desvendando o enigma · Discípulas de Carrie

Meiguice não é fraqueza

O título pode ser autoexplicativo, mas eu gostaria de poder aprofundá-lo um pouco mais, especialmente hoje: O Dia Internacional da Mulher. Eu preciso começar dizendo que sou usuário de um Tumblr. Acredito que só essa informação, a essa altura da minha vida, já seja motivo para que você, quem está lendo esse texto, esmoreça toda a minha credibilidade para escrever sobre qualquer assunto que seja. No entanto, eu diria que o meu Tumblr (oldmovieslover.tumblr.com – sim, merchan) é o meu maior espaço de pesquisa. Através dele, eu descobri vários novos fandoms, bem como a sincera opinião de várias pessoas dos mais diversos países sobre diversos assuntos. Seja o suicídio, seja o feminismo, seja algo banal sobre – personalidades de personagens fictícios. De forma que, ultimamente, venho notando uma atitude dentro dos fandoms que tem me preocupado muito, porque eu já estive lá, eu já compartilhei desta atitude, mas agora que paro para analisar, ela é de certa forma errada e precisamos falar sobre isso.

Isso o quê, Ana? Bem, acho que estamos tentando simpatizar com alguns personagens pelas razões erradas. No momento, meus sentimentos estão um tanto confusos a respeito deste assunto e então creio que a melhor forma de fazê-los entender, é através do exemplo que mais grita para mim. Muito provavelmente, muitos de vocês conhecem a saga das Crônicas de Gelo e Fogo de George Martin, atualmente adaptada para uma série televisiva da HBO. O que eu quero dizer neste post encontra embasamento na dicotomia entre duas personagens desta saga: Sansa e Arya Stark. Acho que vocês devem ter sacado o que eu quero dizer, no dia internacional da mulher, usando essas duas moças como exemplo e tendo a postagem tal título; mas, vou ser ainda mais clara: chegou até mim, como uma epifania, que talvez nós estejamos mal falando de Sansa Stark e idolotrando Arya Stark por razões erradas. Calma, eu vou dissertar. Primeiro, eu gostaria de esclarecer que, sim, eu sei que ambas têm seus defeitos e suas qualidades, independente do que virá a seguir. Obrigada, espero que continue descendo a página para ler mais. E sim, essa indignação está mais voltada para personagens femininas.

Serei simplista. No início da febre de As Crônicas de Gelo e Fogo/ Game of Thrones, havia muitas meninas, inclusive eu, debatendo no Tumblr ou na rodinha de Domingo: “Eu odeio Sansa/Sonsa Stark. Ela é uma chata! Eu sou muito mais a Arya, que sonha em ser uma grande espadachim, um cavaleiro.” Ou seja, nós detestávamos a Sansa, simplesmente porque ela acreditava nos contos de fada, era romântica, ingênua, manipulável, doce, filhinha da mamãe. E queríamos ser a Arya porque na nossa mente ela era foda. E por que Arya era foda? Porque em seu arquétipo, havia caracteres de uma feminista, pois, pelo menos na minha, concepção infantil da época, feminista é aquela mulher que impreterivelmente deve ter traços masculinos. Não no sentido: uma voz grossa, braços fortes. Nada disso. Contudo, ela deveria saber lutar. Ela simplesmente não poderia ficar observando enquanto outra pessoa faz o trabalho sujo, chorar quando ficasse assustada ou ser excessivamente gentil. Ela deveria ser osso duro.

Substituindo uma figura autoritária masculina por outra

Entendam, não estou dizendo que se você gosta da Arya, você está errado. Ou se você é uma pessoa fria, é o pior ser humano do mundo. Só estou querendo dizer que: por que você ser a Arya é algo admirável, mas se você for uma Sansa, é intragável, passável? Por que eu, Ana Carolina, alguém que, se vivesse no universo de As Crônicas de Gelo e Fogo, seria uma Sansa Stark da vida (sonhadora, romântica, delicada e meiga) devo achar que ser assim é reprovável e buscar ser como Arya Stark? Por que ultimamente, para que nós tornemos uma personagem feminina admirável, ou melhor, para que nós a admiremos, ela tem que ser FODONA? Não perfeita, mas, ser sassy. Outro dia, dois anos atrás, eu vi uma postagem no Tumblr que me deixou pensativa por uma boa meia hora. Estamos vivendo um momento em que valorizamos mais aquele personagem com tiradas sarcásticas, que na vida cotidiana seriam tidas como grosseria, e rebaixamos aquele gentil. A típica melhor amiga. Queremos viver em um mundo de Violet Crawleys, de línguas rápidas e ferinas, e por causa disso esquecemos da beleza que é ser uma Anna Bates! Doce, leal, prestativa, boa demais para esse mundo Anna Bates.

