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Crime e Castigo

Fiódor Dostoiévski foi um grande romancista russo, cujas obras permanecem exercendo grande influência sobre seus leitores. Chamado de Romancista das ideias, seus escritos formam um compêndio de referências acerca de estados patológicos (doentes) da mente humana e que levariam a loucura, ao assassinato; a autodestruição do indivíduo enquanto ser. Desde “Gente Pobre” até seu último, o célebre “Irmãos Karamazov”, Dostoiévski explanou as suas filosofias ao mundo, sendo considerado talvez um dos pais do Existencialismo, e, ao fazê-lo, garantiu seu lugar ao sol junto a outros nomes da literatura russa.

Não me considero, em absoluto, dotada de grande habilidade acadêmica para analisar a obra deste mestre. Esta resenha, portanto, reunirá apenas as impressões de uma leitora mediana apaixonada por essa literatura. Para aqueles que não sabem, curso a faculdade de Direito e durante anos, desde o início desta jornada, ouvi professores e veteranos mencionarem a obra a que esta resenha fará referência: Crime e Castigo. Desse modo, eu já possuía uma tenra ideia do enredo do livro. Raskólnikov (um nome que não consigo pronunciar de forma certa, a menos que esteja lendo em voz alta *risos*) é o grande protagonista sobre quem recairá as questões existenciais exploradas pelo autor. A história é, na maior parte do tempo, narrada de seu ponto de vista, embora não em primeira pessoa, e ele a inicia nos deixando intrigados e suspeitosos sobre um tal negócio que deseja fazer.

Em poucas linhas, Dostoiévski nos traça o perfil de uma pessoa reclusa e “batida” pela vida. Contraditoriamente, no segundo capítulo o vemos com um repentino desejo de gente. De querer estar entre as pessoas e em um extenso diálogo com um estranho num bar. Este, logo se apresenta como Marmeládov e começa a relatar ao seu companheiro de mesa a trágica história de sua miserável existência. Seu problema com a bebida e como isso afetou sua esposa e filhos. Ambos dividem tal momento que, apesar de curto e singelo, se refletirá na vida de Raskólnikov pelo resto da narrativa. Um daqueles pequenos encontros que mudam nossa vida para sempre. No caso dele, imagino que gostaria de dizer que proporcionou-lhe a redenção; uma mudança de ideia sobre o negócio que iria executar. A essa altura, nós leitores já conseguimos deduzir que ele deseja cometer um assassinato, quando o vemos entreouvindo uma conversa entre dois estudantes a respeito de sua vítima: uma agiota.

Uma senhora de idade avançada, Aliona Ivânovna, que costumava realizar penhores. Rodion (primeiro nome do protagonista) a considerava nada melhor do que um inseto. Um mal social que deveria ser expurgado. Tal decisão é apenas reforçada ao receber uma carta de sua mãe. Vale dizer que Rodion nascera em uma aldeia distante da capital russa e fora enviado para lá a fim de completar seus estudos em Direito (coincidência? Acho que não!) numa espécie de salvador de sua família. Mas, eles eram pobres e, ao contrário de seu melhor amigo, Razumikin, quem se dispunha a realizar traduções para conseguir dinheiro extra, Rodion considerava-se tão genial que tais tarefas soavam-lhe insultos à sua capacidade. Portanto, no momento do recebimento da carta, ele não era mais um estudante, mas sim um ex-estudante, como explica a Marmeládov. Sua mãe lhe diz que sua irmã, Dúnia, está noiva de um homem influente, Piotr Pétrovich Lújin e comenta os enormes benefícios que o próprio Raskólnikov poderá receber pela união. Um emprego, por exemplo. O irmão logo percebe que ela o aceita pensando no dinheiro que estará trazendo para a família e no fardo que estará retirando dos ombros dele.

