A vida de um Gênio

Olá, meus queridos.

Não sei quantos de vocês ainda estão passeando por aqui, mas em todo caso é sempre um prazer conseguir me sentar para falar com os velhos amigos e os recém-chegados. Já faz algum tempo desde minha última passeada por este blog… havia me esquecido da sensação maravilhosa, devido à trabalhos de faculdade e também projetos pessoais – leia-se fanfics – Logo, em breve censura a mim mesma: eu deveria ter escrito mais por aqui durante as minhas férias, mas estive escrevendo em outras plataformas. Contudo, durante estas ditas férias, tive a oportunidade de encontrar alguns refúgios extremamente prazerosos. Sobre um deles eu preciso falar desesperadamente. A Série da National Geographic intitulada Genius.

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Confissão… não sou uma seguidora assídua da programação do dito canal, embora reconheça seu valor intelectual. No entanto, quando foi anunciada uma série a respeito da vida de Albert Einstein e quem interpretaria o sênior cientista, foi obrigatório para mim acompanhar; sem arrependimentos. Baseada no livro Einstein: His Life and Universe (Eistein: Sua vida e Universo – tradução pessoal direta) de Walter Isaacson, esta minissérie acompanha os anos primordiais da vida de Albert, seu desprendimento de sua família, abandono da cidadania alemã e ingresso na Universidade de Zurique, sendo seu sonho tornar-se um físico renomado pela população acadêmica de seu tempo, até sua experiência enquanto cidadão da Alemanha Nazista, bem como todo o trâmite da desenvoltura de sua famosa Teoria da Relatividade. Este é o nosso personagem. Este é o nosso espaço…

Deveriam existir milhares de formas as quais os roteiristas poderiam seguir a fim de nos contar esta história; fazer dela apenas mais um daqueles documentários do History Channel a respeito de Henrique VIII. No entanto, pelo contrário, a produção nos entrega um verdadeiro drama e uma perspectiva mais humana, deveras mais aprofundada, acerca de um homem há muito resumido por uma fórmula que aprendemos no Ensino Médio – sem querer generalizar, claro, pois assim como eu possuo biografias de Georgiana Cavendish em casa, outras pessoas poderiam já estar cientes dos vários detalhes apresentados ao público por esta série. Não foi o meu caso. Tudo foi novo para mim… eu nem sabia que Einstein fora casado duas vezes ou sobre sua amizade com o responsável pela criação da bomba de hidrogênio. A experiência foi de aprendizado, de apresentação e análise, regida pela trilha sonora fenomenal de Hans Zimmer – você convida o pai da música cinematográfica, desde Morricone, pode esperar um sucesso!

A história se divide em dois momentos, como dito: a juventude e “final years” do senhor Einstein *leia-se eu imitando o sotaque do elenco* e entre dois atores que o interpretam.  Johnny Flynn é o responsável por nos apresentar todo o “perrengue” pelo qual nosso protagonista passa em seus primeira anos para conquistar a credibilidade que almeja e o já veterano – MUSO – Geoffrey Rush fecha o ciclo de sua vida com um homem consolidado. É brilhante! Após assistir à série, me imergi num mundo de pesquisas sobre a produção, assistindo várias entrevistas com os atores e o que descobri acerca do trabalho destes dois estourou meu cérebro em mini partículas de admiração. Ao conseguirem seus papéis, um longo histórico de conversas pelo skype se iniciou a fim de que ambos criassem um único ser. Notadamente, imagino que seja de praxe em Hollywood que as versões jovens e velhas interajam, troquem ideias acerca de suas inflexões para o personagem, contudo, aqui chegou a um nível tão minucioso que até gestinho de mão idêntico teve! A forma de mexer os lábios para falar, o arquear de sobrancelhas frente a uma angústia… e o departamento de maquiagem de EXTREMO parabéns por deixá-los tão críveis como extensões de anos um do outro.

Mestres. Absolutos mestres, o que me deixa profundamente chateada ao ver que apenas Geoffrey recebeu a indicação ao Emmy – JÁ GANHOU! A jogada do roteiro em não iniciar a série diretamente na juventude de Albert, mas nos fornecendo um norte do homem que ele havia se tornado em seus anos mais maduros através da atuação majestosa de um veterano, já conhecido e deveras enaltecido, o senhor Rush, deixanos investidos na história e em seguida passa sua a tocha para o senhor Flynn, quem até então eu não conhecia, mas que a segura com firmeza e igual maestria ao assumir a responsabilidade de nos elucidar porque devemos continuar acompanhando a narrativa. Toda a responsabilidade de nos manter presos à história e simpatizarmos com Albert, e o odiarmos ao mesmo tempo, é de Flynn, assim que Rush cumpre seu papel inicial de “vender a ideia”. Ele em sua sala de aula, carismático, apaixonado pela ideia do tempo, da massa e do espaço, tornando-os materiais a quem antes não conseguia visualizar a física como algo tão palpável.

Aliás, os monólogos de estudo são tão maravilhosamente poéticos… por que meus professores de física não me ensinaram assim? Eu fiquei desejosa de estudar mais depois de assistir. O amor de Einstein por sua “arte”, sua viva curiosidade e ânsia em desvendar tudo aquilo o que o cerca, unindo a fantasia da criança e a possibilidade acadêmica de um adulto, é – de várias formas – a forma com a qual se redimi com os fãs, frente aos erros absurdamente “WOW, MIGO, ESTÁ FAZENDO ISSO MESMO?” Impossível odiá-lo completamente perante toda essa devoção, bem como o irresistível charme dos dois atores ao lhe dar vida. Um trabalho bem feito destes, claro, não poderia levar o crédito único de dois homens – NÃO NESTE BLOG! NÃO DURANTE O MEU HORÁRIO DE SERVIÇO! – e, claro, apesar do sexo masculino dominar – até mesmo pela época na qual estamos na série – e cada um destes atores merecer todo o aplauso – não existem papéis pequenos – vamos dar crédito a elas. Them. Afinal, eu não sabia que Albert foi casado duas vezes… muito menos conhecia a pessoa INCRÍVEL que com certeza foi Mileva Maric. 

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Mileva Maric. Melhor do que todos nós.

Samantha Colley você também foi esnobada pelo Emmy, mas saiba… você a rainha desta série. Não obstante pequenos detalhes que foram mais dramatizados na série, Mileva foi peça chave para que eu me apaixonasse. Cocha, mais inteligente do que todos nós, tão real em retratar o que uma garota – a única aluna de sua sala de aula – enfrentaria em ambiente acadêmico tão hostil, a dona do arco do meu episódio favorito – o segundo, infelizmente eles não foram titulados. Certamente, Albert se encanta por ela desde o primeiro encontro, apaixonado por sua mente brilhante, admite duas vezes que ela é e foi o amor de sua vida, mas é através dela que entendemos o quão desumano o cientista poderia ser. “Como um homem tão brilhante sobre o universo pode ser tão obtuso quando se trata dos seres humanos?” Esta fala é usada no primeiro episódio pela secretária e amante de Einstein quando ele lhe propõe que vá morar com ele e Elsa, sua esposa à época. Todavia, é muito gritante no relacionamento dele com Mileva, o quão doloroso foi assistir a corrosão deste.

 Sem divagações, em meio a todo o amor que não duvidamos que eles sentiam um pelo outro, até que o ressentimento o substituiu, também ficou bastante clara a natureza egoística de Albert; escancarada por um paralelo elegantemente traçado pelos roteiristas, ao incorporarem na história um parênteses com a história de Marie Curie e seu esposo Pierre. Incapaz de se consolidar como o físico que ansiara ser, quando Mileva fica grávida e sua maior preocupação torna-se achar uma maneira de prover para sua família, ambos têm a ideia de colocar as explanações fervilhadas da mente de Albert em artigos para as revistas científicas. Mileva fornecendo-lhe inspiração e transcrevendo-os. Até o derradeiro artigo que embasou a teoria da relatividade e ganhou atenção geral da união de cientistas de Zurique; neste caso, Albert também contara com a ajuda de um de seus melhores amigos da faculdade Michele Besso e concedeu a ele crédito na publicação, esquecendo-se completamente da influência decisiva de Mileva. Em contrapartida, no início do episódio, temos Pierre Curie incisivo ao afirmar que não aceitaria o nobel se sua esposa também não o recebesse com ele.

