Se

Seria a primeira vez em anos que James Potter deixaria a empresa mais cedo para se encontrar com uma mulher. E, por mais que houvesse garantido a seu pai que ainda se lembrava do que fazer com uma, sentia um nó na base do estômago que o tornavam, no mínimo, um pré-escolar em primeiro dia de aula. O controle estava totalmente nas mãos da senhorita Evans. Numa forma de deixá-la mais à vontade, cometeu a tolice de permitir que ela definisse como seria aquele encontro. Claro, ela acreditava que estaria somente seguindo as instruções de Sirius – sendo amigável com o único aliado que possuíam para seu final feliz – e não que James pretendesse afastá-la totalmente do irmão mais novo e dos planos que envolviam seu casamento. Em todo caso, aquilo não precisava ser ridículo… o que nunca seria garantido, julgou ele, se o controle estivesse com a filha do chofer.

Lilian, no entanto, provara durante aquela primeira semana juntos que não era tão lenta como as outras mulheres por quem Sirius costumava se interessar. Havia grandes traços de uma personalidade dominante, mas que jamais se desenvolveria se ela passasse o resto de sua vida na garagem… ou casada com seu irmão. Ela precisava de alguém com quem conseguisse ser ela mesma sem pensar duas vezes e, até então, essa pessoa tampouco estava sendo James. Ele, todavia, julgava-se aquém de qualquer culpa. Sua infância e adolescência e as atitudes de Sirius praticamente criaram aquele homem frio de negócios. Seu irmão era o carismático e belo que conseguiria atrair as pessoas para a teia de relações de sua família. James sempre precisou ser o inteligente que nunca a deixaria desmoronar. Seu pai já não conseguia mais acompanhar seu ritmo, sua mãe tentara poucas vezes. Ninguém estava à altura de James C. Potter. Muito menos a filha do chofer…

Naquela noite, ela guiou o carro; apesar da insistência dele. Tinha um sorriso constante escondido no canto direito dos lábios. Como se evitasse a qualquer custo rir de uma piada extremamente engraçada. Ele não se sentia à vontade com aquele sorriso. Não gostava dele. Qual era a piada? Ele? Que razões alguém teria para rir o tempo inteiro? Ninguém consegue ser tão feliz! Bem, Sirius geralmente conseguia. Ou pelo menos assim se domara para ser. Os risos que o via dividir com suas amantes geralmente consistiam em sons afetados… poucas vezes o vira praticamente latir como um cachorro, sua risada característica. Uma delas, claro, foi na noite em que Lilian retornou de viagem. Ela o fizera rir de verdade. Mas como, levando em consideração aquele sorrisinho bobo, era um grande mistério para o Potter mais velho.

O carro estacionou próximo ao Royal Albert Hall. Eles saíram juntos e ao virar-se para encarar Lilian do outro lado, percebeu-a parada a admirar a construção; o mesmo sorriso secreto presente em seus lábios.

— Vamos? – chamou acenando animada. James revirou os olhos para o prédio. Agora estava claro o que teriam de fazer a noite toda. No Albert, costumavam se apresentar as melhores orquestras ou óperas internacionais. E, embora nada tivesse contra orquestras ou óperas, aquela não era a maneira que gostaria de passar sua noite. Seu plano de fazer com que Lilian se apaixonasse por ele e esquecesse Sirius não renderia nada ali, onde ela sequer prestaria atenção em sua presença. Bem, ao menos ela demonstrava bom gosto musical… eles podiam muito bem ter ido parar num bar com música country ao vivo…

Sentaram-se num dos camarotes, com visão lateral para o palco. A orquestra inteira posicionada…

— Itália. – murmurou Lilian em meio aos aplausos. Eles haviam chegado em cima da hora de começar. – Alice me contou que a orquestra apresentaria as melhores trilhas do cinema italiano e… bem… ela sabe como eu gosto… mas se você se cansar… – continuou, tropeçando nas palavras, como sempre fazia ao se dirigir a ele.

— Oh não, não. Cinema italiano, hein? O que fizemos a você para que precisasse ir tão longe para um filme? – brincou tentando deixá-la mais confortável.

— Bem, se os estrangeiros têm a delicadeza de assistir aos nossos filmes… por que não lhes estender a mesma cortesia? – rebateu ela, dando de ombros. – Além disso, é sempre bom… sei lá… buscar novas perspectivas sobre alguma coisa…

— Novas perspectivas, senhorita Evans? – indagou James, arqueando as sobrancelhas.

— Você nunca reparou? – inquiriu ela de volta, abismada, mas parando ao lembrar-se de que aquele era James Potter. Quando teria sido a última vez em que saiu do escritório para ir ao cinema ou tirou uma hora de seu dia para assistir a um filme estrangeiro? – O modo como eles abordam assuntos abstratos como… amor, luto, felicidade… na maioria das vezes, não se parece nada com o nosso. – explicou. James assentiu, com um sonoro e admirado “Ah”.

Pararam de conversar para prestar atenção na música. O programa se iniciara com a trilha de La Doce Vita. Um filme de 1960 de Federico Fellini. Na grande tela ao fundo do palco, cenas em preto e branco passavam repetitivamente. Em especial a cena de um casal dentro da Fontana de Trevi. James nunca estivera na Itália antes; e apenas conhecia o nome daquele ponto turístico, pois alguém na escola alguma vez lhe dissera. Apesar de ser um vivido homem de negócios, seu interesse pelo mundo e o que ele oferecia era deveras limitado. Tudo se resumia a lucro e prejuízo. Capital aberto ou fechado. Os altos e baixos das ações. Em sua vida de porto seguro para a estabilidade financeira de sua família, sobrava muito pouco espaço para beleza e poesia.

