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Os Irmãos Karamazóv

Ano passado, tive a primeira oportunidade de conhecer Fiódor Dostoiévski com “Crime e Castigo”. Sua literatura, como pude perceber, é recheada de indagações elevadas a respeito do espírito humano, especialmente a sua relação com o divino. No primeiro caso, como o verdadeiro castigo e a verdadeira salvação provém de Deus. Em “Os Irmãos Karámazov”, enquanto último romance escrito pelo autor, vemos serem levantadas ainda outro mar de questões: a separação entre o Estado e a igreja, por exemplo, que a partir da vivaz terceira onisciente pessoa de Dostoiévski – quase assemelhada a uma primeira – percebe-se ser algo desaprovado por ele.

Os irmãos Karamázov é o último romance de Dostoiévski. No fundo, ele resume toda a criatividade do escritor, trazendo à baila as “malditas” questões existenciais que o afligiram a vida inteira, com especial relevo para a flagrante degradação moral da humanidade afastada dos ideais cristãos. Cheia de peripécias, a narrativa põe em foco três protagonistas irmãos, representantes dos mais diversos aspectos da realidade russa – o libertino Dmítri, o niilista Ivan e o sublime Aliocha -, a fim de alumiar as profundezas insondáveis do coração entregue ao pecado corrompido por dúvidas ou transbordante de amor.

Esta obra foi dividida em 12 livros e mais um epílogo, se iniciando com uma pequena biografia desta família russa que deverá nos ajudar a entender o passado e caráter de nossos protagonistas, assim como as suas motivações. É muito raro que um livro me conquiste desde o prólogo e esta foi uma destas bem-vindas exceções. Nele, Dostoiévski deixa claro quem é o seu verdadeiro herói, Aliocha, contudo, conforme a narrativa vai progredindo, fica cada vez mais claro que este não deveria ser um livro solo. É possível que a ideia do autor foi a de separar esta história em dois volumes, porém sua saúde não permitiu dar fim ao plano. Como resultado, aparentemente, temos a história não de Aliocha, mas de Dmítri.

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Dmítri, Ivan, Aliocha

De início, uma certeza: Fiódor Pavlóvitch Karámazov é alguém de quem não gostamos. Personalidade repulsiva e corrupta. Casado duas vezes com mulheres que foram notadamente infelizes, a segunda sendo taxada como louca. Dmítri Mítia Karamázov sendo seu filho mais velho e fruto único de sua primeira relação matrimonial, ao passo que Ivan e Aliocha compartilham o sangue de sua mãe. O primeiro sempre teve a pior relação com o pai e talvez porque ambos possuem traços de lascívia em suas personalidades. Em todo caso, a criação de Dmítri fora deixada à cargo do criado mais velho da casa de Fiódor: Grigóri, que ironicamente viria a ser seu grande algoz no futuro. Por fim, a oportunidade para se livrar do filho surgiu com a chegada de um primo da mãe de Dmítri: Piotr Alexândrovitch Miússov, que o levou para viver em Paris consigo ao perceber a indiferença do pai para com o menino. Longe das vistas do pai, o primogênito cresceu cheio de ares por acreditar que era herdeiro de uma grande herança, agindo como um verdadeiro bon vivant. Seu pai, sempre preocupado de que seus filhos viessem lhe tomar dinheiro, resolveu punir a ganância do mais velho enviando-lhe pequenas somas de dinheiro. Chegado o momento do acerto de contas, quando este atingiu a maioridade, Fiódor revelou-lhe que aquela soma era tudo a que tinha direito, três mil rublos ao total, os quais já havia gasto. Assim, achava-se destituído. Tal situação inaceitável o levaria a tomar suas próximas decisões…

Seus outros dois irmãos, Ivan e Aliocha, apesar de dividirem o mesmo sangue e o mesmo lar, não poderiam ser mais diferentes… como a vida tende a nos ensinar. Ivan frequentou uma universidade e ao retornar para casa, levantando muitas contradições por todos que conheciam a família, passou a representar a consciência e o juiz para as rusgas entre o irmão mais velho e seu pai. Apesar de todas as chances, Fiódor parecia se dar bem com este filho. No entanto, salvo engano, o único de que realmente parecia gostar e dissera amar – o que todos diziam amar – era Aliocha. Um anjo na terra. Crescido, recolheu-se ao mosteiro de onde tomava os ensinamentos do alto sacerdote Padre Zózimo, a quem amou como seu mais querido professor. Alma gentil e caridosa, por quem as mulheres locais detinham o mais alto respeito e dirigiam seus dilemas. O plano de Aliocha sempre parecia ter sido, de fato, seguir os passos de seu mestre dentro do mosteiro. Contudo, no início da história descobrimos que Zózimo está enfermo, prestes a morrer e antes que isso ocorra, como um favor a Aliocha, juntos tentam conciliar o pai com os irmãos. A reunião, é claro, sai extremamente errada e ao seu final, Zózimo tem um ataque final ao olhar para Dmítri e aparentemente prever as próximas decisões que tomará… suas últimas palavras a seu pupilo são para que ele deixe o mosteiro, pois ele pertence ao mundo. Talvez, ele houvesse de fato previsto os fatos seguintes e queria se certificar de que Aliocha estaria lá para socorrer sua família.