Embora os fatos digam que Mileva abandonou suas aspirações enquanto matemática e física por conta própria ao engravidar pela primeira vez, a resignação silenciosamente forçada apresentada na série oferece um conflito muito mais instigante, de fato. No meu dito episódio favorito, a senhorita Maric exclama: “How could you be so careless with my heart?” Como pôde ser tão descuidado com o meu coração, em tradução pura, continuando em um discurso cortante sobre o quão mais ela precisaria se esforçar para ser levada a sério. E esta conversa se repercute pelo resto do casamento deles, tão clara. O amor de Einstein por seus filhos é certo, bem como a distância que mantém da primeira esposa após o divórcio, tanto fruto da dor que causaram um ao outro quanto de sua certeza de que uma relação civilizada não fosse render em nada, mostra-se exacerbada na veemência com a qual a repele – por crimes tão menores…

Seu verdadeiro amor, embora ele possa discordar, sempre foi a física, o que dificultou para que eu pudesse sentir qualquer empatia por seu segundo casamento. Mas gostei de Elsa, interpretada pela veterana Emily Watson com quem Rush já foi casado nas telas duas vezes antes, e que em entrevistas admitiu que a segunda esposa do senhor Einstein – sua prima – servia-lhe como alicerce àquilo para que deixara de lhe preocupar quando se tornou uma “celebridade”. Elsa entendia dos arranjos sociais, de agendas e do espaço que ele precisava para ser o gênio admirado por todos, e talvez por isso tenha sofrido um choque menor do que o de Mileva, inclusive dando abertura para seus casos extraconjugais, desde que ele nunca – após uma primeira vez – se esquecesse de que o primeiro lugar era dela; uma cena totalmente roubada das mãos de Rush por Watson, sempre sutil mas forte em suas atuações.

Respeitando a época de seus acontecimentos, com um roteiro sustentado por um grupo capaz e carismático de atores, Genius oferece um estudo brilhante e cheio de nuances acerca de uma das maiores mentes de nosso século; e eu espero que a próxima temporada, aparentemente a tratar do senhor Pablo Picasso, contenha estes mesmos elementos instigantes e que elevam a nossa curiosidade, e olhares para dentro de uma história.

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After all this time we could have been friends?

Eu me lembro da primeira vez que assisti a um filme em preto e branco. Shall we dance; Fred e Ginger. Lembro-me também da primeira vez que tive certeza de que me apaixonara por filmes em preto e branco. Sunset Boulevard. Por fim, lembro-me de quando disse em voz alta que “aquele” filme era o meu favorito. All About Eve. No Brasil traduzido como A Malvada. O filme no qual, de acordo com críticos, fãs, amigos, Bette Davis interpretou ela mesma. Isto porque o papel de Margo Chaning deveria ter sido interpretado por Claudette Colbert, mas que por um ferimento nas costas, não conseguiria dar início às filmagens; logo, chamaram Davis e o roteirista reescreveu a protagonista para que se adequasse ao perfil da atriz. Certamente facilitou os comentários de que Channing fosse seu alter-ego. Certamente também tal interpretação tornou-se a minha opinião sobre Bette Davis, quem era… e eu a idolatrei.

Ao contrário de Audrey Hepburn e Marilyn Monroe, a quem conheci devido a seus rostos estampados em merchandises variados e busquei conhecer mais devido a, envergonho-me dizer, a primeira por sua fama no filme bonequinha de luxo, a segunda por sua história trágica, bem, ao contrários destas, Davis foi a primeira atriz da era de ouro de Hollywood a quem verdadeiramente admirei pura e simplesmente por seu talento. Seus olhos, sua voz, seus gestos, nada em seu trabalho parecia forçado ou inorgânico, mas cheio de paixão e verdade. Ouvi de alguém ou li em algum lugar certa vez que um dia ela fora mocinha e que, com a idade, apenas interpretara megeras; visto que na juventude diziam que possuía pouca beleza, mas encanto suficiente nos olhos. O frescor por fim se esvaiu e o encanto nos olhos convertera-se em outra coisa… algo que ainda não consigo identificar como nada mais do que: “she knew best”, ela sabia melhor.

Com que então vi o anúncio de que Ryan Murphy, famoso por seus grandes sucessos na FOX, estaria produzindo uma série a respeito de duas lendas. Entre elas, a minha Bette. E que seria interpretada por uma das minhas atrizes favoritas desta nossa era: Susan Sarandon. Vi-me completamente vendida. Todavia, se por um lado estivesse preparada para o que esperar ou ao menos consciente do que desejava ver, de outro, encontrava-me completamente cega. FEUD trouxe-me várias reflexões, interpretações maravilhosas, críticas ácidas e nem um pouco implícitas, mas também trouxe-me Joan Crawford… ou a versão da Jessica Lange de Lucille LeSueur. Tola eu. Poser admiradora da era dourada. Como atreve-se a não conhecer o trabalho da eterna Mildred Pierce. Bem, em justa medida, tampouco conhecia a fundo o trabalho de Jessica Lange. Sabia de seu enorme sucesso, porém, não identificava o motivo de “tamanho auê”. Obrigada FEUD.

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A série começa com a cerimônia do Globo de Ouro de 1959. O destaque já em Jessica Lange ao desdenhar a vitória de Marilyn Monroe por Some Like it Hot, momento que a esta altura considero irônico ao comparar partes de seus passados. Norma Jean Mortenson criara Marilyn Monroe a fim de sobreviver na indústria. Lucille LeSueur criara Joan Crawford com o mesmo fim. De fato, em entrevista, Lange afirma que um dos maiores desafios e atrativos do trabalho foi interpretar não Crawford, mas Lucille. Sua verdadeira persona. Caminho que considero mais do que acertado e que conferiu toda a profundidade da personagem, bem como embasou uma possível superação de todo preconceito que um fã desavisado poderia carregar consigo graças à Mommie Dearest – livro escrito pela filha primogênita de Crawford, Cristina, relatando todos os abusos que sofrera na infância pelos métodos educacionais de sua mãe. Na época, uma obra que notadamente teria influenciado na desconstrução de um ícone…

Em verdade, FEUD por si só é uma desconstrução e reconstrução de ícones, até mesmo construção, no caso de Crawford. É sempre maravilhoso analisar um trabalho que se permite explorar os bastidores. Os acontecimentos orquestrados por roteiristas nunca deixam de ser prazerosos, este também não deixa de conter esse elemento, mas por se tratar de personas que de tão lendárias tornaram a si mesmas personagens, enseja algo a mais. O tom que Ryan Murphy dispõe a série torna crível que estes acontecimentos, na ordem e na maneira que ocorreram, apesar de serem fruto do trabalho de pessoas que não viveram aquele momento e que produziram um roteiro para tais, de fato, ocorreram em verossimilhança com o mostrado na tela. Destaque para o episódio do Oscar de 1963. A recriação de penteados, figurinos, olhares… quem há de me dizer que naqueles segundos o coração de Bette, ansiando uma última prova, uma chance de provar a todos os figurões de que independentemente da sua idade, ainda era dona de todo o talento, não parou? Que o veneno no sorriso e olhos de Joan não foi de tal magnitude, quiçá maior?

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E aliás, Hollywood deveria ser forçada a ver o que fizeram com ela

Quando eu era criança, havia uma animação da Warner Brothers chamada: Gatos não sabem dançar. Essa animação me trouxe a verdade que FEUD veio reafirmar. Hollywood como é: os grandes estúdios, os grandes homens com seus ternos risca de giz bebendo scotch enquanto apunhalam uns aos outros e criam um ambiente altamente competitivo, não é um lugar onde sonhos se realizam… mesmo para aqueles que detém verdadeiro talento e pura devoção à arte. “É isso o que essa cidade faz com você, rapaz… acaba com a gente…” Ela lhe oferece uma segurança passageira. Ao se esvair, deixa um vazio preenchido por autopiedade, culpa e muitas doses de martíni. Sem falar na sensação de que, apesar do quanto somente aqueles que passaram pelo mesmo que você, às vezes, junto a você, são os únicos que compreendem esse vazio no final da estrada, ainda prevalece a competição antiga.

