Once Upon a December…

Essa resenha vai começar com uma exaltação aos livros físicos. Por quê? Deixa eu explicar meu dilema para vocês. Durante a minha leitura de “As Irmãs Romanov: a vida das filhas do último Tsar”, realizada em um leitor digital, executei várias marcações em pontos que considerei interessantes desta biografia a fim de utilizá-los como citações para ajudá-los a entenderem meus sentimentos relacionados a estas pessoas, os Romanov. No entanto, como um castigo do além, só pode, hoje, quando fui checar, todas as minhas marcações haviam desaparecido. Se fosse em um livro físico, os post it estariam lá ainda, lindos e glamourosos… Vocês não têm ideia do que eu estou passando enquanto digito essa resenha que agora não ficará tão incrível quanto deveria…

Dito isso, vamos lá. Darei o meu melhor.

Reconhecem o título? Pois é, toda criança humana dos anos 90 deve ter assistido ao filme da Twenty Century Fox (NOT DISNEY) intitulado “Anastácia”. Um dos meus favoritos da infância e com certeza da vida toda, que como alguns outros, baseou-se no boato de que Anastasia Nikolaevna Romanova teria sobrevivido ao fuzilamento da família real pelos bolcheviques. Contudo, como todos nós descobrimos eventualmente, o filme apresenta uma enorme série de falhas, acabando na pura ficção. Isso não tira o seu mérito, afinal, eu só fui me interessar por história russa, depois que assisti “Anastasia” mais de dez vezes. Além disso, a trilha sonora é fantástica! Meus filhos assistirão. Fim.

Enfim, porque comentar a animação? Pois existe um ponto bastante explorado nela que se mostrou, ao menos nesta leitura, algo de certa forma mentiroso. À frente, eu explico. Helen Rappaport é uma historiadora britânica, formada na Universidade de Leeds, ex-atriz, especializada na Era Vitoriana (<3) e na Rússia Revolucionária. O gênero biográfico nunca esteve entre os meus favoritos. Digo isso, porque não foram muitos que eu li ao longo da minha história como leitora. De fato, meu primeiro contato com o gênero foi em uma biografia sobre a Marilyn Monroe e, logo em seguida, uma sobre a Duquesa Georgiana de Cavendish (sabe aquele filme “A Duquesa” com a Keira Knightley? Então, essa mesma!). Estas, no entanto, eu li saltadas, não em sequência, como fiz com algumas memórias de Jane Austen.

Contudo, tais memórias apresentavam um estilo que beirava a ficção. Baseado em diários e cartas antigas, o autor criara uma estória para Jane. Algo muito diferente acontece no livro de Rappaport. Como historiadora, ela teve acesso aos vários diários de Nicolau, Alexandra, das quatro grã-duquesas e até mesmo algo escrito pelo Tsaverich, o pequeno Alexei. As citações seriam exatamente de trechos destes diários (ainda com ódio), mas enfim, o livro se chama “As Irmãs Romanov”, mas seu relato começa antes do nascimento das quatro irmãs, com a vida da tsarina Alexandra, como viria a ser chamada após a conversão religiosa, mas que nasceu Alice de Hesse, neta da Rainha Vitória.

Um casamento com o início conturbado, devido a desaprovação da avó de que sua neta realizasse uma união com o trono russo e também aos receios religiosos da própria Alice. Ela era luterana e a Rússia era Católica Ortodoxa. Também uma mulher de saúde extremamente debilitada. Em resumo, não a mais indicada para se tornar Tsarina de uma Rússia tradicional e que voltaria todos os seus olhares maldosos para ela, caso não fosse capaz de dar-lhes um herdeiro. A velha ladainha de sempre, a qual já estamos acostumados de ouvir em pelo menos 6 a cada 10 filmes de época. Contudo, Nicolau estava apaixonado por Alice e decidido a se casar com ela. Seria uma das poucas vezes em que uma união “real” envolveria sentimentos. Por fim, aconteceu. Eles se casaram, Alice virou Alexandra e a corte russa já torcendo o nariz para uma monarca inglesa “tão delicadinha”.

