After all this time we could have been friends?

Eu me lembro da primeira vez que assisti a um filme em preto e branco. Shall we dance; Fred e Ginger. Lembro-me também da primeira vez que tive certeza de que me apaixonara por filmes em preto e branco. Sunset Boulevard. Por fim, lembro-me de quando disse em voz alta que “aquele” filme era o meu favorito. All About Eve. No Brasil traduzido como A Malvada. O filme no qual, de acordo com críticos, fãs, amigos, Bette Davis interpretou ela mesma. Isto porque o papel de Margo Chaning deveria ter sido interpretado por Claudette Colbert, mas que por um ferimento nas costas, não conseguiria dar início às filmagens; logo, chamaram Davis e o roteirista reescreveu a protagonista para que se adequasse ao perfil da atriz. Certamente facilitou os comentários de que Channing fosse seu alter-ego. Certamente também tal interpretação tornou-se a minha opinião sobre Bette Davis, quem era… e eu a idolatrei.

Ao contrário de Audrey Hepburn e Marilyn Monroe, a quem conheci devido a seus rostos estampados em merchandises variados e busquei conhecer mais devido a, envergonho-me dizer, a primeira por sua fama no filme bonequinha de luxo, a segunda por sua história trágica, bem, ao contrários destas, Davis foi a primeira atriz da era de ouro de Hollywood a quem verdadeiramente admirei pura e simplesmente por seu talento. Seus olhos, sua voz, seus gestos, nada em seu trabalho parecia forçado ou inorgânico, mas cheio de paixão e verdade. Ouvi de alguém ou li em algum lugar certa vez que um dia ela fora mocinha e que, com a idade, apenas interpretara megeras; visto que na juventude diziam que possuía pouca beleza, mas encanto suficiente nos olhos. O frescor por fim se esvaiu e o encanto nos olhos convertera-se em outra coisa… algo que ainda não consigo identificar como nada mais do que: “she knew best”, ela sabia melhor.

Com que então vi o anúncio de que Ryan Murphy, famoso por seus grandes sucessos na FOX, estaria produzindo uma série a respeito de duas lendas. Entre elas, a minha Bette. E que seria interpretada por uma das minhas atrizes favoritas desta nossa era: Susan Sarandon. Vi-me completamente vendida. Todavia, se por um lado estivesse preparada para o que esperar ou ao menos consciente do que desejava ver, de outro, encontrava-me completamente cega. FEUD trouxe-me várias reflexões, interpretações maravilhosas, críticas ácidas e nem um pouco implícitas, mas também trouxe-me Joan Crawford… ou a versão da Jessica Lange de Lucille LeSueur. Tola eu. Poser admiradora da era dourada. Como atreve-se a não conhecer o trabalho da eterna Mildred Pierce. Bem, em justa medida, tampouco conhecia a fundo o trabalho de Jessica Lange. Sabia de seu enorme sucesso, porém, não identificava o motivo de “tamanho auê”. Obrigada FEUD.

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A série começa com a cerimônia do Globo de Ouro de 1959. O destaque já em Jessica Lange ao desdenhar a vitória de Marilyn Monroe por Some Like it Hot, momento que a esta altura considero irônico ao comparar partes de seus passados. Norma Jean Mortenson criara Marilyn Monroe a fim de sobreviver na indústria. Lucille LeSueur criara Joan Crawford com o mesmo fim. De fato, em entrevista, Lange afirma que um dos maiores desafios e atrativos do trabalho foi interpretar não Crawford, mas Lucille. Sua verdadeira persona. Caminho que considero mais do que acertado e que conferiu toda a profundidade da personagem, bem como embasou uma possível superação de todo preconceito que um fã desavisado poderia carregar consigo graças à Mommie Dearest – livro escrito pela filha primogênita de Crawford, Cristina, relatando todos os abusos que sofrera na infância pelos métodos educacionais de sua mãe. Na época, uma obra que notadamente teria influenciado na desconstrução de um ícone…

Em verdade, FEUD por si só é uma desconstrução e reconstrução de ícones, até mesmo construção, no caso de Crawford. É sempre maravilhoso analisar um trabalho que se permite explorar os bastidores. Os acontecimentos orquestrados por roteiristas nunca deixam de ser prazerosos, este também não deixa de conter esse elemento, mas por se tratar de personas que de tão lendárias tornaram a si mesmas personagens, enseja algo a mais. O tom que Ryan Murphy dispõe a série torna crível que estes acontecimentos, na ordem e na maneira que ocorreram, apesar de serem fruto do trabalho de pessoas que não viveram aquele momento e que produziram um roteiro para tais, de fato, ocorreram em verossimilhança com o mostrado na tela. Destaque para o episódio do Oscar de 1963. A recriação de penteados, figurinos, olhares… quem há de me dizer que naqueles segundos o coração de Bette, ansiando uma última prova, uma chance de provar a todos os figurões de que independentemente da sua idade, ainda era dona de todo o talento, não parou? Que o veneno no sorriso e olhos de Joan não foi de tal magnitude, quiçá maior?

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E aliás, Hollywood deveria ser forçada a ver o que fizeram com ela

Quando eu era criança, havia uma animação da Warner Brothers chamada: Gatos não sabem dançar. Essa animação me trouxe a verdade que FEUD veio reafirmar. Hollywood como é: os grandes estúdios, os grandes homens com seus ternos risca de giz bebendo scotch enquanto apunhalam uns aos outros e criam um ambiente altamente competitivo, não é um lugar onde sonhos se realizam… mesmo para aqueles que detém verdadeiro talento e pura devoção à arte. “É isso o que essa cidade faz com você, rapaz… acaba com a gente…” Ela lhe oferece uma segurança passageira. Ao se esvair, deixa um vazio preenchido por autopiedade, culpa e muitas doses de martíni. Sem falar na sensação de que, apesar do quanto somente aqueles que passaram pelo mesmo que você, às vezes, junto a você, são os únicos que compreendem esse vazio no final da estrada, ainda prevalece a competição antiga.

Seja pelo fato de que Warner e Aldrich, o diretor, resolveram que seria melhor para a produção do filme Whatever Happened to Baby Jane alimentar a rixa entre Bette e Joan a fim de que o ódio fosse real e não coreografado, seja na falta de apoio presente entre duas mulheres talentosas, no caso Joan e Pauline, quando uma busca apoio no talento da outra para alcançar seu próprio sonho de dirigir, mas é superada pelo conformismo de uma porque “as coisas são do jeito que são” e te ajudar a mudá-las pode custar a minha própria carreira. A própria relação de Warner com Robert Aldrich, este sedento por estabilizar seu nome, segurá-lo para as próximas gerações, mas limitado pela visão do dono do estúdio, preso àquilo que vende. Como a ânsia por amor – o clamor dos fãs -, por fazer aquilo que te faz ser quem é, viver o sonho, custa caro demais… custa o amor de seus filhos, seu casamento, sua saúde, por vezes os próprios princípios… por uma indicação. Por um tapinha nas costas da academia.

O Glamour de uma época em que os resultados da bilheteria de uma produção eram anunciados como o placar de um grande jogo de futebol, na qual inventou-se o conceito de uma estrela, de uma femme-fatale, de nomes que alimentavam-se ao conseguir destruir reputações… Hedda Hopper… arrasados em oito episódios que dilaceram e expõe as entranhas da era de ouro, revelando-a como o ouro dos trouxas que é. Uma vida inteira… uma carreira de mais de vinte anos… por cinco segundos de homenagem no memorial…

E nunca foi o bastante.

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xoxo

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