Thoughts on Books

O Detetive e A Mulher

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Em post anterior, comentei a respeito do “Um Pequeno Truque da Mente” de Mitch Cullin, aqui: Mr. Holmes – O cavalheiro solitário. Um livro baseado no universo de Sherlock Holmes e que explorava o período de aposentadoria de Holmes e alguns de seus demônios pessoais a partir da narrativa de seu último caso. A obra bastante sensível é bem sucedida em trazer novas nuances ao caráter da grande celebridade literária, já demasiadamente utilizado por seu criador, ao reuní-lo com novas personagens além do tão amado Doutor John Watson. Foi adaptado para o cinema e, embora a atuação de Sir Ian McKellen como Sherlock mereça todo o aplauso, o filme falha em realçar detalhes que apenas a prosa é capaz de passar ao seu leitor.

Aparentemente, existem várias obras mundo afora que se utilizam da figura de Holmes e alguns outros personagens do cânone, tendo eu mesma o feito em fanfics. E, até pouco tempo, só havia me deparado com a versão de Cullin e de Laurie King, com a saga de Mary Russell Holmes. Aconteceu que uma amiga autora de fanfics, e querida crítica do meu trabalho, me chamou a atenção para o trabalho de uma americana bem especial: Amy Thomas. Membro do honorável grupo Baker Street Babes, Amy escreve com Holmes, sim, mas sua identidade no papel é, impreterivelmente, Irene Adler. É a primeira vez, mesmo para os leitores do cânone, que a vemos tomar um papel mais ativo e independente da mente do detetive. A Irene de Thomas, de fato, sobressai aquele que deveria ser o nosso suposto protagonista e facilmente nos envolve no enredo dos três livros com seu ponto de vista. Um quarto livro já está em andamento, portanto, àqueles que se apaixonarem pela trilogia inicial, nada temam! Seremos presenteados com mais!

Infelizmente, os livros ainda não foram traduzidos para o português *pausa para o ooooh coletivo*, porém, a senhorita Thomas me revelou pelo twitter – ela é uma graça, pessoal! Responde os fãs, troca ideias, um amor! – que já está conversando com seus editores acerca da expansão das traduções de seus livros para mais línguas. Enquanto isso, me arrisquei na versão original mesmo e, devo dizer, não é uma leitura que requer o inglês mais arcaico. É uma leitura gostosa. Bem fluída. Como um Harry Potter e, ouso dizer, o próprio Sherlock de Conan Doyle. Bem, os livros são divididos entre capítulos na primeira pessoa de Adler e na terceira pessoa de Holmes, uma visível tática de preservar o andamento do caso e não entregar o principal mistério: o coração/mente/corpo/alma do pomposo detetive.

O início da narrativa nos traz, então, a figura de Adler em luto – externo, apenas – pela morte de seu marido, o notório Godfrey Norton. Só o que se sabia pelo cânone e adaptações é que Norton aparentava ser o típico advogado de classe média da era vitoriana, mas, gentil e apaixonado por sua noiva. Amy desconstrói totalmente essa imagem ilusória e a transfigura na de um marido abusivo bastante crível, visto que esses abusos acabaram em muito mais do que algumas marcas na pele de Irene, mas, na sua perda de autoconfiança e um pouco da garra que a tornou A MULHER para Sherlock Holmes. Falando no dito cujo, o caso deste livro se passará durante o período de hiato na saga sherlockiana: quando Holmes falseia sua morte na queda das cataratas de Reichenbach junto a Moriarty. Estando disfarçado, fazendo o mundo acreditar em sua partida desta para a melhor, mantém apenas a correspondência com seu mano Mycroft (<3), recebendo a tarefa de descobrir a identidade destes dois homens que estão atrás de uma tal senhorita ‘A’; ao passo que Irene retornou aos palcos, a música seu último alicerce… e sim, ela é a senhorita ‘A’.