Pouco tempo após o casamento, veio a primeira gravidez e um trabalho de parto conturbado que trouxe ao mundo a grã-duquesa Olga. Recebida com grande alegria por seus pais, mas nem tanto pela corte e população. O mesmo aconteceu com as outras três, na altura em que Anastácia nasceu, o povo já começava a odiar Alexandra; por ter se mostrado incapaz de gerar um menino. Os monarcas, no entanto, embora soubessem da posição difícil em que se encontravam, especialmente a tsarina, não se importavam. Afastados do mundo no palácio Tsarkoe Seló, viviam tranquilamente como uma família. Esse afaste é o que eu considero um dos maiores erros do Tsar. Certamente, me enternece o coração saber que, o Nicolau do Domingo Sangrento, era um bom marido, bom e amado pai; todavia, ele não era apenas isso. Voltar-se completamente para a vida doméstica não é o que se espera de uma figura pública. Na verdade, nem a atitude de Alexandra fica atrás. É claro, ela possuía seus trabalhos em hospitais e instaurou bons projetos, mas ninguém os via. A família real viria a se tornar um dos grandes mistérios do império.

8-10
Alexei recém-nascido com suas irmãs

Para atender as preces da tsarina, um menino veio. Seu quinto filho e, graças a Deus, antes que sua condição delicada a impossibilitasse de dar a luz. Contudo, a criança trouxera com ela um dos males do ducado de Hesse. A hemofilia. Durante seu crescimento, Alexei Nikolaevich viria a sofrer vários ataques devido a doença e não por falta de cuidados. Desde que descobriram a hemofilia, um médico ficaria sempre a disposição do menino. Porém, o que parecia mesmo curá-lo, eram as orações de Grigori Rasputin. Sim, o vilão da animação foi, na verdade, o grande salvador de Alexei, até a sua morte. Existe alguma biografia apenas sobre ele? Sinceramente, eu preciso ler. Este livro e talvez nenhum, foi capaz de me esclarecer a relação entre o “homem-santo”, como o chamava Alexandra, e as crianças imperiais.

Sendo um camponês, muitos dos membros da família e da própria corte, foram contra a convivência do homem com os pequenos. Seus modos rudes e propensões perniciosas seriam uma má influência. Contudo, do que consta nos diários das duas grã-duquesas mais velhas, Tatiana principalmente, Rasputin foi para eles um sacerdote com quem discutiam as questões religiosas do mundo. Olga, por mais que o admirasse e fosse grata pelo que fazia por seu irmão, notava como sua presença na vida de sua mãe não era positivo. Fez com que ela desenvolvesse uma fé exacerbada e quase doente. No entanto, como não? Seu filho, em momentos de crise, sangrava copiosamente. Um homem, entre tantos médicos e especialistas, se ajoelhava junto ao seu corpo e rezava fervorosamente. Minutos depois, deixava o quarto e se dirigia a ela dizendo “o menino viverá” e assim sempre era! Ele nem precisava ficar em sua presença. Houve ocasião em que por uma conversa de telefone, fora capaz de afastar as dores do garoto. Qual mãe zelosa e que reconhecia a importância de Alexei para a popularidade dos Romanov frente ao povo, não se encantaria com tal personalidade? Quem dissesse qualquer coisa contra Grigori era repudiado imediatamente.

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Anastácia, Tatiana, Alexei, Maria e Olga, respectivamente

Alexandra fizera questão de educar suas filhas nos moldes ingleses. Elas mesmas arrumavam seus quartos, vestiam-se de forma frugal, exceto em eventos oficiais e seus móveis e brinquedos não seguiam a moda opulenta russa, mas o estilo inglês. E, talvez, por viverem longe da corte, desenvolviam suas personalidades com mais liberdade. Ou nem tanta assim, pois Olga sofria diversas reprimendas sobre como sendo a mais velha, deveria dar o exemplo para seus irmãos e ajudar sua mãe na educação destes. Tatiana, a que todos diziam ser a mais bonita (eu, pessoalmente, prefiro a Maria), teve sua cota de amores platônicos e, durante a primeira guerra e trabalhos nos hospitais, era conhecida por ter o coração mais terno e o ânimo inabalável. Mais do que o da mais velha, que sob pressão, descobriu-se, herdara a condição delicada da mãe. Maria era estabanada. Minha citação favorita fora no diário de Nicolau a respeito de sua apresentação a sociedade. Aos olhos estranhos, ela “trupicara” tanto que parecia lhe faltar a graça de suas duas irmãs mais velhas. Por outro lado, para seu pai, fora especialmente divertido e a cara de sua Maria. Anastácia era animada e impossível de controlar. Fazia graça de tudo. Durante o início da transferência da família real pelos bolcheviques, todos sabiam que era ela quem mantinha os ânimos elevados com suas palhaçadas. E Alexei, como recorrentemente as citações deixavam claro, todos o achavam a criança mais bela e gentil. Com vários momentos de crises egoístas e mimadas, como todo filho mais novo e que eram rapidamente cortadas por seu pai.

