase como uma discussão que vi há algum tempo sobre Cinquenta Tons de Cinza. As ações daquele personagem masculino para com sua parceira deixam de soar como masoquistas por ele ser um homem bem sucedido…?

Não queria criar polêmica. Apenas, leiam O Perfume… e sintam-se hipnotizados pelos aromas de Paris, hahaha.

xoxo

P.S: Existe um filme baseado na obra, com o meu eterno querido ator e que nunca será esquecido, Alan Rickman. Boa adaptação. Recomendo. Tem no Netflix, aliás. Mas, leiam o livro antes. Por mais que o ator que interpreta Jean-Baptiste se esforce em nos fazer acompanhar sua linha de raciocínio, nada, nesse caso, se compara a onisciência do autor.

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