Essa situação coloca-os juntos para a resolução do mistério cujo custo é a segurança física de Adler. Nenhum dos dois está confortável com isso. Nenhum dos dois confia no outro. Ainda assim, embarcam no velho arquétipo de “vamos fingir ser um casal” para resolver esse caso. A mentira até que funciona com a maioria do seu grupo de amigos – círculo que conta com a própria figura de Thomas Edison, famoso inventor. É interessantíssimo e deveras divertido assistir esse primeiro lampejo de dinâmica entre ambos. Os dois velhos inimigos que agora estão obrigados a trabalhar juntos e, sem perceber, acabam desenvolvendo uma profunda amizade. Como reitera Holmes, “Adler não é Watson”. Sem querer desmerecer o doutor, ela é bem mais proativa e disposta a brincar com o detetive, tornando-se muito divertida para nós. O ponto alto para mim é como sempre parecia estar com fome quando as coisas iam ficando tensas, ao passo que seu parceiro mal tocava em qualquer coisa que fosse.

A trilogia tem como base o nome “The Detective and The Woman” e não é para menos. Irene é a grande estrela desses livros, à medida que a vemos recobrar sua confiança. E o principal responsável por isso é Sherlock. Ao final do primeiro livro, ele lhe concede sua casa em Sussex Downs, onde Irene começa a cultivar seu apiário e vive uma vida mais pacata, campestre, mas que a preenche vividamente. À primeira vista, soa estranho que a glamourosa senhorita Adler, renomada cantora e atriz, se retire para o campo e escolha a apicultura como hobbie. Mais estranho que, ao final do livro, no epílogo, haja uma troca de cartas entre os protagonistas nas quais ALERTA DE SPOILER: admitem estarem interessados romanticamente um no outro e a palavra casamento é deixada implícita… porém, quando o segundo livro começa, nada disso é mencionado. Buscando explicação, indaguei a minha amiga que indicou o livro e ela me disse que o epílogo se passa anos depois e que o segundo livro volta a linha cronológica normal, ainda trabalhando melhor essa amizade entre os dois. Estranho, né? Mas, continua excelente. FIM DE SPOILER 

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O segundo livro, The Winking Tree, é, de longe, o meu favorito entre todos. Por quê? Explora um aspecto que amo da personalidade de Holmes: crianças. A forma como ele perde um pouco da frieza aparente para se relacionar com elas e acaba tratando-as com mais igualdade do que muitos de seus companheiros de idade. A garotinha em questão é Eliza, filha do fazendeiro cujo desaparecimento extraordinário fez com que Irene escrevesse para seu amigo a fim de que viesse ajudar nas investigações. O mistério, apesar de parecer simples, à primeira vista, traz até figuras da infância/adolescência de Holmes para a cena. Eliza, no entanto, é a cerejinha do bolo! Gente… que criança linda!! Charmosa, com aquela inteligência infantil deliciosa de ler! A passagem de tempo entre 1º e 2º livro nos permite visualizar melhor o crescimento de Irene dentro da pequena comunidade a qual passou a chamar de família/amigos/lar… uma síntese feita por um comentário de Sherlock, ao compará-la com uma abelha rainha. No que concerne a senhorita Adler, no entanto, o charme está em não saber disso.

Ele seguiu A Mulher para as colméias e assistiu enquanto ela interagia com as abelhas. Seus gestos eram calmos e intuitivos, perfeitamente em casa entre elas. Fazia sentido, ele pensou, pois ela era uma delas. Não, não uma operária. Ela era a rainha. Ele havia percebido durante aqueles dias de visita, o quão frequentemente as pessoas de Fulworth vinham até ela, se consultavam com ela, até a amavam. O pequeno chalé na colina estava rapidamente se tornando o centro de todas as coisas. O charme de Irene Adler era que ela não tinha nem ideia. Ela era a rainha totalmente inconsciente do fato de que o reino era dela.

Tradução direta do original por mim.