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Maria, Tatiana, Anastácia, Olga e Alexei em trajes oficiais

É possível dizer que, embora o relato de Rappaport nos leve a simpatizar com a família, talvez com as crianças mais do que com os pais, nada desmerece o ocorrido de 1917. A desigualdade da Rússia imperial era gritante e a insatisfação popular era muita. Há uma citação de Alexandra (se eu a encontrar depois, editarei essa resenha) no período da primeira transferência deles para longe de Tsarkoe Seló, na qual ela faz um comentário extremamente autarquista e que realça a ideia de que não existe um lado só na história e que mesmo ela tendo sido uma mãe e esposa amorosa, seu coração nunca estivera com os cidadãos russos. Não desmereço os ideais da revolução, mas, uma passagem final me deixou enojada com o comportamento dos bolcheviques… Foi a última transferência. Antes de chegarem ao local de fuzilamento. Alexandra, Nicolau e Maria já estavam lá. Eles deixaram Olga, Tatiana, Anastácia e Alexei para trás, pois o menino estava doente e as irmãs, como ex enfermeiras da cruz vermelha deveriam cuidar dele até que estivesse bom para partir.

Da janela do trem Pierre Gilliard e Sydney Gibbes haviam esticado o pescoço para dar uma última olhada nas meninas ao entraram nos droskies que as aguardavam. “Assim subiram, uma ordem foi dada, e os cavalos partiram trotando com a escolta.”
Foi a última vez que as viram aqueles que haviam amado, servido e morado com as quatro irmãs Romanov desde a infância delas.

No caminho até Ecaterimburgo, os guardas costumavam se embebedar durante a noite e fazer comentários sobre o que “gostariam de fazer” com as grã-duquesas que, impedidas de fechar as portas dos compartimentos do trem onde dormiam por ordens deles, incapazes de dormir por medo, ouviam tudo noite adentro. Enfim, são muitos os detalhes e eu não mencionei sequer metade deles. É um livro que, para os amantes de história e da família imperial, merece e deve ser lido. A minha indagação ao final: “entendo” matarem o Tsar. Porém, matar as crianças? E ainda não consigo entender.

“Tudo estava pintado naqueles rostos jovens, nervosos: a alegria de ver seus pais outra vez, o orgulho de jovens oprimidas forçadas a ocultar seu sofrimento espiritual de estranhos hostis e, enfim, talvez, uma premonição da morte iminente […]. Olga, com seus olhos de gazela, lembrou-me alguma jovem triste em um romance de Turguéniev. Tatiana deixou-me com a impressão de uma altiva aristrocrata com ar de orgulho, pelo modo como fitava as pesssoas. Anastácia me pareceu uma criança assustada, aterrorizada, que podia, em diferentes circunstâncias, ser encantadora, despreocupada e afetuosa.”

Por fim, aquele detalhe que eu disse ter sido usado na animação: o amor da avó pela neta Anastácia e que para mim, na leitura, pareceu mentira, se explica pelo fato de que pouco se citou do interesse de Maria Feodoróvna pelas netas, se não para criticar a maneira como eram criada e como pouco se relacionavam em sociedade. Algo que me parece tão mínimo, quando penso em outras tantas provações sofridas por essas crianças…

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xoxo

 

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2 comentários sobre “Once Upon a December…

  1. Eu nem sei por onde começar a comentar seu post, eu também amo Anastácia e andei pesquisando muito a respeito dos Romanov com a leitura de “O Palácio de Inverno” nessas férias, inclusive fica a recomendação! Já anotei aqui a sua dica. A hemofilia é super comum entre membros da família real, vários membros carregaram essa condição.
    Beijos!!
    Blog Amanda Hillerman

    Curtido por 1 pessoa

    • Amanda!!! Se eu te falar que tenho “O Palácio de Inverno” baixado, já comecei a ler e não gostei tanto do início… Quer dizer que melhora? Sendo assim, vou dar uma segunda chance!! E que linda você também fã da Anastácia!! ❤️ E sim, andei dando uma olhadinha nisso… Que coisa não? Talvez uma compensação por tanto poder… Um beijooo! Obrigada pelo carinho de sempre!!

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