a piece of my mind

Ao fazer Biografia, não caia na Ficção

Desde o fim do grande sucesso que foi Downton Abbey, a emissora britânica de TV “ITV”, bem como os apaixonados fãs da estimada série, vêm buscando uma alternativa para aplacar a nostalgia de seus corações exaltados e carentes por um bom drama de época. Neste cenário de enormes expectativas e poucas alternativas – rima não intencional, as always – eis que me surge Victoria. Produzida pela mesma casa que trouxe a existência da família Crawley para a tela, porém, agora com um diferencial: ao passo que Downton foi criada e escrita em sua totalidade por um homem, Sir Julian Fellowes (o responsável pela morte imperdoável de vários personagens amados e pelo enfraquecimento de arcos poderosos), Victoria é fruto da mente e mãos da senhora Daisy Goodwin. Isso, claro não influencia em nada as minhas reações quanto ao show; apenas um pequeno detalhe. 

Em todo caso, sim. Victoria chegou como a nova aposta da “ITV” como série de época para conquistar tantos fãs quanto seu sucesso de audiência anterior. Afinal, Downton criou sua própria linha de roupas… Imaginem se sair uma linha de roupas vitorianas por aí; não que iremos voltar a usar saião na rua, mas peças baseadas, ia ser mara… Bijuterias, chás, canecas, sacolas de compras, livros, artefatos de papelaria, calendários. Milhares de produtos comerciáveis com o logo DA – infelizmente, em totalidade europeia e estado unidense, o Brasil se fu… – Se eles possuem a mesma pretensão com Victoria? Não posso afirmar com propriedade, no entanto, é certo que ambas as séries possuem trilhas sonoras, leia-se temas de abertura, cativantes. Logo, antes de começar a gritar meus sentimentos, salientarei: existem milhares de detalhes felizes nesta série. A música é uma delas.

Na britânia, já foram exibidos três episódios e só irá ao ar nos Estados Unidos em Janeiro, como era de costume com Downton e também pela mesma emissora, salvo engano, Masterpiece. Em todo caso, não consigo deixar de sentir arrepios toda vez que ouço o coro, Mediaeval Baebes, entoar “AAleluuiiaaa”…

Pouco? Eu sei. Vamos ouvir, então, a “versão estendida” como tema da coroação de Victoria no primeiro episódio.

Do mesmo gênio que trouxe até nós a trilha sonora do seriado Guerra e Paz da BBC, também já contemplado neste blog em uma postagem: Guerra e Paz BBC: e agora eu vou reler esse livro!, Martin Phipps. Ouvindo o entoar dos coros de Aleluia, temos a sensação de que em breve embarcaremos em uma época de majestade e de grande significado para o povo inglês; o que, de fato, é e deveria ser. Na Inglaterra, de uma maneira geral, existem vários monumentos e construções em homenagem a essas duas pessoas que foram a Rainha Victoria e o Príncipe Albert. Sozinha, visto que Albert faleceu aos 42 anos de tifo, seu reinado computou 63 anos, o segundo maior da história. O museu batizado em nome de ambos é o mais completo de Londres. Temos o Albert Memorial em Hyde Park. Temos a torre do relógio no centro de Brighton. Temos o Victoria Memorial em frente ao Palácio de Buckingham, tendo sido ela a primeira monarca a ocupá-lo como residência oficial da família real.

Enfim, pequenos detalhes, eu poderia discorrer sobre outros, mas acredito que estes são suficientes para ilustrar o meu ponto de discussão acerca da série. Bem, é nítido para todos os cidadãos britânicos e para aqueles que se dão ao trabalho de estudar um pouquinho sobre este casal da realeza, o quanto eles se amaram em vida. O quanto a morte de Albert em 1861 atingiu a monarca que nunca mais vestiu outra cor senão o preto do luto e fez raríssimas aparições públicas. Assim sendo, quando eu comecei a assistir a série, esperava que os primeiros episódios tratassem da luta de Victoria contra o controle de sua mãe e John Conroy, seu amadurecimento, na falta de palavra melhor, forçado perante a troça de seus parlamentares para com a mulher monarca que todos chamavam de “baixinha” pelas costas. E, claro, de sua AMIZADE e relação PATERNAL com o primeiro ministro Lord Melbourne.