Revoltado, Rodion dá início ao planejamento de seu crime. Matar Ivânovna, pegar o dinheiro da velha e utilizá-lo, como ele diz, para uma boa causa: terminar seus estudos, talvez até dar uma boa vida a mãe e a irmã sem que esta tenha que se vender a um homem que não ama. Aqui, temos contato com algumas das filosofias do protagonista acerca do crime e da polícia, o que nos leva a uma enorme passagem que ganhou o primeiro destaque cor de rosa da leitura. Um trecho:

Raskolnikov cismava numa coisa: por que quase todos os crimes eram investigados e punidos com tanta facilidade e por que os rastros de quase todos os criminosos se tornavam tão manifestos? Chegou, aos poucos, a várias conclusões curiosas, em sua opinião, a causa primordial não consistia apenas na impossibilidade material de ocultar o crime, mas principalmente no próprio criminoso,  o qual se via exposto,  no momento do crime, a certo  enfraquecimento da vontade e do juízo, quase sempre substituídos pela fenomenal leviandade infantil, naquele exato momento em que ele mais precisava de raciocínio e cautela.

A partir destas divagações, ele passa a planejar seus passos, de forma a realizar o crime perfeito. Para tanto, escolhe sua arma. Um machado. Faz uma simulada visita aos aposentos da vítima para saber qual horário ela estaria em casa. Costura um fio dentro de um sobretudo para esconder o machado apropriadamente dentro da manga. Age calculadamente e sem hesitar, até atingir seu objetivo.

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Seu plano envolvia apenas a morte de Aliona, mas acaba também matando sua irmã Lisaveta que, inesperadamente, se encontrava na casa. Outros empecilhos surgem para dificultar sua fuga da cena do crime. É uma cena/trecho realmente tenso e cheio de suspense. Não vou spoilar ninguém, mas, claro, ele foge, do contrário o título só se concretizaria em metade: Crime e não teríamos o castigo, da forma como Fiódor nos relata e, a partir de sua fuga, temos uma reviravolta mudança e aprofundamento na reclusão de Rodion. O destino, nesse caso de nome Dostoiévski, “joga” as mais inquietantes situações para cima de Raskólnikov, literalmente para testar sua força de vontade em não ser pego. Sua mãe e irmã chegam na cidade. Ele é chamado na delegacia por uma dívida que estabelecera com a morta. Seus amigos o levam na casa de outros amigos. E, nesses dois últimos, a paranoia de Rodion é tão visível e palpável que chega a ser risível! Em resumo, ele chega a pensar: tenho que demonstrar tal e tal emoção, assim eles jamais suspeitarão de que cometi um assassinato. É dolorosamente divertido ver como Dostoiévski brinca com seu fantoche.

Já no começo da obra, a saúde do protagonista já está debilitada e, com o passar dos dias, chega ao máximo. O peso em sua consciência é tamanho que aos poucos o leva a querer confessar. Realmente chega a fazê-lo para Sônia, filha de Marmeládov. Outra prova viva de que se seu nome é Sônia num romance russo, você está destinada a uma história trágica. Ela, que vendeu sua virgindade em troco de uma forma de ajudar no sustento de sua casa, é uma espécie de espírito puro para Raskólnikov. Alguém que, além de sua irmã, ele deseja proteger e com quem se sente seguro em conversar. Eles acabam desenvolvendo um amor mútuo, mas tão tenro e sutil que, durante a leitura me peguei perguntando várias vezes se eles estavam apaixonados… talvez eu só seja lenta… Enfim, Sônia está sempre lá! E faz com que Rodion confesse, prometendo-lhe que também estaria lá quando ele saísse; quando finalmente poderiam ficar juntos. Chega a ser tocante como, no fim, aos pés da escada da delegacia, ele fraqueja e desiste de confessar, mas, basta olhar para trás e vê-la ali, insistente de que é o único modo dele alcançar a paz interior, retoma o caminho de antes e finalmente assume sua culpa para uma sala repleta de oficiais.