Seja pelo fato de que Warner e Aldrich, o diretor, resolveram que seria melhor para a produção do filme Whatever Happened to Baby Jane alimentar a rixa entre Bette e Joan a fim de que o ódio fosse real e não coreografado, seja na falta de apoio presente entre duas mulheres talentosas, no caso Joan e Pauline, quando uma busca apoio no talento da outra para alcançar seu próprio sonho de dirigir, mas é superada pelo conformismo de uma porque “as coisas são do jeito que são” e te ajudar a mudá-las pode custar a minha própria carreira. A própria relação de Warner com Robert Aldrich, este sedento por estabilizar seu nome, segurá-lo para as próximas gerações, mas limitado pela visão do dono do estúdio, preso àquilo que vende. Como a ânsia por amor – o clamor dos fãs -, por fazer aquilo que te faz ser quem é, viver o sonho, custa caro demais… custa o amor de seus filhos, seu casamento, sua saúde, por vezes os próprios princípios… por uma indicação. Por um tapinha nas costas da academia.

O Glamour de uma época em que os resultados da bilheteria de uma produção eram anunciados como o placar de um grande jogo de futebol, na qual inventou-se o conceito de uma estrela, de uma femme-fatale, de nomes que alimentavam-se ao conseguir destruir reputações… Hedda Hopper… arrasados em oito episódios que dilaceram e expõe as entranhas da era de ouro, revelando-a como o ouro dos trouxas que é. Uma vida inteira… uma carreira de mais de vinte anos… por cinco segundos de homenagem no memorial…

E nunca foi o bastante.

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xoxo

Até logo, Baker Street.

Este não vai ser um post curto e muito menos direto. Embora eu tenha esperado vários dias após o ocorrido que me trás a ele para compô-lo, ainda não acredito que meu raciocínio esteja totalmente descontaminado da forte emoção, ou seja, muito provavelmente eu não consiga ser imparcial e acabe dando um tiro no meu pé. Contudo, este é um texto – textão – que por diversos motivos precisa ser escrito. Ficar protelando não irá clarear minha mente e trazer o esclarecimento de que tanto preciso, me conheço muito bem para saber. Sendo assim, vamos, ao som de Postmodernjukebox, falar sobre a quarta temporada de Sherlock. Mais especificamente, o seu season finale.

Até o momento, já existem várias críticas, comentários de fãs, muito mais versados nas artes do que eu e muito mais capazes de clareza. Vamos tentar entender isso aqui como um desabafo que, quem sabe, eu também consiga passar alguma coisa, qualquer coisa a vocês que leem este blog. Gostaria de começar dizendo: Sherlock Holmes significa o mundo para mim. Foi a razão primordial para que um dia eu desejasse conhecer Londres, é o meu grande amor no mundo da literatura – mesmo com toda a polêmica circundando sua sexualidade – o propulsor da minha “carreira” como escritora amadora/autora de fanfics. O carro chefe na minha estante de romances policiais, um dos personagens mais interessantes já escritos, enfim, William Sherlock Scott Holmes penetrou tanto a minha existência que agora é parte da minha alma. E, citando Emily Brontë em O Morro dos Ventos Uivantes: “Não posso viver sem a minha vida, não posso viver sem a minha alma!”

Não há quaisquer dúvidas de que esta tenha sido a última temporada e que foi a última vez que assistimos à novas nuances na atuação de Bennedict Cumberbatch, à novas tramas na vida de Holmes e Watson. Logo, a primeira dor que tive que enfrentar e ainda estou tentando superar, enquanto a trilha sonora crescia e os créditos subiam, foi o fato de que estava dizendo “adeus” para uma das melhores adaptações feitas acerca destes personagens seculares. Não a minha favorita, mérito este que sempre pertencerá a série da rede Granada de televisão de 1984, com Jeremy Brett no papel principal. As tantas adaptações existentes, assisti-as todas e a recente feita pela BBC, finalizada agora, realmente ousou em muitos aspectos, pecou em outros e trouxe várias referências que a tornaram uma das melhores séries da era. Abençoado seja Bennedict que homenageou em vários momentos o finado senhor Brett durante sua performance e ganhou seu lugar nos corações dos amantes do cânone, trazendo mais novos sherlockians para Baker Street.

Os casos sempre foram muito bem adaptados para o nosso presente a fim de criar-se algo inédito. A trilha sonora… a música de um filme, uma série, minissérie, é aquilo que irá ajudar a criar o tom do que estamos vendo; se existe algo sem o qual um ser humano como eu não consegue viver é a música, portanto, a meu ver, trata-se da primeira coisa a ser pensada a fim de enlaçar o imaginário e a empatia do telespectador. Não houve pecado nisso em Sherlock. Foi brando quando precisou ser, intenso e grandioso da mesma forma. O elenco escolhido a dedo também nunca decepcionou. O fato de que alguns fãs questionarem a “existência” desse ou daquele personagem não diminui o empenho que foi colocado em cada fala, em cada cena do seriado. Na verdade, me deixa imensamente abismada como o ódio ou o descaso que alguns fãs possuem sobre este ou outro membro do universo sherlockiano, muitas vezes os fazem rechaçar aqueles que deram vida a eles e que simplesmente seguiam um roteiro. Cada mínimo detalhe premeditado, uma equipe de produção ferrenha, paletas de cores que se alternavam a cada temporada… e, se vocês notaram, esta última foi extremamente corroída, o que ajudou a dar o tom de que tudo estava se fechando sobre nossos garotos e garotas, sim garotas… a senhora Hudson é a rainha dessa série, ai de quem falar o contrário!

Antes de passar para o próximo passo, só gostaria de dizer: BENNEDICT SEU ATORZÃO DA PORRA! Acho que isso resume muito do que poderia ser falado a respeito de sua atuação, mas, vamos tentar aqui… Jeremy Brett. O ator que todos os amantes de Sherlock Holmes afirmam: foi Sherlock Holmes. Não um performista. Não um ator. Ele era o Sherlock Holmes. E, tal qual Benne, nos trouxe várias faces da personalidade do detetive na era vitoriana; o que já demonstra grande marco, visto o que se poderia esperar de alguém interpretando a própria definição de gentleman para a Inglaterra Vitoriana. Contudo, Brett nos ofereceu um Holmes imponente, mas ao mesmo tempo brincalhão, elétrico e taciturno, frio e caloroso. Humano. Uma montanha russa. Do começo até o mais próximo do fim que conseguiu… para aqueles que não sabem, Jeremy sofria de distúrbio bipolar e, após a morte de sua esposa, seu quadro piorou muito… os últimos episódios da série são dolorosos de se assistir a qualquer um… a tradução mais dura possível de O show deve continuar. Acabou falecendo de uma falha no coração antes de concluir a gravação de todo o cânone, como esperava fazer a TV Granada. Bem, toda essa montanha russa que Brett nos ilustrou, como disse, Benne trouxe de volta e eu imagino como uma homenagem. Ao mesmo tempo, criou seu próprio estilo… os sorrisos, os pulinhos de excitação, o sarcasmo mais negro, ir só de lençol para o palácio de Buckingham…

E aqui passamos para o próximo passo. Antes de mais nada: eu sou uma pessoa que shippa. Eu shippei dentro do universo de Sherlock. Eu shippo dentro do próprio cânone. Eu criei uma personagem original para este mesmo fim, como demonstrado em outro post neste blog. Todavia, mesmo eu uma pessoa que shippa reconhece que: o que pode ou não ter tornado essa temporada ruim – não acho que foi, mas, para aqueles que acham isso, seu argumento não deve ser – não é o fato de que Sherlock e John não ficaram juntos VISIVELMENTE ou CANONICAMENTE. Houve queerbaiting? Houve. Mesmo eu que nunca shippei Johnlock – e não venha me chamar de homofóbica por isso – posso ver que sim, houve. Porém, isso diz mais sobre o “caráter” dos nossos autores do que sobre qualidade ou não de uma série. Minha opinião. O fato de que Moffat brincou com as nossas emoções durante todos esses anos não é motivo para tamanho ódio contra essa temporada que fecha um ciclo daquilo que sempre foi o ponto chave: Sherlock Holmes deixando de ser uma máquina (“sou um cérebro, Watson, o resto é mero apêndice”) para se tornar um ser humano, a GOOD ONE.