Vejam vocês, amiguinhos que talvez estejam lendo esse texto e também assistam à série e, por acaso, shippem Victoria e Melbourne, aquilo ali é um despautério e eu não sei como uma cidadã inglesa se acha no direito de brincar assim com duas figuras historicamente reverenciadas! Okey, mas daí vocês vão rebater: mas e a liberdade criativa dela? Afinal, como autora de vários romances de época publicados, a senhora Goodwin talvez tenha propriedade para brincar um pouco… O problema, amiguinhos, é que se é para fazer uma ficção da história, que seja anunciado dessa forma. Contudo, Victoria foi anunciado como uma série de gênero: biográfico, drama e histórico. Cadê a ficção?? Cadê?? Sendo assim, eu creio que essa brincadeirinha de pegar Jenna Coleman e Rufus Sewell, dois bons atores, e jogar uma tensão sexual, um amor proibido, onde cartas registradas relatam que existia apenas um relacionamento tal qual o de um pai e uma filha – visto que Victoria perdeu o pai muito cedo e não possuía muitas figuras masculinas em quem se espelhar ou a quem se voltar para conselhos – está muito errada.

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ESSA CENA TÁ TODA ERRADA!!! 

O que isso vai nos trazer de bom? Um triângulo amoroso?! O quão saturados nós já estamos disso, meus caros?! Tivemos um em Downton Abbey – Mary, Matthew, Lavinia – e olha o quão bem terminou. Aliás, se é para ser a nova Downton Abbey, vamos analisar. Julian Fellowes não brincou com pessoas. Ele brincou com uma casa. O Highclere Castle que HISTORICAMENTE serviu como casa de convalescênça durante a primeira guerra mundial; dessa forma, podemos dizer que a segunda temporada de Downton foi baseada em fatos históricos e não se desviou deles. Não desvirtuou a história. Na verdade, se atentou a eles minuciosamente, trazendo um “conselheiro” histórico para o set de filmagens. A família Crawley era formada por pessoas fictícias e, portanto, Julian podia fazer o que bem entendesse com elas. Daisy Goodwin está escrevendo sobre seres humanos reais; seres humanos constantemente estudados por historiadores e que, por isso, merecem o devido respeito. Victoria e Albert é o Real Life OTP de muitas pessoas! Não crê? Tumblr it.

Eles possuem uma voz. Apesar de estarem mortos, a presença deles ainda é muito sentida pelo povo inglês, por aqueles que estudam sua história – desculpem-me se aqui houver sido um pouco redundante – e essa voz não pode ser ignorada. Exemplo:

“NUNCA, NUNCA passei uma noite assim!!! O MEU QUERIDO, QUERIDO, QUERIDO Alberto (…) o seu grande amor e afecto fizeram-me sentir num paraíso de amor e felicidade que nunca pensei alguma vez sentir! Segurou-me nos seus braços e beijamo-nos uma e outra e outra vez! A sua beleza, a sua doçura e gentileza – como posso agradecer vezes suficientes ter um marido assim! (…) ser chamada por nomes ternurentos, que nunca me chamaram antes – foi uma bênção inacreditável! Oh! Este foi o dia mais feliz da minha vida!”

Este é um trecho do diário da rainha Victoria, após o dia de seu casamento. Ela amava esse homem! Ele não a amava menos! Assim sendo, ao menos que Daisy esteja nos preparando para um gigante plot twist, o desenrolar de uma brilhante história de amor – que já deveria estar acontecendo, porque eles sempre se gostaram – o seriado, infelizmente, não vai atingir o objetivo almejado. Vai desperdiçar a excelente equipe de fotografia, porque ela é fantástica, os figurinistas, os atores, os compositores, tudo porque o seriado não consegue se ater àquilo que propôs fazer: um relato biográfico da ascensão de uma das rainhas mais famosas da história mundial. Outro ponto relevante que pode ser levantado é: uma série precisa de mais pontos de trama para desenvolver, a fim de justificar temporadas e minutos de episódios, do que um filme – indireta para a adaptação de 2009, The Young Victoria.