 Sendo assim, é claro que não saberia entender o motivo de todas aquelas pessoas estarem tão encantadas em ouvir algo que provavelmente já escutaram milhões de vezes em suas casas. Lilian, por exemplo. Ele conseguia imaginá-la bem no pequeno apartamento sobre a garagem, arrumando tudo enquanto se imaginava dentro de uma ópera de Puccini ou mesmo fazendo a última coreografia de um clipe da… como era o nome daquela cantora negra famosa? Em todo caso, conseguia visualizar a senhorita Evans como aquele tipo de garota que nunca cresceria de fato e, sem saber porque, sorriu com a ideia… as palmas da plateia ecoando ao fundo.

— O próximo é Cinema Paradiso. – ela fez questão de lhe avisar, aproximando-se do parapeito do camarote com olhos cheios de esperança. – Devo deduzir que você nunca assistiu a esse também? – perguntou com um tom zombeteiro brincalhão.

— Você pode deduzir que eu nunca assisti a nenhum destes filmes, sim. – respondeu ele devolvendo o tom dela.

— Lição de casa, então, James Potter! E não quero saber de desculpas! – tornou a brincar, mas corando ao perceber que talvez houvesse cruzado uma linha. Nunca se sabe… ainda mais com ele…

— Claro, professora Evans. – aquiesceu ele com um aceno solene de cabeça, mantendo o sorriso intacto ao sentir a incerteza dela em brincar com ele. – Mas, já que vou ter que cumprir com essa tarefa, vou precisar de um incentivo… pode me dizer por que esse é tão importante? – aquela pergunta pareceu tê-la deixado mais relaxada do que seu sorriso e brincadeiras. A cada dia ficava mais claro para ele que a querida ruiva de seu irmão gostava de palestrar sobre seus gostos favoritos a qualquer um que estivesse disposto a ouvi-la.

— É a história de um garotinho que era apaixonado pelo cinema. Quer dizer, ele aprendeu a amar o cinema porque ficava escondido na sala de projeções com o projetista, Alfredo, um senhor de idade, melhor amigo dele eu diria, assistindo às seções prévias em que o Padre mandava cortar todas as cenas de beijo. Daí, o garotinho cresce e deixa a cidade onde vivia para morar em Roma, onde se torna um cineasta bem sucedido, mas infeliz. Então, no começo do filme, nós ficamos sabendo da morte do Alfredo, o que leva o garotinho a reviver todas as suas lembranças da infância, seu primeiro amor… A amizade entre eles é o espírito do filme… e a cena final…

Ela se interrompeu ao ouvir as primeiras notas de “Se”, o tema de amor de Cinema Paradiso, composta por Ennio Morricone com sua filha, Andrea Morricone. E, antes que James se desse conta do que havia de errado, os olhos dela estavam marejados e com lágrimas a percorrê-lo…

 — Ei… o que…?

— Me faça um favor, James. – pediu ela, interrompendo-o, sua voz calma, apesar das lágrimas. – Feche os olhos e imagine… imagine milhares de cenas em preto e branco com casais trocando juras eternas e se beijando… imagine que essa é a melhor lembrança de sua infância e que está passando como um filme diante de seus olhos…

Tentando evitar que ele tivesse um colapso, ele a obedeceu. No entanto, era mais difícil do que imaginava… ele não possuía muitas lembranças de cenas de beijo de sua infância… Vendo aquilo como uma empreitada inútil, abriu os olhos. Os de Lilian encontravam-se fechados e um sorriso encantador perpassava por todo seu semblante. À medida que a música alcançava suas notas mais altas, ele voltou-se para o telão e viu: as cenas de beijo que deveriam ser daquele filme. Todas em sequência, seguidas uma da outra e unidas ao som melodioso de violinos, flautins e violoncelos…

 Sem que se desse conta, estava lacrimejando… e feliz por isso. Na primeira noite em que saíram, Lilian confidenciara a ele que, no escritório, ele era conhecido como o único doador de coração do mundo. Lembrava-se de ter rido, mas aquelas palavras realmente o atingiram. Contudo, naquele momento, com lágrimas nos olhos, ele pôde afirmar com toda a certeza que não era verdade. Ele possuía um coração. Empolgado, virou-se para encarar sua companhia. Os olhos dela ainda estavam fechados e o reflexo desfocado preto e branco das cenas passavam pelo canto esquerdo de seu rosto.

     Ali, pela primeira vez, James Potter enxergou Lilian Evans. E ela era linda.


Mais um trechinho Jily. E porque eu gosto de dividir com vocês…

Essa é a cena narrada por Lily…

xoxo

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Um comentário sobre “Se

  1. QUERO MAAAAAAAAAAAAAAAAIS
    Maravilhosa *o*, tão visual essa sua narração, Jesus
    O QUE DIZER DE IRMÃOS PADFOOT E PRONGS
    O QUE DIZER DA RISADA DE SIRIUS QUE É QUASE UM LATIDO
    ❤ ❤ ❤
    Não sei o que dizer, só sentir! Desde o momento em que você me falou sobre esse filme eu quis assisti-lo porém James tem razão, eu consigo imaginar a nossa protagonista em seu apartamento ouvindo as músicas ❤
    Lindona, como eu amo ler sua escrita!

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