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Embora suspeite que muitos não ousarão enfrentar a leitura do inglês, espero que essas palavras o incitem a requerer a primeira cópia quando finalmente a tradução chegar nas nossas livrarias! Sendo assim, não quero dar muitos detalhes sobre os casos em si. Afinal, por mais intrigantes que sejam, a magia destes livros é justamente a forma como cada autor trabalha essas figuras históricas. Como colocam sobre eles traços originais seus, mas, ainda assim com a integralidade que teria satisfeito Doyle – eu espero/imagino. Nesse sentido, passamos para o terceiro livro – The Silent Hive. Aproveitando-se de um fio solto no caso “As Cinco Sementes de Laranja”, Thomas traz de volta a problemática da Kux Kux Klan, bem como outro personagem do cânone, para finalizar essa trilogia inicial, colocando Holmes em uma situação de saia justa ao vislumbrar pessoas de sua estima e confiança sendo usadas ao bel prazer de um sofisticado jogo de vingança.

As tramas de Thomas contêm tudo. São o pacote completo: a familiaridade que somente um ambiente conhecido e amado traz, mas com o frescor dos traços de sua caneta. É envolvente, carismático e sincero. Logo, por qualquer amante de Sherlock Holmes, merece ser lido.

xoxo

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Um comentário em “O Detetive e A Mulher

  1. Olá!

    Demorei um pouco porque, desde que terminei de ler sua resenha, senti que necessitava de tempo para escrever algo apropriado. Pois bem, o tempo surgiu, então vamos lá.

    Concordei com praticamente cada palavra da sua resenha dos três livros da Amy Thomas. A abordagem dela sobre a Adler é extremamente diferente do perfil que vem sendo divulgado nas produções mais recentes. Essa coisa de Adler golpista, interesseira e mulher-predadora tem sido repetido tanto à exaustão que muita gente por aí deve imaginar que isso é algo cânone. A Adler da Amy Thomas é um belo contraponto a isso. Assim como você, acho factível que o marido dela tenha adotado uma postura violenta, de modo que a morte dele foi algo “libertador” para ela. Eu jamais a vi como uma profunda transgressora da moral e dos bons costumes, mas como uma mulher que pertencia a uma classe social descriminalizada (artistas), numa época onde a vida nos palcos não tinha nem de longe a respeitabilidade de nossos tempos. Claro, também não a vejo como uma típica mulher vitoriana. Eu a vejo mais como alguém moderadamente fora dos padrões. Ainda assim, pessoas tendem a criar um perfil muito exagerado das coisas, infelizmente.
    O meu livro preferido foi o terceiro, mas entendo o seu lado em gostar mais do segundo. Ver Holmes interagindo muito bem com crianças é sempre algo bom de se ler. Fora que a menina é realmente uma fofura. Eu gostei do terceiro por mostrar um lado mais humano do Holmes, feito de modo adequadamente sutil pela Thomas. Sim, não vimos o Holmes se debulhando em lágrimas, mas ver pelos olhos sensíveis da Adler um pouco de emoções “mundanas” como raiva e frustração serem exaladas por um detetive que sempre prezou a lógica foi o que acredito ter sido o auge da história.
    Percebi que, nas partes finais dos livros, Amy tem deixado muitas dicas sobre o futuro dos dois, apesar da troca de correspondências no final do primeiro livro entre Holmes e Adler ter sido o ponto mais direto sobre isso. Eu posso até ter ficado um pouco frustrada quando cheguei a última página do terceiro e percebi que o casal ainda não havia decolado, mas isso não me deixou nem um pouco irritada. Acredito que parte da magia dos livros dela está nisso. Nessa questão de “preparar o terreno”. Muita gente acharia tentador ter transformado os dois em um casal ainda lá na Flórida, mas Amy tem agido com paciência, reservando-se a dar apenas pequenas nuances do que está porvir, como se quisesse dizer aos seus leitores “calma, pessoal, eles vão ficar juntos” rs. O que nos resta é esperar.
    E por falar em espera, é delicioso acompanhar o progresso dos dois, partindo de velhos amigos com extrema desconfiança a dois amigos, desses de caminhar lado a lado horas e horas e ter sempre algo a se conversar.
    Jamais shippei Holmes e Adler porque sempre vi exagero das pessoas em fazê-lo (não sei explicar, mas shippava mais com a Violet Hunter rs) mas Amy Thomas me fez achar mais… Possível ter existido uma moradora lá em Sussex Downs durante a aposentadoria do Holmes, rs.

    Curtido por 1 pessoa

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