Certamente, para alguém que tinha pretensões de seguir os passos filantrópicos de um sacerdote, o caçula dos irmãos Karámazov demonstra possuir, ainda que contidos e menos exorbitantes do que os de seu irmão mais velho e pai, sentimentos tidos como lascivos. Mítia chega a dizer para seu irmão que ele não está isento da luxúria que assola os homens da família. Assim, temos um momento em que Aliocha confessa estar apaixonado por Lisa, sua amiga de infância e esta lhe devolve o afeto. Ambos trocam promessas para o futuro, mas por algum motivo acabam não cumprindo-as. Lisa o chama de covarde… e não a vemos mais. Provavelmente esta porcentagem da história deveria receber um final melhor num segundo volume, mas algo de que podemos ter certeza é que a natureza de Lisa é muito mais mundana e contraditória se comparadas com a bondade inerente de Aliocha. Dostoiévski, durante o prólogo do livro, disse que Aliocha é um herói que fica à margem e que por isso seria difícil para as pessoas acreditarem nele como tal. De fato, especialmente quando toda a motivação aparente da história circunda pai e filho mais velho.

Pois bem. O grande x da questão aqui é: pai e filho estão de olho na mesma rapariga, *risos*. Uma moça de nascença e caráter duvidoso, mas que na verdade apenas sofreu muito com a vida e não gosta de se deixar enganar, mas de manipular um pouco as pessoas como forma de realização pessoal, talvez. Em todo caso, Agrafena Alexandrovna ou Gruchénka é o motivo de grande desquite entre pai e filho. Ela brinca com ambos, apesar de Dmítri amá-la de verdade. Mesmo assim, este procura uma herdeira, Katerina Ivanova, a fim de se casar com ela… mas acaba lhe roubando dinheiro que foi-lhe confiado por ela  para que enviasse uma carta a sua irmã em Petersburgo. A partir desse roubo, nasce um rombo no coração de Mítia que deseja apenas quitar essa dívida para ver-se livre de Katerina e recomeçar com Gruchénka – embora ela não tenha lhe feito promessa alguma de que pretendia se casar com ele. Todavia, Katerina está obcecada por Mítia, num misto de amor e boa samaritânisse… apesar de estar claro que na verdade seus sentimentos reais são para Ivan, o irmão do meio. Em todo caso, neste luta por Gruchénka, o filho põem-se em várias vigílias na casa do pai para assegurar-se de que sua amada não vai visitá-lo, vez que se o fizer… sangue vai escorrer do pescoço de alguém ali… e isso se repete ao longo das noites…

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Ivan e Katerina; Dmítri e Gruchénka; Lisa e Aliocha

 Entrementes, temos o encontro de Aliocha com os meninos de rua, a publicação do artigo de Ivan… algo análogo ao que o autor fizera em “Crime e Castigo”; utilizar-se de algo que um personagem teria escrito e que soasse contraditório ou revolucionário, a fim de expor sua própria visão acerca das grandes questões que o atormentavam. Neste caso, seria a existência de Deus, questionada a partir daquela célebre frase: se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo, de Voltaire, e que se estende para também se questionar o dever do amor ao próximo e que nos leva ao maior questionamento relacionado a esta obra:

ele (Ivan Fiodorovitch Karámazov) declarou em tom solene que em toda a face da terra não existe absolutamente nada que obrigue os homens a amarem seus semelhantes, que essa lei da natureza, que reza que o homem ame a humanidade, não existe em absoluto e que, se até hoje existiu o amor na Terra, este não se deveu a lei natural mas tão-só ao fato de que os homens acreditavam na própria imortalidade. Ivan Fiodorovitch acrescentou, entre parenteses, que é nisso que consiste toda a lei natural, de sorte que, destruindo-se nos homens a fé em sua imortalidade, neles se exaure de imediato não só o amor como também toda e qualquer força para que continue a vida no mundo. E mais: então não haverá mais nada amoral, tudo será permitido, até a antropofagia. Mas isso ainda é pouco, ele concluiu afirmando que, para cada indivíduo particular, por exemplo, como nós aqui, que não acredita em Deus nem na própria imortalidade, a lei moral da natureza deve ser imediatamente convertida no oposto total da lei religiosa anterior, e que o egoísmo, chegando até ao crime, não só deve ser permitido ao homem mas até mesmo reconhecido como a saída indispensável, a mais racional e quase a mais nobre para a situação.

Então, se Deus não existe, tudo seria permitido? No entanto é muito bela a certeza que possui Aliocha de que ele, de fato, existe e que acaba convertendo algumas das pessoas que veem a cruzar seu caminho. Dentre estes estão os meninos de rua que acabam se familiarizando a Aliocha, muito embora este tenha possuído graves desavenças com um deles no início da história. Voltamo-nos, então, mais uma vez para o ciclo principal. Pai e filho e Gruchénka. Dmítri está cada vez mais desesperado em quitar sua dívida com Katerina, porém, acaba abrindo mão deste pedaço de si, desde que consiga arrumar os três mil rublos a que acredita ter direito e que também acredita terem sido roubados por seu pai, para fugir. Ele está dentro do jardim e vê seu pai olhando pela janela como se esperasse alguém. Mítia acredita que ele espera por Gruchénka, contudo, horas antes ele a havia escoltado para a casa de outra pessoa… ela não poderia ter mentido. Buscando sair para se assegurar, acaba sendo visto por Grigóri que o agarra e grita “Parricida”. Sem entender, Mítia tenta se livrar dele e o acaba ferindo gravemente na cabeça. Achando ter matado alguém, desespera-se e foge em busca de sua amada. Questiona a criada e acaba por fazer uma pequena viagem atrás de Gruchénka que partira atrás do homem que há muitos anos havia cuidado dela e por quem se apaixonara, um oficial Polonês.

Este que, contudo, acaba por tratá-la com indiferença frente a seus amigos em um bar. Finalmente, diante do estado de Mítia, ela aceita se casar com ele, afirmando-o que de fato o amara mais do que somente por uma hora. Ambos passam a noite no mesmo bar, com o mais velho Karámazov matutando sobre o homem que com certeza havia matado. Contudo, quando os oficiais os encontram a fim de prendê-lo, afirmam que fora seu pai quem ele matara. Alguém matara Fiódor Karamázov naqueles segundos em que ele estivera e não estivera na janela, não se sabe quem e suspeita-se de Smerdiakóv, suposto filho bastardo de Fiódor, criado por seus dois empregados e que teria todos os motivos para cometer tal assassinato devido a maneira como fora tratado durante seu tempo de servidão dentro da casa. Porém, de fato, nunca foi realmente descoberto quem e Mítia acaba sendo culpado quando é inocente… e nesse meio tempo, Ivan chega a enlouquecer… os motivos não irei revelar, porque quero que vocês leiam! O julgamento de Dmítri é maravilhoso! Para uma aluna de Direito ler, chega a ser um tapa na cara atrás de um tapa na cara, porque enquanto leitora, eu sei que ele é inocente, mas, se estivesse ali assistindo aquilo tudo… muito provavelmente, na falta de outro suspeito, visto que Smerdiakóv falece de um de seus ataques – ele era extremamente doente – logo após o ocorrido, também o teria chamado de culpado…

Que os juízes se interessavam pelo ocorrido não por um enlace moral envolvendo o caso ou pela pena que sentiam de Mítia, mas pelo simples fato de que aquele caso oferecia novas análises modernas para a jurídica russa e talvez mundial é… repugnante de certa forma. De fato, um estudioso, um cientista deve se animar frente a novas descobertas e os fatos que as propiciam a eles, mas, esquecer-se da própria humanidade das circunstâncias – como se espera que aconteça, tendo em vista a imparcialidade – foi um pequeno tapa na cara… pelo menos eu interpretei assim. E há uns tantos outros milhões de assuntos abordados dentro deste livro que, embora eu tenha gostado mais de “Crime e Castigo”, não posso não dizer que: enquanto obra da literatura mundial russa, “Os Irmãos Karámazov” é o romance melhor. Ele é mais rico. Mais forte. Portanto, não pode não ser lido.

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