Thoughts on Books

David Copperfield

Antes que o ano termine. É. Gostaria de dar uma passada aqui antes que o ano termine.

Nem sei ao certo se teremos aquela retrospectiva marota de final de ano; o que aprendemos em 2017? Difícil colocar em palavras, pois me pareceu um ano tão comum… vamos precisar trabalhar nestas reflexões. Contudo, foi com certeza um ano no qual li muito pouco; e estive presente aqui por muito menos tempo do que gostaria. Saudades 2016… pelo menos eu sabia falar sobre a merda que estava acontecendo, perdoem os termos chulos.

Foi necessária dedicação neste segundo semestre, com a apresentação do pré-projeto do meu projeto de conclusão, que por motivos inexplicáveis não é mais nas normas do TCC propriamente dito; aka foi o caos. Todavia, passamos e 2018 nos testará mais uma vez, com certeza. Nesse ínterim de criação acadêmica fui comprando livros e livros, entre eles, a causa deste post. São poucos aqueles que me acompanham e, por vezes sinto que estou digitando para o nada, mas o nada continua sendo melhor do que manter conclusões presas em mim mesma. A escrita é boa criativamente e liberta nos momentos de capricho pessoal também.

Meu primeiro Charles Dickens foi Um Conto de Natal. A tradição me incumbe de relê-lo todo ano nas festas. Em 2017, preferi ouvir o audio book na narração do Neil Gaiman; meu deus, que homem… por que todos os autores não podem ser Neil Gaiman? A question for the philosophers. Através das inflexões dos fantasmas que perseguem Scrooge, a cada ano, é como se uma nova lição me fosse apresentada e nova chama para buscar sempre a positividade frente a vida me fosse restaurada. Ah, quão poderosa é a literatura! No espírito natalino como deve ser. Meu segundo Charles Dickens foi Oliver Twist e mais uma vez a escrita do inglês foi capaz de impor a mim uma nova luz de compaixão com o pequeno Oliver e até mesmo com o velho Faigan… embora suspeite que este segundo tenha marcado-me mais pela atuação de Ben Kingsley na adaptação para o cinema de 2005 – excelente, aliás.

Finalmente, chegamos a David Copperfield. Comecei a lê-lo pelo leitor digital, mas logo tive que correr para adquirir o físico; o quão óbvio se tornou para mim que ele acabaria se transformando num eterno favorito. É estarrecedor! Sabe, em pleno 2017, tantas denúncias relacionadas a violência contra mulher sendo feitas – com razão! -, eu não estou no meu melhor momento com o sexo oposto… mesmo os escritores. Charles Dickens não foge muito do protocolo. Não obstante seu trabalho de reintegração social para mulheres maltratadas em diferentes posições, ao qual o livro faz referência em uma nota, suas relações pessoais demonstram que ninguém está a salvo de um pouco de corrupção. Porém, quem irá dizer que mesmo um paradoxo moral não pode deter vasto conhecimento de sua língua a ponto de criar uma narrativa poética, mas leve e consistente?

É o que temos em David Copperfield. Livro extenso, mas longe de ser uma leitura cansativa. Dickens nos envolve com seu vasto conhecimento da época, seu humor por vezes direto, por vezes negro e uma gama de personagens incalculável, cada um inesquecível a sua maneira. A calma com a qual ele desenvolve a trama, e cuidado aqui, pois detalhes são importantes neste romance; o menor acontecimento aqui terá um resultado lá e a trama se amarra e se fecha maravilhosamente. Ele nos faz ansiar pelos novos capítulos; tecendo comentários obscuros sobre o futuro desta ou outra pessoa, forçando-nos a ler mais e mais depressa para que descubramos de uma vez: O QUE ACONTECEU?! Tive essa sensação durante 90% da leitura e foi gratificante!

A construção de imagens meticulosamente trabalhada e reutilizada como forma de criar referência entre um personagem e outro (como a mãe de David e duas personagens femininas, Dora e Agnes, em diferentes momentos e ângulos) é feita de maneira tão embelezada, também tão sutil, que nos pegamos refletindo pela psicologia em torno da obra. Toda a concepção da falsa humildade presente na figura do grotesco – grotesco MESMO – Uriah Heep… um dos vilões mais simples em questão de aparência e atuação, mas tão vil na sua influência sobre aqueles ao seu redor. É possível que existam Uriah’s nesse mundo e nós nem estejamos nos livrando deles como deveriam ser livrados. E brilhante como, David o conhece quando é um menino e apesar de já perceber tratar-se de uma pessoa não confiável, a criança ainda não apreende em totalidade a maldade do outro; mas Dickens já constrói na cabeça de David a imagem de que Uriah, apertar a mão dele, assemelha-se a viscosidade de um peixe!

O capítulo referenciado por Tolstoy, A tempestade, ao qual ele se refere como aquele que deveria inspirar toda gente que já pensou em ser escritor e com razão, é onde se reúne a maior gama de poética em um só tempo de Charles. Uma tempestade assola o porto da cidade onde encontra-se nosso herói e é estupendo como toda a violência da água, a finalização – o que acontece ao fim dela, não darei spoilers – parece refletir a própria tormenta pela qual passaram alguns personagens presentes ali; tormenta que culmina no acontecimento ao fim do capítulo… toda a trajetória destes personagens, palmas ao senhor Dickens por dar merecido início meio e fim aos coadjuvantes, é recheada de altos e baixos tão sinceros… Não existe um universo paralelo ou mágico, é apenas Londres, Plymouth, Dover, entre outras regiões da Inglaterra; mesmo assim é a epopeia de um eterno herói.

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Ao contrário de Oliver Twist, não encontrei uma adaptação que me satisfizesse completamente sobre a vida de David Copperfield, pois a maioria parece focar num único arco, abandonando os tantos criados por Dickens e, sim, tempo de filme é diferente do tempo de um livro; porém, digamos que o arco do senhor e da senhora Strong me foi tão caro quanto o do próprio senhor Micawber e um está sempre presente, dada a sua importância, quanto o outro é negligenciado por parecer ser apenas um fim às conclusões que o senhor Copperfield deveria abstrair em tempo. Destaque, contudo, à minissérie de 1999 com Daniel Radcliffe e Maggie Smith no elenco. De novo Dame Maggie interpreta uma mulher sensacional e minha personagem favorita da obra Betsy Trootwood! Eu mesma a escalei quando comecei a leitura e disse: maggie seria perfeita para este papel e VEJAM SÓ! Me senti muito casting director.

Ela poderia ser apenas um ícone do que para a época seria uma mulher à frente de seu tempo, uma feminista – com suas opiniões fortes e demasiado pessoais… mas então Dickens trabalha toda sua vulnerabilidade assim como sua força e a tornam não um ícone, mas singelamente humana. Mais feminista ainda.

Meu conselho: desfrutem de David Copperfield. É um livro dotado de todo poético encanto, da infância até a maturidade do homem.

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