Bem, em 2001 foi feita uma mini série de 2 episódios – um filme para a televisão – sobre a história de Victoria e Albert, com este nome. Poderia ser dito então “já foi feito”, mas, se o problema fosse esse, não haveriam tantas adaptações de Guerra e Paz, por exemplo. Cada direção traz um elemento novo, de modo que reboots podem ser feitos e ainda assim serão tão amados quanto as obras originais ou as primeiras adaptações. A história não precisava sofrer tamanha alteração. Focasse, então, para aumentar as chances de duração, no emponderamento de Victoria. No seu amadurecimento como monarca, pois sua história não se resume a um simples conto de amor, como tem parecido até agora. De fato, chega a ser risível o número de vezes em que ela pergunta pelo “Lord M” às suas damas de companhia ou até mesmo usa uma das carruagens delas para ir até ele incógnita. Querida, o povo está passando por uma mudança governamental muito grande, um grupo quase pulou pra cima de você durante um evento oficial e você me fica preocupada em dizer a Lord Melbourne que ele é o único homem da sua vida, sendo que você teve 9 filhos com o suposto “garotinho” por quem afirma sentir tanto desprezo?!

Falta coerência. Falta força. Eu pretendo continuar assistindo só para saber o que a autora ainda nos reserva nesse show de ficção. No entanto, não posso dizer que não te prende. Como forma de entretenimento ficcional, é divertido e encantador; todavia, não foi criado para ser um entretenimento ficcional, mas biográfico. Embora muitos filmes biográficos possuam erros, esse é um muito simples, pois é possível fazer a pessoa se apaixonar pela historicamente certa, não é? Portanto, se você não for chato como eu, pode assistir sem lamúrias, sem crise existencial. Recomendo como obra de ficção. Como se você estivesse assistindo a tantos outros filmes de época… Mas, como algo em que buscar fatos acerca da vida da rainha Victoria e do príncipe Albert, passo nem perto. Pela prévia, pois Albert já vai começar a arregaçar as manguinhas no próximo episódio, eles vão se detestar e, talvez, se apaixonar aos poucos – Meu Deus, onde eu já vi isso antes em um romance de época? – Poderiam ter desenvolvido a paixonite infantil para um amor mais maduro e cúmplice? Poderiam, mas, não foi essa a escolha feita e eu respeito, pouco, a liberdade criativa da autora… porém, que está errado, está.

Espero não ganhar unfollows com o desabafo.

 

xoxo

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2 comentários em “Ao fazer Biografia, não caia na Ficção

  1. Já chego neste espaço incrível e sou impactada por uma postagem tão enriquecida e reflexiva! Não sabia tanto sobre o amor que a Victoria viveu (conheço pouco da história dela e fiquei super curiosa agora para buscar mais sobre) e sequer sabia sobre a série, acabei recebendo um universo de recheios para críticas e bagagens somáticas.

    É realmente um absurdo que uma série tenha classificação de tal maneira, dando a entender uma grande proximidade e respeito para com a realidade, “desformulando” algo tão importante na vida de alguém. Nenhuma pessoa que deixou um legado, que deixou mensagens, que marcou tamanhamente e teve um grande amor, um grande parceiro, um grande amigo, um grande alguém ao lado fazendo parte das suas decisões e deixando uma dor terrível na partida, iria desejar tamanho desrespeito após deixar o mundo. É realmente trágico, um despautério. Se ao menos a obra deixasse claro em suas intenções e créditos que tal ‘liberdade criativa’ seria usada, impulsionando os espectadores a uma busca por informações mais reais… seria menos mal. Triste.

    Adorei a crítica, a elaboração, as reflexões, as cargas explicativas… tudo intenso e maravilhoso. Estarei sempre por aqui.

    http://www.semquases.com

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá, Vanessa! Fico muito contente em saber que gostou da minha crítica/reflexão a respeito de Victoria. E sim, imaginei a nossa rainha se revirando no túmulo com a escolha da autora. Contudo, fico contente em dizer que ela virou o jogo e Victoria e Albert vão se casar. O que me deixa feliz e ao mesmo tempo abre espaço para mais críticas, afinal, muitas pessoas shippavam-na com o Lord Melbourne e a rapidez com que isso foi descartado também foi incômodo; como um flagelo ao caráter da rainha… Fico feliz que agora a história seguirá seu curso, ao menos em questão de casamento, pois não sabemos quais outras atrocidades nos esperam… mas como disse, é um belo show, vale a pena conferir! E vale a pena também procurar saber mais a respeito desses dois <3! Obrigada pela visita, te espero mais vezes! Bjinhos!

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