Amarelo, ela é amarelo.

yellow

Sinto falta de um lar que nunca foi meu. que nunca foi de ninguém, de fato. Eu costumava ter essa fixação com lares e casas. De fato, sempre acreditei que nenhuma jamais se compararia a minha. Não que ela fosse grande coisa. Era pequena e mal planejada, mas também, eu nunca precisei de muito espaço ou fui a favor de seguir planos à risca. Mesmo assim, eu queria um lar. Um espaço que me preenchesse à completude. O imagino com grandes venezianas brancas e livros no espaço abaixo da escada. No centro. Sempre no centro. Afinal, a ideia de me revolver reclusa no campo sempre me pareceu absurda… não parece?

Um dia, eu subi uma colina, no entanto. Calçava meu melhor par de botas de camurça… havia acabado de garoar… eu sentia meus pés afundando na lama… o inconveniente pelo qual não precisaria passar se estivesse na cidade… contudo, aquela era para ser uma aventura. Segui a estrada para fora da minha zona acarpetada de conforto e o que obtive? O mundo. Ao final daquela colina, não havia nada… nada além de quilômetros… não havia nada e tudo ao mesmo tempo. Era alto, isso era. Lá de cima assisti outras sete colinas e o mar, ao passo que me sentia sendo jogada contra algo… a verdade… e o conhecimento… tudo era verde e azul, mas… mas…

Amarelo. Aquela descida foi completamente amarela. Não havia espaço na sua paleta de cores para qualquer outra cor… você seria capaz de compreender Van Gogh. Enquanto descia, foi como se o mundo vivesse dentro de doze girassóis numa jarra, com uma grande lata de tinta amarela envolvendo-o; uma tela irreproduzível. O sol às costas era morno e começava a se pôr e quando me dei por mim… o mundo era amarelo. Pessoas seriam capazes de atestar quantas vezes enunciei meu ódio por tal cor. Contudo, naquele momento, ele foi meu lar. Afinal, lar, segundo dizem e eu nunca ousei buscar definição diferente, é onde seu coração está em paz… Aquele ali: com os tons de dourado pairando sobre a planície, sobre os lagos, em cada folha e por todo o céu… a água sussurrando aos meus ouvidos e no silêncio da completa contemplação… aquele era meu lar.

Poderia ser terra de ninguém. Simplesmente existindo para que outras pessoas se sentissem daquela maneira. Mas era meu. Eu queria acreditar que sim… que por anos eu fizera aquela caminhada ao topo pelo bel prazer de descobrir a descida várias e várias vezes. Para descobrir o amarelo várias e várias vezes. Justo eu… uma criança que sempre tivera crises de ansiedade e acreditava com todas as suas forças que seu lar teria venezianas brancas… eu encontrei paz. Eu fui paz. E, desculpem os intérpretes, ela nunca foi branca. Ela foi amarelo.


Esse texto faz parte do Pena & Tinta, um projeto de escrita criativa que tem como objetivo a criação de textos (crônicas, contos, poesias, relatos pessoais etc…) em cima de temas predeterminados mensalmente. Neste mês, escolhi o tema CORES.

Tem um blog e quer participar das próximas edições do Pena & Tinta? A gente está te esperando aqui: bit.ly/2dEXQEF 

xoxo

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7 comentários sobre “Amarelo, ela é amarelo.

  1. Outro texto apaixonante desse projeto incrível, que não vejo a hora de começar a participar efetivamente (cadê meu texto, produção? cadê meu tempo, produção?). Minha cor preferida sempre foi o azul, mas por causa do Setembro Amarelo, confesso que tô louca por amarelo. Simplesmente amei seu texto, porque é uma prosa poética e, diversas vezes, me peguei sentindo a grama, a colina e as botas de camurça. Vi um amarelo quase cegante à minha frente (ok, essa foto tá cegante, sim, mas muito linda!). O tempo inteiro, ouvi Yellow na minha cabeça, pois é.
    You were all yellow ❤

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com/

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    • Ninaaa!! Desculpe a foto cegante!! Tentei encontrar uma foto que simbolizasse exatamente o tom de amarelo que queria, mas, não consegui, então, resolvi cegar vocês kkkkkkkk me perdoe! Minha cor favorita sempre foi rosa, mas, de uns tempos para cá, venho desenvolvendo um amor incondicional pelo amarelo. Fico feliz que tenha gostado do texto, mal posso esperar para ler o seu, moça. Sobre Yellow, você acha que eu escrevi isso ouvindo o que, hein?? Minha música favorita do Coldplay!! Um beiijooo!!

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  2. Amei seu texto, diversas vezes, me peguei sentindo a grama, a colina e as botas de camurça. Senti a cor amarela tomando conta do meu ser. Li ouvindo Photograph, viajei nas colinas que você citou. As vezes sinto falta de algo que não sei explicar, não sei se são sentimentos de outra vida, não que não seja feliz com a vida que tenho. Mas as vezes me falta algo. Obrigada por compartilhar. bju

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  3. Esse final! *O* Como não aplaudir?!

    Você escreve muito bem!!! Mas mais do que elogiar a forma de escrita, gosto de comentar sempre o que me faz sentir quando leio textos assim lindos. O seu foi identificação lá pela metade, quando a personagem descobre a colina. SENHOR QUE PULSAÇÃO! Eu que já estou desesperada de sair da cidade, não pude torcer mais para que ela encontrasse na calmaria algo para se fixar. É quase como um momento de epifania, de descoberta que não tem como voltar atrás. Epifania de cores que se revelou amarela (e os girassóis de Van Gogh como referência??? NÓS FICA KOMO? KK). Foi lindo!!!

    E deixo aqui o meu OOOI ADOREI DE CONHECER VAMOS SER AMIGAS?! hahaha e também o meu muito obrigada por ter aceitado fazer parte do Pena & Tinta!!! ❤ De agora em diante é só arraso!

    Beijão!
    Tici | http://www.feitopoesia.com

    Curtido por 1 pessoa

    • Ooooooi, sua lindaaaa!! Que comentário mais amooor!! Fico feliz que tenha gostado da minha escrita e também que minhas palavras tenham levado a identificação. Fico feliz, feliz!!!! VAMOS SER AMIGAS!!! Eu que agradeço por terem me deixado entrar!!! Beijooos!!

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