É sobre o crescimento de Sherlock que estávamos falando e isso não deixou a desejar em nenhum segundo! Meu Deus, você imaginaria a epítome do cavalheiro vitoriano sentado na cadeira de uma terapeuta?! A máquina pensante e fria abrindo seus horizontes e desenvolvendo laços inquebráveis com outros seres humanos? Sherlock finalmente chamando Lestrade de Greg?? Quebrando caixões porque magoou alguém? Não! Você não imaginaria! Mas foi isso que ganhamos e foi BONITO/MARAVILHOSO DEMAIS!! Porque, na minha opinião, como disse certa vez na minha ode à Downton Abbey, nada é mais gratificante do que assistir ao crescimento de uma pessoa. Na literatura é o que faz a história ganhar significado e os personagens adquirirem a empatia do público. Foi porque Sherlock Holmes não era o mesmo homem do Um Estudo em Vermelho quando caiu das cataratas no Problema Final que os fãs imploraram para que retornasse. E foi o desenvolvimento psicológico que Doyle deu a ele nos contos posteriores que o fez consagrado por muitos. Não foi um romance com John Watson, com Irene Adler, com Violet Hunter. Não. Foi o crescimento e amizade de dois homens… e aliás…

Sabe por que eu nunca consegui shippar Watson e Holmes? Entendam-me: você que acredita que eles tinham um envolvimento amoroso do tipo Erus, eu entendo o seu motivo. Eu respeito o seu ship. A sua opinião. Mas, eu, Ana Carolina nunca vou shippar porque: seria a mesma coisa que shippar Harry e Hermione, sabe por quê? Porque, aparentemente, duas pessoas não podem mais ter um laço profundo, uma cumplicidade majestosa e serem os melhores parceiros um do outro, a não ser que eles incontestavelmente, invariavelmente, sejam o interesse amoroso um do outro. A velha história do: não existe amizade entre homem e mulher. Entendem? John e Sherlock são o maior exemplo do universo de irmandade, de amizade sincera, de que “escolhemos uma família”. Claro, é muito bom pensar que a pessoa com quem vamos passar o resto da vida seja o nosso melhor amigo, mas, muitas vezes, não é assim! Então, podemos ter os Harrys e as Hermiones; as Marys e os Toms, os Victors e as Emilys, os Johns e os Sherlocks! Eu nem quero imaginar o que teria acontecido se o Percy e a Annabeth não tivessem ficado juntos no final… Está faltando mais BROTPS e menos OTPS. Nesse quesito, a série foi muito ampla e nos deu a chance de acharmos o que quiséssemos, porque foi justamente o que o Doyle fez… nada nunca foi claro. Apenas teorizadores recentes levantaram as primeiras hipóteses e, quotando a mim mesma de outro texto: “Não por preconceito, creio eu, mas porque, nesse caso, “não saber” é o que torna Sherlock Holmes, Sherlock Holmes.”

No mesmo texto em que digitei essas palavras acima, disse que houve, certa vez, tentativa de fazer algo com Sherlock e John como casal e os donos dos direitos do cânone vetaram porque isso nunca foi especificado pelo Arthur Conan Doyle. É preciso que se respeite a obra do autor, não é? E, na minha opinião, isso é o mínimo a ser observado, visto que não compõe algo de grande diferença para o andamento do que é mais importante. Resumindo: seu ship não ter virado canon não diminui o valor dessa série e você pode shippar quem você quiser. Apenas não deixe seu amor pelo amor de outra pessoa te cegar, coleguinha.

Enfim, passamos para o ponto que mais me atingiu nessa série… as mulheres de Moffat e como foram usadas, em relação ao canon. À exceção, talvez, da Senhora Hudson? Que no cânone era uma figura de proa e na série ganhou uma personalidade mais ativa: “I’m not your Housekeeper”, ex-esposa de um chefe de tráfico, dona de um carrão, vastas propriedades, aponta uma arma como ninguém, ouve rock pesado enquanto passa o aspirador… posso estar desejando uma série só dela? Enfim, talvez com exceção da Senhora Hudson… não podemos dizer que o senhor Moffat seja a pessoa mais… abençoada? Quando se fala em escrever personagens femininas e usá-las de forma positiva. Arthur Conan Doyle nos presenteou com vários nomes – várias Violets – no cânone e que, embora não fossem protagonistas ou recorrentes, não deixavam de ser veneradas e bem quistas ou mesmo vilãs belamente ardilosas. Isadora Klein em “The Three Gables”. Violet Hunter. Porém, vamos primeiro analisar a personagem presente na série da BBC e no cânone: Irene Adler.

Direto ao ponto. No conto “Um Escândalo na Boêmia”, Irene Adler consegue enganar Holmes completamente e este perde para ela, não sendo capaz de recuperar a foto comprometedora que tirara com o Rei. No episódio “Um Escândalo em Belgravia” Irene é utilizada para despertar discussões acerca da sexualidade de Holmes, tal qual sua irmã do cânone, mas de formas distintas, e embora seja uma personagem igualmente de personalidade forte, Moffat simplesmente não permitiu que nosso amado detetive tivesse seu momento de derrota. Houve uma derrocada, mas, para segundos seguintes fazê-lo se reerguer novamente, impiedoso, mas vitorioso. A grande aventureira e atriz Irene Adler, de memória duvidosa, mas de importância suficiente para render uma série de livros próprios para outros autores e mesmo outra trilogia recentemente resenhada por mim, perdera seu grande trunfo: Sherlock Holmes fora derrotado x vezes no cânone, uma delas, ele admite, por uma mulher. Contudo, na série da BBC, embora Holmes possa ter seus defeitos enquanto ser humano, estes não se estendem em absoluto para seu trabalho. Inconclusivo, mas nunca um perdedor. Esse pequeno ocorrido, essa vitória de Adler a tornara A Mulher, o que revela certa prepotência da parte de Holmes, pois, ela se destacaria do sexo em geral vez que fora a única capaz de derrotá-lo. Entre Pulver e Cumberbatch, no entanto, ela se destacara como A Mulher porque… por quê? A Irene de Doyle, até onde eu sei, é considerada um modelo feminista, especialmente por ter sido criada por um homem e na época na qual fora escrita, a de Moffat poderia ser chamada assim por abraçar sua sexualidade e não possuir body shame? Mas apenas isto, tendo em vista que um de seus maiores “traços de caráter” fora substituído por uma cena, admito, com excelente atuação e trilha sonora, seria suficiente para torná-la A Mulher outra vez?

 Não consigo chegar numa resposta. Adoraria saber a opinião de vocês. Seguindo temos: Molly Hooper. Sim, vou colocar o dedo na ferida. Eles mesmos fizeram isso comigo quando não fizeram um funko para ela. A senhorita Hooper que não fora escrita para ser uma personagem oficial, mas, que permaneceu devido ao brilhantismo na atuação de Louise Brealey, tornou-se um dos melhores exemplos de catarse da história. Uma personagem simples, mas complexa, humana. O oposto de Adler, a femme fatale. Amor não correspondido, mas amizade incondicional, desprendimento para tentar seguir em frente. Que, após ter ganhado certo destaque na vida de Sherlock, eu esperava que também fosse ganhar mais respeito e screen time dos roteiristas, mas, não. Sua participação nos dois primeiros episódios da série foi mínima… e quando finalmente a tivemos de volta como influência… depois de um noivado quebrado, talvez outros relacionamentos… foi para que partíssemos seu coração novamente? É claro que ela sempre amaria Sherlock, mas é doloroso ver como tiraram proveito disso para quebrá-la; foi a minha reclamação com o final da temporada: eu queria um pedido de desculpas, uma explicação, algo que justificasse a entrada dela em Baker Street com aquele sorrisão! Visivelmente, Holmes ficou aborrecido pelo que fez – quebrou um caixão e tudo o mais – mas, e Molly? Me enojou muito as palavras seguintes de Moffat para uma coletiva: “Ela provavelmente saiu para tomar um drink, transou com alguém, eu não sei. Molly estava bem”. O senhor conhece alguma coisa… qualquer coisa, sobre o coração humano?