Não quero generalizar. Não são todas as meninas do mundo que pensam assim, mas o número que pensa já me preocupa o suficiente para me dar ao trabalho de escrever esse post. Outro exemplo que posso dar e que também me trouxe até aqui, foi a minha recente leitura de E O Vento Levou. Na minha resenha sobre o livro (Amanhã é outro dia), eu acredito ter deixado bem claro o meu asco para com a protagonista, Scarlett O’Hara e meu amor pela coadjuvante Melanie Hamilton. No desenvolver da obra, Scarlett vai ganhando sua “emancipação” ao passo que adquire uma loja e começa a trabalhar, algo que, para a época em que se situa a narrativa, seria um absurdo. Uma mulher não deveria fazer isso. Tá, ok. Parabéns para a senhorita O’Hara por não se importar com as fofoqueiras de plantão e seguir com seu plano, embora seja puramente mesquinho. Contudo, me incomoda alguns comentários de leitores que afirmam que, Scarlett ser como é torna a leitura de um livro de 950 páginas valer a pena. Tudo bem, você pode gostar de analisar o caráter dela durante a leitura, mas, se você, depois de tudo, quiser ser Scarlett O’Hara… eu rezo por você.

Por quê? Porque ela não era a típica dona de casa que Melanie foi? Porque você é uma pessoa tímida e gostaria de ter a garra dela para “falar na cara” o que sente? Melanie Hamilton estava ali o tempo todo para lhe mostrar que tudo bem ser assim, digo, ser tímido e não conseguir ser hostil com outro ser humano. A gentileza é algo maravilhoso. Precisamos mais disso no mundo em que vivemos! Mas daí me veem pessoas glorificando: Lady Mary Crawley, Irene Adler, Annalise Keating… Mulheres fortes, eu sei. Eu as amo tanto quanto vocês! O problema é que eu não sou como elas e, por vezes, é um esteriótipo tão reproduzido em Hollywood – a dama de ferro – que em certos momentos, me pego pensando se eu não deveria abandonar minha fachada Sybil Crawley, Molly Hooper, mulheres tidas por mim como representantes do grupo: nós preferimos a gentileza ao sarcasmo, muito bem, obrigada… Além do mais, pausa para foco na Molly. Ela não é a Irene. Eu creio que a nossa patologista não teria facilidade em atirar contra uma pessoa, mas AMIGOS, OLHA A DESTREZA DESSA MULHER EM UM LABORATÓRIO! ESSA MULHER FEZ SHERLOCK HOLMES SE DESCULPAR COM UMA OLHADELA SÓ! E ELA NUNCA PRECISOU DE UMA ARMA! ELA NUNCA PRECISOU SER SEXY OU USAR DE SEX APPEAL! ELA SIMPLESMENTE FOI MOLLY! FOI MEIGA, DOCE… mals o excesso de caps lock, mas enfim… estão entendendo? Gente, eu não sei ser mais clara… talvez eu não esteja sendo clara de jeito nenhum, mas, entende?

Vou resumir então o que eu quero dizer: você é uma mulher forte da maneira que você quiser! Você pode ser uma personagem forte independentemente de saber lutar mano a mano, com espadas ou se simplesmente for aquela amiga que está sempre pronta para ouvir ou fazer uma piada no momento certo! Todos esses arquétipos são dignos de admiração! E a Sansa, a mulher meiga, sonhadora e romântica, é tão fabulosa quanto a Arya! Você não empodera uma mulher por colocar uma calça nela! Vendendo o esteriótipo muralha intangível. Eu, e talvez você, temos que parar de assistir seriados ou ler livros e achar que aquela Miranda Priestly ou que a Irene Adler são as ultra mega super gatas da parada! A última bolacha do pacote, haha… estou me rebaixando aqui, mas enfim, A ÚLTIMA BOLACHA DO PACOTE! NÃO SÃO! Você que se vivesse no mundo do senhor dos anéis e seria aquela lady meiga, calada, tímida e que desmaia ao ver sangue, tem tantas chances de conquistar o seu Aragorn E O MUNDO usando, sim, uma saia ou uma calça, ou o que você quiser… Vocês podem tudo! De todos os jeitos são maravilhosas!

Vamos parar de achar (alguém me ajude a traduzir esse texto para o inglês depois, vou postar no Tumblr) que ser sassy ou saber como bater nos meninos – haha – é o que torna alguém interessante. Não é. O nome disso é: backstory.

~pausa para uma respirada~

Espero que não tenha ficado confuso ou que eu tenha ofendido alguém. Mais uma vez: Feliz Dia Internacional da Mulher.