Outro ponto brilhante da narrativa e quase me fez virar uma madrugada, foram os diálogos entre Rodion e Porfíri, o inspetor de polícia. Este, poderia até ser considerado o vilão da obra, não fosse a presença do noivo de Dúnia, mas, logo chegamos nele. Enfim, quando juntos na mesma sala, é quase como assistir Holmes e Moriarty numa disputa de quem é o mais esperto. No entanto, há momentos em que é notório como Porfíri já sabe da culpa de Rodion, simplesmente porque sua doença piorou demasiadamente desde a noite do assassinato e ele sempre parece estar prestes a desmaiar quando o forçam a pensar no ocorrido, e ao invés de simplesmente prendê-lo, ainda lhe concede o benefício da dúvida. Ele admira Raskólnikov de certa forma, deseja entendê-lo. Isso fica claro ao citar um artigo científico de autoria do ex-estudante, no qual ele expõe sua teoria: Raskólnikov acreditava que as pessoas estavam divididas entre “ordinárias” e “extraordinárias”: as ordinárias deviam viver na obediência e não tinham o direito de transgredir as leis, ao passo de que as extraordinárias (notadamente Napoleão) tinham o direito, não declarado, de cometer crimes e de violar leis, desde que suas intenções, se fossem úteis à humanidade como um todo, o exigirem.   

Várias vezes ele é citado durante a obra, aos poucos, até que no confronto final o temos em completo e finalmente entendemos porque Aliona era para Rodion um inseto e porque ele a matou e, mesmo depois de todo o terror psicológico que sofre após tê-lo feito, insiste em dizer que não se arrepende. 

-Será que, indo assim enfrentar o castigo, não lavarias metade do teu delito?
-Delito? Mas que delito? – bradou ele, de chofre, num rasgo de fúria. – O Delito é ter matado um piolho vil e maligno, aquela velha usurária de que ninguém precisava e que sugava o sangue dos pobres, tanto assim que quarenta pecados seriam  perdoados a quem a matasse?

Esse diálogo com Dúnia é o seu momento final com a irmã, no qual ele demonstra ser seu único arrependimento o fato de descobrir que era, na verdade, não um dos “extraordinários”, mas sim um “ordinário”. O vilão, no sentido universal da palavra, é Lújin, noivo de Dúnia e que pretendia casar-se com ela afim de torná-la sua esposa troféu. Em outras palavras, ao se casar com uma moça pobre, ele estaria garantindo a adoração da mulher que, em sua mente, deveria passar o resto da vida a adorá-lo e assentir com suas decisões, visto que demonstrara grande desprendimento de caráter ao escolhê-la ao invés de uma dama de Petersburgo. Afinal, Dúnia não só era pobre, como também acabara se envolvendo em uma fofoca nefasta em sua cidade natal ao, como governanta de uma casa, ser acusada de seduzir o marido, Svridigáilov, de sua patroa. Quando, na verdade, fora este quem a tentava seduzir. Tudo foi resolvido entre ela e a mulher, mas, Lújin ainda esperava tirar proveito da situação, subjugando a noiva e ao se desentender com seu irmão, fazendo-a escolher entre os dois.

Nesse ponto, Dúnica se mostra um verdadeiro monumento feminista. A forma como termina tudo com Lújin é tão satisfatória e o deixa tão deliciosamente incrédulo de que seu plano poderia ter falhado, só me restaram as palmas. Aliás, dentre tantos diálogos e momentos memoráveis com Raskólnikov, o de mais aflição para mim foi quando Svridigáilov chega na cidade e marca um encontro com Dúnia. Ele entreouvira a confissão de Rodion para Sônia e pretendia contar tudo para a outra; numa conversa prévia com Raskólnikov, afirma ainda estar apaixonado por ela, realmente apaixonado e que o dinheiro que sua esposa lhe deixara (ela COINCIDENTEMENTE morre pouco tempo depois do incidente com Dúnia, vejam vocês… Adivinhem quem matou?) deveria ser entregue a Avdótia Românovna (eu estive usando o apelido Dúnia por uma razão, certo?). Ela comparece ao encontro que marcaram, sem querer acreditar em uma palavra do calhorda e, num dos momentos mais aflitivos da minha vida, chegou muito perto de ser estuprada.

Como meu primeiro Dostoiévski, devo dizer que foi uma leitura pesada, mas envolvente. Quando engatada e embalada pelos diálogos bem construídos, é impossível parar.

xoxo

 

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4 comentários em “Crime e Castigo

  1. Sou louca pra ler os livros dele.. É sensacional a forma como ele escreve, sua resenha me fez querer ler o livro neste momento kkk muito obrigada.
    Bjinhos e parabéns 👏❤

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