Você que passou anos da sua vida amando uma pessoa, sendo forte o bastante para tentar seguir em frente e ainda manter um vínculo de amizade saudável com a dita pessoa, faria e fez tudo que pôde por ela… ao ser usada daquela forma – porque, afinal, Molly não sabia o que o eu te amo significava no momento – forçada a revisitar aqueles sentimentos que nada mais trouxeram do que frustração e graças àquele que, tudo bem, apesar de não corresponder aos seus sentimentos, parecia finalmente ter entendido que você é um ser humano que importa. Bem, depois dessa montanha russa, de ser quebrada novamente, depois de um péssimo dia, de enfrentar um fantasma deste tamanho… você iria sair para tomar um drink? Iria dormir com outra pessoa?? Por despeito?? What?? O senhor sequer conhece a personagem que diz ter escrito?? Dizem por aí que: Molly deveria estar morta dentro do caixão e que isso foi demais e que eles foram obrigados a reescrever… assim?? Usando-a apenas para ter seu coração partido mais uma vez? Eu não consigo colocar em palavras… me ajudem!! O que concluo apenas é que Moffat não sabe usar as mulheres que escreve ou talvez devesse ser proibido de escrevê-las.

No entanto, ainda assim, eu consegui aproveitar outras partes do que me foi oferecido… os irmãos Holmes tocando violino, se comunicando através da música porque ela possui este poder… os garotos de Baker Street, o monólogo final da Mary que, apesar da dubiedade de uma ou duas linhas, resumiu muito bem e fechou gloriosamente. Embora eu desejasse por um melhor fechamento a outros personagens, foi um final… e um final que nos permite sonhar com, sei lá, assim como Gilmore Girls, um revival algum dia… mais episódios dali alguns anos? Aventuras sempre existirão para os garotos de Baker Street e nem que seja pela minha própria pena, eu irei visitá-los… porque não posso viver sem a minha vida, não posso viver sem a minha alma…

P.S: Está claro que não consegui dizer tudo, me faltam palavras… sintam-se livres a complementar, criticar… sejam livres!

xoxo

Precisamos falar sobre 2016…

What a fucking year this was. Perdoem o meu francês. Mas sério, esse foi sem a menor dúvida o ano mais controverso, cheio de altos e baixos de toda a minha existência. Refletindo comigo mesma, eu tenho todos os motivos para falar super mal de 2016, mas, ao mesmo tempo todos os motivos para falar super bem! Então, vamos lá? Juntem-se a mim nesta retrospectiva do melhor/pior ano de nossas vidas, afinal, não existe um ser humano na terra capaz de afirmar que 2016 foi SUPER MARAVILHOSO, MEU DEUS MELHOR ANO DA MINHA VIDA, NÃO ACONTECEU NADA DE RUIM!! E, se você estiver lendo e já se preparando para falar isso nos comentários… por favor, não seja essa pessoa. Não seja a diferentona estagiária de Machado de Assis; esse é o meu trabalho. Obrigada. De nada.

Todo ano eu faço maratonas de duas séries: Friends e How I Met Your Mother. Sim, um pouco dos dois mundos. Dessa vez, a segunda foi a que eu vi quando já estava de férias da faculdade e a primeira eu fui intercalando com as minhas várias horas protelando os estudos porque… bem, porque Phoebe Buffay me inspira a pensar. E Chandler Bing é quem eu preciso ter ao meu lado durante os anos escolares desde a primeira vez que ouvi: I’m not great at the advice. Can I interest you in a sarcastic comment? Enfim, eu sou aquele tipo de pessoa que sempre busca morais para a sua vida baseada nas escolhas de personagens ficcionais. Irresponsável? Talvez. Mas I give Love a Bad Name está tocando no momento em homenagem a Barney Stinson e eu não me arrependo. E especialmente sobre How I Met Your Mother nós temos um nome na ponta da língua quando o assunto são morais. Ted Mosby.

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Nunca me enganei. Eu sou uma Robin Scherbatsky. Porém, 2016 fez de mim uma Ted Mosby, com a mais absoluta certeza! E, na vida do Ted existiu um ano… 2009… que acabou virando um dos melhores episódios ever da série, o final da quarta temporada, e que nos rendeu essa quote:

That was the year I got left at the altar. It was the year I got knocked out by a crazy bartender. The year I got fired. The year I got beat up by a goat, a girl goat at that. And dammit, if it wasn’t the best year of my life.

Ted fez sua análise, apenas com os aspectos ruins daquele ano e ainda assim chegou a conclusão de que fora o melhor de sua vida. Sendo bem clichê: porque são as coisas ruins que vão fortalecer seu foco para chegar ao melhor resultado. Vejamos, então, esse foi o ano em que eu tive o menor aproveitamento ever de uma matéria que eu gosto na faculdade, sem falar que foi o ano em que repeti sem parar com meus colegas sobre como ambos os semestres haviam sido… ruins. Ruins mesmo. Esse foi o ano em que mais me coloquei para dormir depois de sentar por horas chorando. Foi o ano em que mais duvidei da minha capacidade e do que queria para a minha vida, mesmo estando a essa altura do campeonato. Foi o ano em que acordei em um mundo sem Alan Rickman, Debbie Reynolds ou Carrie Fisher; sim, isso deixou meu 2016 muito triste. Foi o ano em que tudo sempre parecia dar errado, mesmo quando eu me matava para dar certo…

Também foi o ano em que, pela primeira vez na minha vida, matei aula para viajar para São Paulo e assistir, também pela primeira vez, o musical Wicked. Sem esperar nada de ninguém, planejei tudo… correu tudo mais ou menos como o esperado, mas, foi melhor. Aliás, foi a noite em que recuperei meu amor pelo teatro, pela arte. Foi o ano em que abri minha conta no smule e descobri como trabalhar a minha ansiedade de uma forma que não precisasse correr para o hospital ao menor sinal de tensão: cantando em alto e bom tom/som. Foi o ano em que fiz milhares de novas amizades por causa disso. Foi o ano em que meu amigo me disse que ia ter uma palestra com a Ellen Degeneres; e eu pirei. Foi o ano em que me fantasiei de Bellatrix Lestrage pela primeira vez em anos e gritei pelo shopping que matara Sirius Black again. Foi o ano em que ganhei o segundo lugar de um concurso de cosplay e fiz mais amizades por causa disso. Foi o ano em que cheguei ao fundo do poço e encontrei o caminho para cima. Foi o ano em que o In My Own Little Corner fez um ano de vida e, que surpresa, eu não havia desistido dele com apenas 3 meses.

Foi o ano que li E o Vento Levou e descobri meu novo livro e filme favorito. Foi o ano em que voltei de vez para o Twitter e só tive a ganhar com isso… porque a mãe de uma amiga que fiz lá, tirou snap da Maggie Smith e mandou para nós… então, também foi o ano em que vi a Maggie Smith fazendo compras. Foi o ano em que finalmente entendi e me apaixonei pelo final de How I Met Your Mother, aliás. Foi o ano em que voltei a fazer aulas de piano. Foi o ano em que descobri que também possuo minhas Padfoot e Prongs, porque sou a Moony. Foi o ano em que recomecei a ler Guerra e Paz, e vi Cormoran Strike chegar de penetra no casamento da Robin Ellacott e ela dizer “aceito” olhando para ele e não para seu noivo… MEUS DEUSES, VÃO LER CARREIRA PARA O MAL! Ah, também foi o ano em que Apolo, o Deus, foi primeira pessoa num livro do Rick Riordan e foi LEGENDARY PORQUE DESCOBRI QUE ZEUS TEM SNAPCHAT! ASUHAUSHAUSHAU Nem sei porque ainda acho isso engraçado.

