Mas só o tempo transforma

Um segundo. Cinco palavras.

Eu não quero ser bailarina.

Dez anos depois. Uma oração inteira.

Meu maior arrependimento foi não ter começado ballet quando menina.

Coisa engraçada, o tempo. Num momento nos faz feliz, no outro nos leva às copiosas lágrimas. Outra hora nos faz ansiar por agito, por vida. Noutro segundo requer silêncio e reclusão. Dizem que só ele cura. Na verdade, só ele transforma. Não existe, de fato, uma cura… é possível se curar de uma gripe, febre, enxaqueca… mas isso a que o ditado popular faz referência… isso não é algo que requeira cura. Apenas uma mudança de perspectiva. E sim, isso só o tempo concede. Mudança. Ele que é movimento inconstante e desafiador da lógica, vez que não tem pé nem cabeça, mas é. Um menino pode ser um homem e um homem pode ser um menino, a recíproca é verdadeira para as grandes meninas e pequenas mulheres; tudo vai depender da perspectiva do tempo. O gozador… frio, imperdoável gozador…

Ele poderia ter me sussurrado ao ouvido que eu deveria dançar ballet; que estava brincando comigo naquela idade, ao me dizer que isso era coisa de menininha fresquinha… Eterno gozador, só foi me revelar isso dez anos depois, quando me concedeu nova perspectiva; por me transformar. Pobre tempo, tão solitário e incompreendido quanto a morte, sua amiga mais íntima. Desejamos incansavelmente que ele fizesse mais por nós. Nos desse mais tempo… nunca é o bastante… e mesmo suas transformações parecem chegar tarde demais, pois as minhas articulações já se achavam rígidas demais para que eu conseguisse tocar o céu… ele me arrancou as pernas, mas me manteve o coração… o que raios eu haveria de ter feito para que me castigasse com o vil sentimento da impotência? Talvez, garantir-me o beijo da arte tenha sido seu golpe de misericórdia…

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Eis que tornou minha vida mais bela com os olhos de quem sonha; de quem um dia sonhou, mas ainda anseia e ama. Os pés de uma bailarina estão destruídos por ele; perfurados com cicatrizes de seus êxitos anteriores… provavelmente fora isso que se passara na cabeça de Einstein ao descobrir a sua relatividade; e não uma fórmula maluca de física. Pode até ser que haja física naquilo que a mantém sobre a ponta de seu pé, mas os olhos de quem sonha conseguem ver apenas o coração… O tempo já fez várias vítimas dessa maneira. Talvez por isso as salas de cinema, peças de teatro, sarais, apresentações de ballet estejam tão abarrotadas de público… Talvez essa seja a maneira mais dura de equilibrar o mundo… através do tempo e sua gozação, a sua eterna ironia… a sua inconstância…

Pois só o tempo transforma.


Esse texto faz parte do Pena & Tinta, um projeto de escrita criativa que tem como objetivo a criação de textos (crônicas, contos, poesias, relatos pessoais etc…) em cima de temas predeterminados mensalmente. Neste mês, escolhi o tema TEMPO.

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xoxo

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Como Fred e Ginger

Eu achava que sabia o que queria.

Ledo engano. No entanto, um engano, imagino, que muitos cometem. Então, tudo bem estar errada, certo? Tudo bem errar, se você não é a única que já pisou na bola? Ok. Espero que sim. Me peguei andando em círculos pelo quarto… é claro que ninguém sabe o que quer. Pelo menos, não de cara. Especialmente quando se é alguém incapaz de se contentar até mesmo com o plano de fundo da “lockscreen” do celular. Enfim, eu acreditava que queria você… que tudo bem ser, numa metáfora bem tosca, doce, porque seu lado salgado me completaria.

Acreditava nos debates, entende? Na “provocação saudável” que tanto me deslumbrava nos meus casais favoritos de contos infantis e nos romances de Shakespeare. Juro juradinho que cria com todas as minhas forças no amor de Catarina e Petruchio e que não era capaz de enxergar a exaltação ao machismo em detrimento do feminisno naquela relação. Enquanto Beatrice e Benedito se bicavam e discordavam de tudo… sabe? Os amantes que em nada se acertam, além do amor que sentem um pelo outro. Eu achava que queria isso. Numa espécie de busca enfadonha por emoção e por uma chama incessante… eu busquei o meu Benedito e o meu Petruchio…

Estou olhando para aquelas fotos que tiramos na formatura da Luiza. Estamos tão obviamente embriagados… por Deus, você estava usando um poá cor de rosa chiclete! Jesus como deixei alguém colocar um chapéu verde limão na minha cabeça, em contraparte ao meu vestido azul, quase uma ode à bandeira brasileira?! Estou rindo sozinha. Mas, assim, se qualquer pessoa entrasse aqui e visse essa imagem, entenderia. Nos divertimos, não? Nem parece que entre esse casal sempre existiu uma espécie de abismo preenchido com todas as questões as quais nunca conseguiram chegar a um ponto em comum.