Para fechar, duas quotes que representam bem o que eu quero dizer:

Screw writing “strong” women.  Write interesting women.  Write well-rounded women.  Write complicated women.  Write a woman who kicks ass, write a woman who cowers in a corner.  Write a woman who’s desperate for a husband.  Write a woman who doesn’t need a man.  Write women who cry, women who rant, women who are shy, women who don’t take no shit, women who need validation and women who don’t care what anybody thinks.  THEY ARE ALL OKAY, and all those things could exist in THE SAME WOMAN.  Women shouldn’t be valued because we are strong, or kick-ass, but because we are people.  So don’t focus on writing characters who are strong.  Write characters who are people.

“Chega de escrever mulheres “fortes”. Escreva mulheres interessantes. Mulheres bem cercadas. Escreva mulheres complicadas. Escreva mulheres que chutam traseiros, escreva mulheres que se escondem no cantinho. Escreva mulheres que estão desesperadas por um marido. Escreva mulheres que não precisam de um homem. Escreva mulheres que choram, que discursam, mulheres tímidas, mulheres que não aceitam a merda de ninguém, mulheres que precisam de validação e mulheres que não se importam com que os outros dizem. TODAS SÃO OK, e todas essas coisas podem existir EM UMA MESMA MULHER. Mulheres não deveriam ser valorizadas porque são fortes, ou porque chutam traseiros, mas porque somos humanas. Então não foque em escrever sobre personagens fortes. Escreva personagens que são humanos.”

Let her be angry, let her be resentful and rebellious. Let her be hard, and soft and loving. And sad. And silly. Let her be wrong. Let her be right. Let her be everything, because she’s everything.

“Deixa-a se zangar, deixa-se se ressentir e se rebelar. Deixe-a ser dura, e delicada e amorosa. E triste. E boba. Deixe-a estar errada. Deixe-a estar certa. Deixe-a ser tudo, porque ela é tudo.”

xoxo

Anúncios

6 comentários em “Meiguice não é fraqueza

    1. Cecília, a pessoa que eu conheço há tão pouco tempo e já considero pacas… Me deixa muito, muito, muito, a thousand times very feliz que você se sinta assim lendo alguma coisa que eu escrevo!! Obrigada por ser essa leitora tão carinhosa e essa pessoa tão diva!! TODAS SOMOS SYBIL CRAWLEY E MOLLY HOOPER!!

      Curtido por 1 pessoa

  1. Excelente texto! Que toda mulher possa ser amada por quem elas realmente são, e não por quem pensam que ela deveria ser. Ótima crônica. As Lufanas de Hogwarts te agradecem. Pela bandeira das admiradoras de tortas de limão! E das governantas que cuidam da casa e são sempre boas conselheiras! Pelas guerreiras, e pelas donzelas. Pelas mulheres. Pela humanidade. ❤ Obrigado pelo bom momento de reflexão.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Barbosa! Você por aqui! Hasuhaushasua… daquelas, tudo era só uma ideia, até você me dar inspiração para colocá-la no papel. Seu malandrinho hihihi… As Lufanas piram na representação! kkkkkkkkkkk E sim, por todaaas nós!! Mulheres que são mulheres de todas as formas, porque, assim como no Direito, não existe verdade absoluta sobre a maravilha que somos!

      Curtir

  2. Ana querida, tu escreves muito bem. E usando Downton Abbey como exemplo (exemplo perfeito, na minha opinião), acho que Mary e Sybil, assim como Edith são fortes em diferentes circunstâncias, cada uma a sua maneira, cada uma com uma personalidade totalmente diferente. Acho que o que te torna forte, é ter coragem pra buscar o que quer e as três fazem isso em algum momento da trama. Sansa e Arya a mesma coisa. E sim, todos preferem Arya porque ela quer aprender a lutar, a se defender, a ponto que Sansa sonha em virar rainha e casar com o Joffrey. Acho que qualquer uma teria o direito de voltar atrás com seus objetivos e seguir novos, assim como poderiam seguir com eles. O importante é que chegassem a onde queriam, e que essa vontade fosse totalmente pessoal, sua própria. E acho teu post super contundente com o atual momento, justamente por isso. Que passemos a achar mulheres fortes, aquelas que chegam onde querem, independente do caminho. Um beijo!!!!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Downton Abbey se tornou o melhor referencial ever! E, claaaro, eu não mencionei a Edith (que por sinal, sou eu mais do que todas), mas eu não me esqueci dela enquanto escrevia. Concordo completamente! Embora o pensamento seja um pouco sonserinesco (os fins justificam os meios haha) também concordo que o ponto é encontrar a felicidade, aquilo que se deseja enxergar no espelho do ojesed, independente do reflexo que as outras pessoas possam enxergar! Obrigada pelo carinho Kaka! Você também escreve muito bem!

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s