Foi o ano da melhor reunião de natal de todos os tempos, com o melhor amigo oculto de todos os tempos, com as melhores piadas e referências de todos os tempos. E foi o ano em que a magia voltou… Animais Fantásticos e Onde Habitam nos trouxe de volta para casa e com ele veio Newt Scamander, Jacob Kowalski, as irmãs Goldstein, Porpentina e Queenie – a minha nova personagem favorita da vida! Aviso que no futuro teremos cosplay, porque sou dessas. Um filme que superou minhas expectativas enquanto fã e admiradora da genialidade de JK Rowling e que me fez chorar de nostalgia. Pela personagem que poderia ter sido apenas um rostinho bonito generalizado e sem importância, mas que foi muito mais e agora ninguém mais vai ligar para Dolores Umbridge quando falarem em rosa no universo de Harry Potter. FOI O ANO EM QUE DEUS FOI MARAVILHOSO E ELA ENTROU NA PADARIA!!! ❤

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tumblr_oh8w8q1zm81tnrb35o1_1280Ano dessas fanarts maravilhosas em que todos me marcaram no facebook porque me conhecem bem e estavam lá quando, após o filme, fiquei meia hora falando de nada mais do que Queenie e Jacob… ❤

O ano em que velhas amizades foram resgatadas, atuais foram colocadas à prova e sobreviveram, e novas conquistadas…

Sim, tivemos grandes perdas e reviravoltas este ano… mas, pensando como Sabrina Fairchild, foi um ano em que a vida aconteceu… e não pudemos fugir dela… e, de fato, 2017, you’ll have some very large shoes to fill…

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Nós somos a Emily com as muletas…

 

Feliz Ano Novo, meus queridos… quem quer que esteja lendo este post. Espero continuar com vocês em 2017!!

xoxo

Nós Somos as Crystal Gems

Tem se tornado o sentimento comum entre a presente geração acreditar que crescemos com os melhores contos animados para a televisão; que por não termos passado pela febre ensandecida da Peppa Pig ou da Galinha Pintadinha, mas pelas manhãs com Disney Cruj e tardes com Animes, obtivemos algum tipo diferente de percepção sobre o mundo ou mesmo alguns valores que o permeiam. Neste último caso, podemos citar especialmente o exemplo de Animes, tais quais, Digimon, Dragon Ball, Fullmetal Alchemist; todos com sua própria moral.

Cada qual com aquele desenho ou história que o marcou mais. No meu caso, foi Avatar: a lenda de Aang. Uma animação do canal Nickelodeon e que, apesar dos primeiros episódios leves, logo demonstrou a que veio, ao começar de pronto a explorar o passado e personalidade de seus personagens. Criando, assim, um dos melhores shows e nomes que jamais serão esquecidos. Bem como uma charmosa tradição de pai e filha: assistir todas as temporadas no fim do ano.

Por muito tempo, uma animação não me prendia ou me “falava” tanto quanto Avatar. Entretanto, dizer que nada mais é tão grandioso ou virá para as próximas gerações, seria pretensão e, ademais, burrice. Afinal, esta é a era de Hora de Aventura. É correto afirmar que as animações atuais adquiriram maior liberdade para explorar criatividade, o que, em consequência possivelmente gera um novo conceito de diversidade. Novas gerações se aproximam, de forma que é apenas natural que aquilo que ajudará na sua educação humana, como ajudou na nossa, siga os padrões, ou melhor, o mundo que os acompanha.

Foi nessa linha de pensamentos e por recomendação de uma amiga, das antigas, aquele anjo que conhece o ser humaninho aqui e que já sabia que a sementinha, uma vez plantada, ia florescer feliz, enfim, foi assim que me envolvi com Steven Universo. Envolver mesmo! De não querer fazer mais nada além de assistir episódios, ouvir a trilha sonora, saber tudo a respeito desse universo animado. Talvez, esteja querendo arrastar mais pessoas comigo na minha loucura, mas, é dia das crianças, vamos todos nos voltar com o olhar maravilhado para o show de cores e diversidade que é Steven Universo.

Steven Universe  é uma série de desenho animado norte-americana criada por Rebecca Sugar, cartoonista da Cartoon Network, ex-artista de storyboard, escritora e compositora de Hora de Aventura. Produzida pelo Cartoon Network Studios, essa foi a primeira série do Cartoon Network Studios a ser criada por uma mulher. Estreou a 4 de novembro de 2013 no Cartoon Network dos Estados Unidos, 7 de abril de 2014 no Cartoon Network do Brasil. É uma história coming-of-age em animação que conta a história de Steven, um jovem rapaz de 14 anos de idade que é membro das Crystal Gems, uma equipa de guardiãs humanóides extraterrestres mágicas que protegem a Terra de ameaças com a ajuda dos poderes da sua jóia presente numa parte do corpo.

O Steven vive na cidade fictícia de Beach City com as Crystal Gems: Garnet, Ametista e Pérola. Ele acompanha as Gems nas suas aventuras e ajuda-as a proteger o planeta Terra.

O que tornou este show tão especial para mim, após menos de cem episódios, foi a forma majestosa com a qual aborda assuntos referentes ao mundo adulto e infantil, conseguindo passar mensagens poderosas através de simbolismos aparentemente inocentes aos olhos dos pequenos, mas profundos a nós que conseguimos captar a metáfora. Mensagens referentes a amor, solidão, relacionamentos, estupro, até mesmo sexo que, na minha leitura, encontra representação na ideia da fusão: quando duas Crystal Gems se unem – por vontade própria – a fim de criarem um “novo ser” mais poderoso.

Temos também personagens extremamente ecléticas e fora do padrão, mesmo quando estão tentando seguir um padrão. Você poderia pensar que Garnet é a típica caladona misteriosa, mas daí BAM! Ela se mostra completamente engraçada, cativante, amorosa e compreensiva. Pode, à primeira vista, acreditar que a Pérola é a Mônica das Crystal e que só se importa em estar certa, no que é sensato e em manter tudo lindo e arrumado, e de repente BAM! Ela é um dos personagens mais trágicos e que provavelmente vai te arrancar mais lágrimas de todos nós. E a Ametista poderia ser só uma garota com um grande apetite e senso de humor, mas, seus fantasmas internos e inseguranças a tornam extremamente humana e viva. Steven parece ser um garotinho normal: inocente, ingênuo, esperançoso, disposto a olhar para o melhor da situação, ainda que com olhos infantis, mas então, por um momento, se torna a consciência e, talvez, o mais maduro do grupo.

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Você não pode deixar uma experiência ruim tirar isso de você

É um show que apresenta muita vida e personalidade, com certeza uma recomendação eterna e outro que, se tudo der certo e eu conseguir viciar meu pai, vai se tornar outra tradição de família. Fica a minha sincera dica a vocês.

Nós somos as Crystal Gems, nós sempre salvamos o dia. Não pense que não podemos, abaixo à covardia. E é por isso que todo mundo sempre acredita na Garnet, na Ametista, na Pérola e no STEVEN!!

xoxo

A Vilã de Jane Austen

Uma boa estória pode ser resultado de várias circunstâncias. Por vezes, a própria forma pela qual os fatos são apresentados e conduzidos, por si só, é capaz de tornar uma primeira tentativa em um eterno clássico. Em outros casos, muito do sucesso se dá pela graça das pessoas as quais nos vemos apresentados. Os personagens de uma estória são a sua alma, visto que serão eles a ajudar para a criação de profundidade e significado. Sendo assim, na minha humilde opinião, mesmo o conto mais simplório pode ser considerado de grande valor, se seus personagens cativarem o coração do leitor; e existem incontáveis variáveis para tais personas. Meus preferidos: os vilões. Um bom vilão é capaz de fazer muito pelo seu herói ou sua heroína, pelos seus melhores amigos, seus “minions”… O comentário/crítica/conselho de amiga/recomendação desta semana se trata especialmente de uma vilã. Uma que encontrei no lugar menos provável…

Muitos de vocês sabem ou deveriam saber de minha adoração por Jane Austen. Desde que coloquei minhas mãos em um de seus livros pela primeira vez – Razão e Sensibilidade – me decidi que teria de ler todos os seus romances. Alguns me conquistaram mais do que outros, como é natural que aconteça, mas, é notável que detenho carinho por todas as adaptações cinematográficas já realizadas de todos eles. Há pouco tempo, cerca de dois anos, julgava ter atingido meu objetivo e lido todas as suas obras, quando numa ida inocente até a livraria me deparei com um exemplar de “Lady Susan”. Comprei-o no mesmo instante, tendo ouvido falar se tratar de algo um tanto quanto inacabado. Na verdade, está bem terminado! O diferencial era que, ao contrário de seus outros romances, este se resumia a um cumulado de cartas trocadas entre os personagens e que, ainda assim, deram o tom perfeito para a narrativa que em nada deixa a desejar! Jane era conhecida por escrever excelentes cartas a seus familiares, nesta obra descobrimos o porquê.

