Thoughts on Books

“O Eterno Marido”

Aspas.

Por que aspas?

Em uma batalha épica a ser duelada entre os dois donos da Rússia, aka Dostoiévski e Tolstoy – posso estar exagerando por seguir a linha cult e prestar atenção apenas aos dois? Posso. Leave me alone in my pseudo intelectual castle – o primeiro é o eterno vencedor só com dois segundos no ringue. A principal diferença entre eles, a meu ver, e que torna as literaturas de cada um tão “deles”, é a forma como Leon tece uma narrativa por vezes poética, mas que não deixa de ser prosa story telling na sua maneira mais pura; enquanto Fiódor vai colocando pequenas pitadas de sua filosofia pessoal dentro de cada história, criando metáforas geniais e um estilo de contar estórias tão Dostoiévski. Posso estar enormemente equivocada, mas é como eu me sinto. Com Leon eu me perco em sua narrativa e vejo-o manipular seu jogo com maestria. Com Fiódor, ao mesmo tempo em que me deixo levar por seus personagens, tenho aulas muito obscuras sobre o espírito humano.

Crime e Castigo é o meu favorito para sempre e sempre. Irmãos Karamazov foi uma benção. Dois livros grandiosos em apologias e número de páginas; de repente num dia, como quem não quer nada, deparei-me com essa pequena novela de 173 páginas e estarreci-me com a capacidade sintética, mas longe de empobrecer seu trabalho, de Dostoiévski. Concomitante com A Morte de Ivan Ilitch de Tolstoy, igualmente menor aos outros dois com os quais tive contato, Anna Karenina e Guerra e Paz; sim, mérito aos dois por serem capazes de criar tramas e personagens envolventes em suas dores num espaço de tempo tão aparentemente limitado. Contudo, foco em O Eterno Marido. Por que as aspas?

Alexei Ivanonitch Veltchaninov – tente dizer isso cinco vezes rápido – é um homem intragável, como somente os homens de nosso autor sabem ser – encontre um carinha legal na literatura dele além do melhor amigo do Raskolnikov de Crime e Castigo, Razumíkhin  e falhe miseravelmente. Deparamo-nos com este sujeito em dia qualquer em sua vida, caminhando pelas ruas da que parece ser São Petersburgo (parece ser porque eu não entendo o que acontece com as traduções do russo que cortam os nomes das cidades com …, tenha santa paciência!) e então retorna para seu apartamento. Lá dentro ele ouve um som muito vivo para estar somente em sua cabeça – como os sonhos loucos dos quais se queixou há mais cedo – e ao abrir a porta, averiguando tratar-se de um estranho que se aproxima, dá de cara com ninguém mais ninguém menos do que o marido de sua ex amante. Usando crepe preto no seu chapéu.

O crepe é sinal de que Pavel Pavlovitch Troussotzky – tente dizer cinco vezes rápido – está de luto e justamente pela esposa – Natália Vassilievna – com quem Veltchaninov manteve affair por um ano. Nosso protagonista afirma tê-la amado loucamente, proposto um esquema para que ambos fugissem juntos e dentre esse relato, nos dará a percepção do caráter da falecida, bem como do viúvo; o que nos leva ao “eterno marido”.

É uma dessas mulheres que nasceram para ser infiéis ao marido… dessas que não caem, antes do casamento. É lei de seu temperamento que isso aconteça depois. O marido é o primeiro amante; mas só depois do casamento; nunca antes. Mulher alguma se casa mais habilmente, mais facilmente do que essas. E o marido sempre é o responsável pelo primeiro amante. E tudo acontece com absoluta sinceridade; elas se julgam sempre no seu direito e, bem entendido, perfeitamente inocentes.

Veltchaninov convencera-se de que esse tipo de mulher existe realmente; mas estava igualmente certo da existência de um tipo de marido correspondente às mulheres desse gênero – marido cuja única razão de ser é conformar-se com esse tipo de mulher. A seu ver, o caráter essencial desse gênero de homem se resume em ser o “eterno marido”, isto é, em não ser na vida senão unicamente marido.

Sendo assim, o eterno marido é aquele que é corno e sabe que assim é; porém, por uma questão de costume ou/e autopreservação, nada faz. Ele vive a sociedade da maneira ilusória como ela se coloca para ele. Assim, Veltchaninov nos conta que ao terminar seu romance com Natália, esta chegou a lhe dizer que estava grávida, porém logo afastou a ideia como reles suspeita. Pavel, por sua vez, descobre-se, está em seu quarto de hotel com uma menina. Lisa. Apresenta-a como “nossa filha”, tanto por ter acreditado que ela era, de fato, dele quando nasceu, quanto por, à morte da esposa – ao descobrir os adultérios – suspeitar que fosse de Veltchaninov. Este, não tem dúvidas. Olha para Lisa, faz as contas da data de seu nascimento e escolhe saber que está diante de sua filha.

É dolorosa de se assistir, a relação entre Pavel e Lisa. Como disse, ele acreditava que ela fosse sua e mimou-a gravemente, sendo ele o favorito da menina. Descoberta a traição de Natália, o viúvo passa a beber enormemente e, por consequência, desconta suas frustrações na criança. Isso enfurece Alexei Veltchaninov que se coloca na proteção de Lisa, obrigando Pavel a deixá-la com ele, para que a entregue aos cuidados de uma família de amigos seus que saberão cuidar melhor dela. Os sentimentos da criança, de oito, nove anos, são os de alguém vivendo um relacionamento abusivo. Ela sabe que o pai lhe faz mal; mas ao mesmo tempo clama para que a veja, para que não a deixe, para que volte; ela se prende à imagem de outrora, quando se davam bem e não entende o que fez para perder o amor de Pavel, sempre pedindo desculpas. Não direi, por fim, qual o destino da criança…

A natureza de Alexei muda grandiosamente com a descoberta da menina e ele mesmo o sabe, torna-se, indiscutivelmente, mais afável. Isso, contudo, não afasta o centro do livro. A eterna tortura psicológica entre um e outro pela transgressão passada. Destaque para o trecho no qual há certo entendimento – não direi as circunstâncias – e eles reconhecem as virtudes que dividem, para cinco minutinhos depois um atacar o outro – quem atacou quem? – e a consciência da incapacidade para a superação de tal rusga acaba por separá-los definitivamente.

E o livro se fecha num ciclo bastante negro em seu humor.

Embora a obra seja pequena, inegável o brilhantismo de Dostoiévski ao desenvolvê-la em toda a sua profundidade psicológica. Foi uma leitura fluida e divertida por me apresentar mais uma vez a mente deste senhor.

xoxo

 

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