a piece of my mind

A Vilã de Jane Austen

Uma boa estória pode ser resultado de várias circunstâncias. Por vezes, a própria forma pela qual os fatos são apresentados e conduzidos, por si só, é capaz de tornar uma primeira tentativa em um eterno clássico. Em outros casos, muito do sucesso se dá pela graça das pessoas as quais nos vemos apresentados. Os personagens de uma estória são a sua alma, visto que serão eles a ajudar para a criação de profundidade e significado. Sendo assim, na minha humilde opinião, mesmo o conto mais simplório pode ser considerado de grande valor, se seus personagens cativarem o coração do leitor; e existem incontáveis variáveis para tais personas. Meus preferidos: os vilões. Um bom vilão é capaz de fazer muito pelo seu herói ou sua heroína, pelos seus melhores amigos, seus “minions”… O comentário/crítica/conselho de amiga/recomendação desta semana se trata especialmente de uma vilã. Uma que encontrei no lugar menos provável…

Muitos de vocês sabem ou deveriam saber de minha adoração por Jane Austen. Desde que coloquei minhas mãos em um de seus livros pela primeira vez – Razão e Sensibilidade – me decidi que teria de ler todos os seus romances. Alguns me conquistaram mais do que outros, como é natural que aconteça, mas, é notável que detenho carinho por todas as adaptações cinematográficas já realizadas de todos eles. Há pouco tempo, cerca de dois anos, julgava ter atingido meu objetivo e lido todas as suas obras, quando numa ida inocente até a livraria me deparei com um exemplar de “Lady Susan”. Comprei-o no mesmo instante, tendo ouvido falar se tratar de algo um tanto quanto inacabado. Na verdade, está bem terminado! O diferencial era que, ao contrário de seus outros romances, este se resumia a um cumulado de cartas trocadas entre os personagens e que, ainda assim, deram o tom perfeito para a narrativa que em nada deixa a desejar! Jane era conhecida por escrever excelentes cartas a seus familiares, nesta obra descobrimos o porquê.

Cada uma é cheia de espírito e demasiadamente claras na diferenciação de caráter a cada um dos remetentes. Em especial, um remetente, a alma dessa estória. Lady Susan Vernon. Bem, ao longo dos anos, conhecemos vários tipos de personagens provindos da caneta afiada de Jane. Tivemos Lady Catherine De Bourgh, Mrs. Jennings, Mr. Collins, Mrs. Bates, Emma, Elizabeth, Fanny, cada um com sua “mania”, seu traço definidor. Todavia, Lady Susan, creio eu, foi a única verdadeira vilã da senhorita Austen, no sentido literal da palavra e o que ela representa para todos nós ou, como gosto de pensar, que teria significado para os conterrâneos do século 18/19. Uma viúva de trinta anos, extremamente provocativa – ao que denominam atitude coquete – e manipuladora. Dentre todas as personagens de Jane, esta parece ser àquela com quem mais se divertiu ao tocar sua pena no papel, o que torna esta, talvez, a novela em que mais se nota o famoso “Jane’s Wit”, o quão espirituosa sua escrita poderia ser.

Há um escândalo que precede a chegada de Lady Susan à propriedade rural do irmão de seu falecido marido em Churchill. Boatos afirmavam que, enquanto permanecia como convidada em Langford, ela teria sido expulsa pela dona da propriedade, Mrs. Manwaring, por tentar seduzir seu marido e o noivo de sua jovem cunhada. Descrita por sua cunhada, Catherine Vernon, como possuindo “uma mistura rara de simetria, esplendor e graça” logo no início do romance, esses atributos positivos talvez sejam os únicos cumprimentos que Lady Susan viria a receber em toda a história. Sendo inteligente e agradável, com um conhecimento do mundo que torna a conversa fácil e um feliz domínio da linguagem, capaz de transformar o preto em branco, ela orgulha-se, e com o prazer, de converter uma pessoa pré-determinada em não gostar dela em seu mais ferrenho defensor.”

Uma vilã no período Regencial de Jane só poderia ocupar um novo lugar de amor em meu coração, sendo uma de suas melhores personagens, junto a Elizabeth Bennet, Emma Woodhouse e Elinor Dashwood, na minha opinião. Claro, já tivemos seres desprezíveis em seus livros, tal qual a senhorita Lucy Steele, tão deleitada em destruir as esperanças e o amor de Elinor por Edward em Razão e Sensibilidade. Contudo, a novidade em Lady Susan Vernon é o quanto sua personalidade é cativante e charmosa enquanto planeja seus movimentos com cautela. Uma lufada de ar fresco, eu diria e como a crítica também disse quando finalmente tal conquista fora adaptada para o cinema. Ouso quotar…: “Ela é uma vaca, mas, você não consegue não torcer para que seus esquemas tenham sucesso!” Ainda mais quando ouvimos várias de suas cartas proferidas em voz alta pelo charmoso sotaque inglês de Kate Beckinsale.

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A adaptação foi anunciada no ano passado, mas, tão pouco fora anunciado a seu respeito que acabei me esquecendo de sua estreia. No entanto, graças a um tumblr, acabei conseguindo descobrir que ela de fato ocorrera, apenas não recebera o nome de “Lady Susan”, mas “Love & Friendship” – Amor e Amizade – o porquê de tal título, não tenho a menor ideia. Contudo, apenas nisso deixa a desejar. Em resto, é perfeita! Kate está brilhante em seu papel de “maior flerte da Inglaterra”, é impossível deixar de olhar para ela quando em cena. A trilha sonora é magnífica, numa combinação de instrumentos de corda com momentos de coro, e os figurinos… ah, os figurinos… a filmografia, tudo tão brilhantemente iluminado! Parece até um episódio de Downton Abbey. O roteiro adaptado das cartas presentes na novela é sucesso de Whit Stillman, bem como a direção. Correspondendo ao espírito de Austen, temos excelente comédia regencial aqui, na pura tolice do personagem de Tom Bennett, Sir James Martin, o suposto pretendente da filha de Lady Susan, Frederica.

Além disso, podemos dizer que a viúva é perfeita na arte de enaltecer aquilo que a educação inglesa não nos permite dizer em voz alta, mas que todos estão pensando, tornando alguns momentos de desconforto após suas tiradas sarcásticas, simplesmente encantadoramente risíveis. Uma vilã encantadora para a minha lista, livro e filme recomendadíssimos para os fãs da senhorita Austen que nunca falha na arte de nos entreter com suas reflexões acerca de seu tempo e tão à frente dele.

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 xoxo

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3 comentários em “A Vilã de Jane Austen

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