Cada uma é cheia de espírito e demasiadamente claras na diferenciação de caráter a cada um dos remetentes. Em especial, um remetente, a alma dessa estória. Lady Susan Vernon. Bem, ao longo dos anos, conhecemos vários tipos de personagens provindos da caneta afiada de Jane. Tivemos Lady Catherine De Bourgh, Mrs. Jennings, Mr. Collins, Mrs. Bates, Emma, Elizabeth, Fanny, cada um com sua “mania”, seu traço definidor. Todavia, Lady Susan, creio eu, foi a única verdadeira vilã da senhorita Austen, no sentido literal da palavra e o que ela representa para todos nós ou, como gosto de pensar, que teria significado para os conterrâneos do século 18/19. Uma viúva de trinta anos, extremamente provocativa – ao que denominam atitude coquete – e manipuladora. Dentre todas as personagens de Jane, esta parece ser àquela com quem mais se divertiu ao tocar sua pena no papel, o que torna esta, talvez, a novela em que mais se nota o famoso “Jane’s Wit”, o quão espirituosa sua escrita poderia ser.

Há um escândalo que precede a chegada de Lady Susan à propriedade rural do irmão de seu falecido marido em Churchill. Boatos afirmavam que, enquanto permanecia como convidada em Langford, ela teria sido expulsa pela dona da propriedade, Mrs. Manwaring, por tentar seduzir seu marido e o noivo de sua jovem cunhada. Descrita por sua cunhada, Catherine Vernon, como possuindo “uma mistura rara de simetria, esplendor e graça” logo no início do romance, esses atributos positivos talvez sejam os únicos cumprimentos que Lady Susan viria a receber em toda a história. Sendo inteligente e agradável, com um conhecimento do mundo que torna a conversa fácil e um feliz domínio da linguagem, capaz de transformar o preto em branco, ela orgulha-se, e com o prazer, de converter uma pessoa pré-determinada em não gostar dela em seu mais ferrenho defensor.”

Uma vilã no período Regencial de Jane só poderia ocupar um novo lugar de amor em meu coração, sendo uma de suas melhores personagens, junto a Elizabeth Bennet, Emma Woodhouse e Elinor Dashwood, na minha opinião. Claro, já tivemos seres desprezíveis em seus livros, tal qual a senhorita Lucy Steele, tão deleitada em destruir as esperanças e o amor de Elinor por Edward em Razão e Sensibilidade. Contudo, a novidade em Lady Susan Vernon é o quanto sua personalidade é cativante e charmosa enquanto planeja seus movimentos com cautela. Uma lufada de ar fresco, eu diria e como a crítica também disse quando finalmente tal conquista fora adaptada para o cinema. Ouso quotar…: “Ela é uma vaca, mas, você não consegue não torcer para que seus esquemas tenham sucesso!” Ainda mais quando ouvimos várias de suas cartas proferidas em voz alta pelo charmoso sotaque inglês de Kate Beckinsale.

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A adaptação foi anunciada no ano passado, mas, tão pouco fora anunciado a seu respeito que acabei me esquecendo de sua estreia. No entanto, graças a um tumblr, acabei conseguindo descobrir que ela de fato ocorrera, apenas não recebera o nome de “Lady Susan”, mas “Love & Friendship” – Amor e Amizade – o porquê de tal título, não tenho a menor ideia. Contudo, apenas nisso deixa a desejar. Em resto, é perfeita! Kate está brilhante em seu papel de “maior flerte da Inglaterra”, é impossível deixar de olhar para ela quando em cena. A trilha sonora é magnífica, numa combinação de instrumentos de corda com momentos de coro, e os figurinos… ah, os figurinos… a filmografia, tudo tão brilhantemente iluminado! Parece até um episódio de Downton Abbey. O roteiro adaptado das cartas presentes na novela é sucesso de Whit Stillman, bem como a direção. Correspondendo ao espírito de Austen, temos excelente comédia regencial aqui, na pura tolice do personagem de Tom Bennett, Sir James Martin, o suposto pretendente da filha de Lady Susan, Frederica.

Além disso, podemos dizer que a viúva é perfeita na arte de enaltecer aquilo que a educação inglesa não nos permite dizer em voz alta, mas que todos estão pensando, tornando alguns momentos de desconforto após suas tiradas sarcásticas, simplesmente encantadoramente risíveis. Uma vilã encantadora para a minha lista, livro e filme recomendadíssimos para os fãs da senhorita Austen que nunca falha na arte de nos entreter com suas reflexões acerca de seu tempo e tão à frente dele.

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 xoxo

Ao fazer Biografia, não caia na Ficção

Desde o fim do grande sucesso que foi Downton Abbey, a emissora britânica de TV “ITV”, bem como os apaixonados fãs da estimada série, vêm buscando uma alternativa para aplacar a nostalgia de seus corações exaltados e carentes por um bom drama de época. Neste cenário de enormes expectativas e poucas alternativas – rima não intencional, as always – eis que me surge Victoria. Produzida pela mesma casa que trouxe a existência da família Crawley para a tela, porém, agora com um diferencial: ao passo que Downton foi criada e escrita em sua totalidade por um homem, Sir Julian Fellowes (o responsável pela morte imperdoável de vários personagens amados e pelo enfraquecimento de arcos poderosos), Victoria é fruto da mente e mãos da senhora Daisy Goodwin. Isso, claro não influencia em nada as minhas reações quanto ao show; apenas um pequeno detalhe. 

Em todo caso, sim. Victoria chegou como a nova aposta da “ITV” como série de época para conquistar tantos fãs quanto seu sucesso de audiência anterior. Afinal, Downton criou sua própria linha de roupas… Imaginem se sair uma linha de roupas vitorianas por aí; não que iremos voltar a usar saião na rua, mas peças baseadas, ia ser mara… Bijuterias, chás, canecas, sacolas de compras, livros, artefatos de papelaria, calendários. Milhares de produtos comerciáveis com o logo DA – infelizmente, em totalidade europeia e estado unidense, o Brasil se fu… – Se eles possuem a mesma pretensão com Victoria? Não posso afirmar com propriedade, no entanto, é certo que ambas as séries possuem trilhas sonoras, leia-se temas de abertura, cativantes. Logo, antes de começar a gritar meus sentimentos, salientarei: existem milhares de detalhes felizes nesta série. A música é uma delas.

Na britânia, já foram exibidos três episódios e só irá ao ar nos Estados Unidos em Janeiro, como era de costume com Downton e também pela mesma emissora, salvo engano, Masterpiece. Em todo caso, não consigo deixar de sentir arrepios toda vez que ouço o coro, Mediaeval Baebes, entoar “AAleluuiiaaa”…

Pouco? Eu sei. Vamos ouvir, então, a “versão estendida” como tema da coroação de Victoria no primeiro episódio.

