A Garota

Eu me lembro de uma garota.

É estranho, na verdade, porque eu nunca cheguei a verdadeiramente trocar qualquer palavra com ela. Simplesmente me lembro de vê-la do outro lado da sala, enquanto ela circulava sem parar na ponta dos pés bem depressa. Na minha mente, no entanto, tudo o que ela fazia se passava em câmera lenta. E não sei porquê. Não consigo explicar… por que fazia questão de guardar informações sobre uma garota com a qual eu jamais trocaria uma palavra?

E não é que eu tenha uma queda por ela. Não tenho. Quer dizer, talvez tenha. Mas não é uma queda luxuriosa. Eu nunca quis que ela fosse minha namorada. Mas eu acho que sempre fui apaixonado por ela. Havia alguma coisa mágica naquela garota. Acho que ela nunca reparou em como eu encarava sem piscar… ou talvez, fosse boa demais para me deixar constrangido e perguntar se alguma coisa estava errada. Talvez, soubesse que eu não fazia por mal e que simplesmente gostava de estudá-la. Uma vez, a ouvi dizer que não se achava bonita. Porque era magra demais e todas as outras garotas eram cheias de curvas… e eram loiras e tinham olhos claros.

Não. Essa garota por quem eu parecia ter uma obsessão em observar não era uma daquelas atrizes de cinema com longos cabelos louros e olhos azuis ou verdes brilhantes. Com certeza era alta, mas era magricela e tinha olhos e cabelos escuros. Castanho escuros. No entanto, havia alguma coisa… alguma coisa sobre essa garota que a tornava mágica. Outra vez, a ouvi falando sobre olhos. O poder dos olhos. O poder do olhar. Acho que é isso. Acho que o poder dela estava em seus olhos. Quando ela erguia os olhos na direção de alguém, eles nunca pareciam hostis. Sempre amigáveis… um pouco ariscos, até. É que ela era reservada e tímida. A guerra a fez assim. Não falei? Ela viveu uma guerra… por isso ela dançava. Queria ajudar os soldados com o dinheiro das apresentações de sua dança…

Não era uma dança vulgar. Nada sobre ela jamais poderia ser vulgar. Não com aqueles olhos ou aquele sorriso. Não falei sobre o sorriso? Ah… ele geralmente vinha acompanhado dos olhos amigáveis. Olhos de corça. Ela sempre gostou de animais, assim pude observar. Tinha um cachorro que carregava na cestinha de sua bicicleta e também um cervo. Ela nunca julgou uma pessoa, não vejo por que se daria ao luxo de julgar os animais. Estou dizendo! Ela era linda! Os olhos com o sorriso seriam capazes de fazer qualquer um derreter e se sentir confiante, querido! Um dia, a ouvi falar.

Era uma voz cálida. Doce. Um tipo de voz que te abraça enquanto você a escuta. Quando a escutei pela primeira vez, fiz de tudo para tornar a escutar outra vez. E a ouvi cantar. Ela sabia tocar violão e tinha um melhor amigo estilista que a adorava por ser magricela e ter cabelos castanhos, mesmo que ela não se amasse por isso. Ele desenhava roupas bonitas para ela e ela sempre ficava bonita com essas roupas. Conseguia ficar perfeita só com um conjuntinho preto simples. Era fascinante. Algumas pessoas se esforçavam tanto. Ela nunca precisou.

Ela amava os filhos e amava as pessoas. Fiquei sabendo, é porque depois de um tempo cada um seguiu seu lado… Eu não podia ficar sentado do outro lado da mesma sala que ela para sempre, podia? Acho que não… mas queria… Em todo caso, fiquei sabendo que ela dedicou sua vida às pessoas. A fazê-las felizes. Particularmente as crianças… aquelas crianças que, assim como ela, talvez nunca houvessem se sentido tão confiantes a respeito delas mesmas. No que dizia aos adultos, sorriu por eles. Chorou por eles. Dançou e se apaixonou por eles. Dividindo aquela magia que só ela possuía com eles. Mas sempre preferiu as crianças. Não posso culpá-la. Eu mesmo; também prefiro as crianças.

Quem sabe ela não se identificasse com elas? Quem sabe ela não fosse tão despretensiosa e livre como uma criança, até que o mundo comece a deixar suas marcas nela? Acho que se um dia houvesse criado coragem para falar com ela… mesmo que somente por um instante… eu teria feito essa pergunta. E talvez houvesse descoberto mais a seu respeito, do que qualquer biografo. Chorei no dia em que ela morreu. Chorei de verdade. Porque eu me lembrava dela melhor do que muitas pessoas… eu a vi. Tive a chance de ouvir sua voz de perto… isso vale muito mais do que muitos podem um dia dizer que conseguiram…

Ah… esqueci de dizer o nome dela… que cabeça de vento… Bem, o nome dela é Audrey. Hoje é aniversário dela… acho que por isso me lembrei… ela merece ser lembrada… só queria um dia ter falado com ela e lhe desejado um feliz aniversário. Sabe, ela tinha até uma música… uma música que sempre me fazia lembrar dela. Era alegre e calma, como ela… Preciso enfatizar, ela era linda, do jeito que a palavra linda foi feita para ser usada. Para todo ângulo… mas o mais importante sobre ela é que: ela poderia ter sido qualquer garota… mas qualquer garota não poderia ser ela…

 

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3 comentários sobre “A Garota

  1. “ela poderia ter sido qualquer garota… mas qualquer garota não poderia ser ela…” Vishe! Arrebentando com frases de efeito! Bang!
    Amei o texto. Super singelo, com toques fortes, e uma envolvente escrita. Muito bom poder lembrar um pouquinho da Audrey no meio da semana.

    Curtido por 1 pessoa

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