Do mesmo gênio que trouxe até nós a trilha sonora do seriado Guerra e Paz da BBC, também já contemplado neste blog em uma postagem: Guerra e Paz BBC: e agora eu vou reler esse livro!, Martin Phipps. Ouvindo o entoar dos coros de Aleluia, temos a sensação de que em breve embarcaremos em uma época de majestade e de grande significado para o povo inglês; o que, de fato, é e deveria ser. Na Inglaterra, de uma maneira geral, existem vários monumentos e construções em homenagem a essas duas pessoas que foram a Rainha Victoria e o Príncipe Albert. Sozinha, visto que Albert faleceu aos 42 anos de tifo, seu reinado computou 63 anos, o segundo maior da história. O museu batizado em nome de ambos é o mais completo de Londres. Temos o Albert Memorial em Hyde Park. Temos a torre do relógio no centro de Brighton. Temos o Victoria Memorial em frente ao Palácio de Buckingham, tendo sido ela a primeira monarca a ocupá-lo como residência oficial da família real.

Enfim, pequenos detalhes, eu poderia discorrer sobre outros, mas acredito que estes são suficientes para ilustrar o meu ponto de discussão acerca da série. Bem, é nítido para todos os cidadãos britânicos e para aqueles que se dão ao trabalho de estudar um pouquinho sobre este casal da realeza, o quanto eles se amaram em vida. O quanto a morte de Albert em 1861 atingiu a monarca que nunca mais vestiu outra cor senão o preto do luto e fez raríssimas aparições públicas. Assim sendo, quando eu comecei a assistir a série, esperava que os primeiros episódios tratassem da luta de Victoria contra o controle de sua mãe e John Conroy, seu amadurecimento, na falta de palavra melhor, forçado perante a troça de seus parlamentares para com a mulher monarca que todos chamavam de “baixinha” pelas costas. E, claro, de sua AMIZADE e relação PATERNAL com o primeiro ministro Lord Melbourne.

Vejam vocês, amiguinhos que talvez estejam lendo esse texto e também assistam à série e, por acaso, shippem Victoria e Melbourne, aquilo ali é um despautério e eu não sei como uma cidadã inglesa se acha no direito de brincar assim com duas figuras historicamente reverenciadas! Okey, mas daí vocês vão rebater: mas e a liberdade criativa dela? Afinal, como autora de vários romances de época publicados, a senhora Goodwin talvez tenha propriedade para brincar um pouco… O problema, amiguinhos, é que se é para fazer uma ficção da história, que seja anunciado dessa forma. Contudo, Victoria foi anunciado como uma série de gênero: biográfico, drama e histórico. Cadê a ficção?? Cadê?? Sendo assim, eu creio que essa brincadeirinha de pegar Jenna Coleman e Rufus Sewell, dois bons atores, e jogar uma tensão sexual, um amor proibido, onde cartas registradas relatam que existia apenas um relacionamento tal qual o de um pai e uma filha – visto que Victoria perdeu o pai muito cedo e não possuía muitas figuras masculinas em quem se espelhar ou a quem se voltar para conselhos – está muito errada.

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ESSA CENA TÁ TODA ERRADA!!! 

O que isso vai nos trazer de bom? Um triângulo amoroso?! O quão saturados nós já estamos disso, meus caros?! Tivemos um em Downton Abbey – Mary, Matthew, Lavinia – e olha o quão bem terminou. Aliás, se é para ser a nova Downton Abbey, vamos analisar. Julian Fellowes não brincou com pessoas. Ele brincou com uma casa. O Highclere Castle que HISTORICAMENTE serviu como casa de convalescênça durante a primeira guerra mundial; dessa forma, podemos dizer que a segunda temporada de Downton foi baseada em fatos históricos e não se desviou deles. Não desvirtuou a história. Na verdade, se atentou a eles minuciosamente, trazendo um “conselheiro” histórico para o set de filmagens. A família Crawley era formada por pessoas fictícias e, portanto, Julian podia fazer o que bem entendesse com elas. Daisy Goodwin está escrevendo sobre seres humanos reais; seres humanos constantemente estudados por historiadores e que, por isso, merecem o devido respeito. Victoria e Albert é o Real Life OTP de muitas pessoas! Não crê? Tumblr it.

Eles possuem uma voz. Apesar de estarem mortos, a presença deles ainda é muito sentida pelo povo inglês, por aqueles que estudam sua história – desculpem-me se aqui houver sido um pouco redundante – e essa voz não pode ser ignorada. Exemplo:

“NUNCA, NUNCA passei uma noite assim!!! O MEU QUERIDO, QUERIDO, QUERIDO Alberto (…) o seu grande amor e afecto fizeram-me sentir num paraíso de amor e felicidade que nunca pensei alguma vez sentir! Segurou-me nos seus braços e beijamo-nos uma e outra e outra vez! A sua beleza, a sua doçura e gentileza – como posso agradecer vezes suficientes ter um marido assim! (…) ser chamada por nomes ternurentos, que nunca me chamaram antes – foi uma bênção inacreditável! Oh! Este foi o dia mais feliz da minha vida!”

Este é um trecho do diário da rainha Victoria, após o dia de seu casamento. Ela amava esse homem! Ele não a amava menos! Assim sendo, ao menos que Daisy esteja nos preparando para um gigante plot twist, o desenrolar de uma brilhante história de amor – que já deveria estar acontecendo, porque eles sempre se gostaram – o seriado, infelizmente, não vai atingir o objetivo almejado. Vai desperdiçar a excelente equipe de fotografia, porque ela é fantástica, os figurinistas, os atores, os compositores, tudo porque o seriado não consegue se ater àquilo que propôs fazer: um relato biográfico da ascensão de uma das rainhas mais famosas da história mundial. Outro ponto relevante que pode ser levantado é: uma série precisa de mais pontos de trama para desenvolver, a fim de justificar temporadas e minutos de episódios, do que um filme – indireta para a adaptação de 2009, The Young Victoria.

Bem, em 2001 foi feita uma mini série de 2 episódios – um filme para a televisão – sobre a história de Victoria e Albert, com este nome. Poderia ser dito então “já foi feito”, mas, se o problema fosse esse, não haveriam tantas adaptações de Guerra e Paz, por exemplo. Cada direção traz um elemento novo, de modo que reboots podem ser feitos e ainda assim serão tão amados quanto as obras originais ou as primeiras adaptações. A história não precisava sofrer tamanha alteração. Focasse, então, para aumentar as chances de duração, no emponderamento de Victoria. No seu amadurecimento como monarca, pois sua história não se resume a um simples conto de amor, como tem parecido até agora. De fato, chega a ser risível o número de vezes em que ela pergunta pelo “Lord M” às suas damas de companhia ou até mesmo usa uma das carruagens delas para ir até ele incógnita. Querida, o povo está passando por uma mudança governamental muito grande, um grupo quase pulou pra cima de você durante um evento oficial e você me fica preocupada em dizer a Lord Melbourne que ele é o único homem da sua vida, sendo que você teve 9 filhos com o suposto “garotinho” por quem afirma sentir tanto desprezo?!

Falta coerência. Falta força. Eu pretendo continuar assistindo só para saber o que a autora ainda nos reserva nesse show de ficção. No entanto, não posso dizer que não te prende. Como forma de entretenimento ficcional, é divertido e encantador; todavia, não foi criado para ser um entretenimento ficcional, mas biográfico. Embora muitos filmes biográficos possuam erros, esse é um muito simples, pois é possível fazer a pessoa se apaixonar pela historicamente certa, não é? Portanto, se você não for chato como eu, pode assistir sem lamúrias, sem crise existencial. Recomendo como obra de ficção. Como se você estivesse assistindo a tantos outros filmes de época… Mas, como algo em que buscar fatos acerca da vida da rainha Victoria e do príncipe Albert, passo nem perto. Pela prévia, pois Albert já vai começar a arregaçar as manguinhas no próximo episódio, eles vão se detestar e, talvez, se apaixonar aos poucos – Meu Deus, onde eu já vi isso antes em um romance de época? – Poderiam ter desenvolvido a paixonite infantil para um amor mais maduro e cúmplice? Poderiam, mas, não foi essa a escolha feita e eu respeito, pouco, a liberdade criativa da autora… porém, que está errado, está.

Espero não ganhar unfollows com o desabafo.

 

xoxo