E não. Nem envolvia política. Nós dois reconhecemos que as questões estavam atreladas aos assuntos mais banais… porém, não se pode duvidar que essa banalidade é deveras importante. Eu acho. Porque ainda estou sentindo o que a falta dela traz. Aquele vazio que, se a gente ignorar, nem parece que incomoda tanto, mas que deixa margem para tanta irritabilidade… Por que você não entendia ou, sequer tentou entender, a razão do meu fascínio por… sei lá… Percy Jackson? Literatura medíocre?! E daí?! Eu também leio Dostoievski… e eu tentei dar outra chance para Dom Quixote por você; por que cargas d’água não conseguia simplesmente defender um pouquinho do meu amor pelo cabeça de alga? Isso para citar um dos exemplos mais bestas de todos!

Era legal discutir e debater nossas ideias, num eterno episódio de Law&Order… e, pensando bem, pensando sensatamente, amarmos as mesmas coisas não deveria fazer com que eu te amasse menos ou mais. A ideia de que os opostos se atraem é tão bonita em mente, mas, para mim, não dá mais para acreditar que seja prática em prática… por que não sou forte ou madura o bastante? Talvez porque, no momento, estou cansada de dar explicações dignas de uma coluna editorial? Vai saber!

Eu ainda não sei o que quero.

Mas não acho que estará tão embuído de ceticismo. Provavelmente, o que se deseja nem seja o positivo e o negativo… eu poderia citar exemplos, mas, ninguém entenderia referências da década de 50. Contudo, acho que podemos resumir nisso: tudo bem você não surtar por filmes em preto e branco, desde que tente entender meu fascínio por eles. Tudo bem não amarmos os mesmos livros, porque nós amamos livros e, sem nos darmos conta, estaremos tentando ler as recomendações um do outro. Tudo bem você ser da Sonserina e eu da Corvinal. Tudo bem que eu não seja uma garota esportiva, porque isso sempre me deixará do seu lado num churrasco de família. Tudo bem porque… você me olha como Fred olha para Ginger enquanto eles estão dançando. Tudo bem porque, nesse tempo todo, você se deu ao trabalho de aprender o que isso significa.

 


Esse texto faz parte do Pena & Tinta, um projeto de escrita criativa que tem como objetivo a criação de textos (crônicas, contos, poesias, relatos pessoais etc…) em cima de temas predeterminados mensalmente. Neste mês, não consegui me decidir, então, vamos começar com o tema OPOSTOS.

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Amarelo, ela é amarelo.

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Sinto falta de um lar que nunca foi meu. que nunca foi de ninguém, de fato. Eu costumava ter essa fixação com lares e casas. De fato, sempre acreditei que nenhuma jamais se compararia a minha. Não que ela fosse grande coisa. Era pequena e mal planejada, mas também, eu nunca precisei de muito espaço ou fui a favor de seguir planos à risca. Mesmo assim, eu queria um lar. Um espaço que me preenchesse à completude. O imagino com grandes venezianas brancas e livros no espaço abaixo da escada. No centro. Sempre no centro. Afinal, a ideia de me revolver reclusa no campo sempre me pareceu absurda… não parece?

Um dia, eu subi uma colina, no entanto. Calçava meu melhor par de botas de camurça… havia acabado de garoar… eu sentia meus pés afundando na lama… o inconveniente pelo qual não precisaria passar se estivesse na cidade… contudo, aquela era para ser uma aventura. Segui a estrada para fora da minha zona acarpetada de conforto e o que obtive? O mundo. Ao final daquela colina, não havia nada… nada além de quilômetros… não havia nada e tudo ao mesmo tempo. Era alto, isso era. Lá de cima assisti outras sete colinas e o mar, ao passo que me sentia sendo jogada contra algo… a verdade… e o conhecimento… tudo era verde e azul, mas… mas…

Amarelo. Aquela descida foi completamente amarela. Não havia espaço na sua paleta de cores para qualquer outra cor… você seria capaz de compreender Van Gogh. Enquanto descia, foi como se o mundo vivesse dentro de doze girassóis numa jarra, com uma grande lata de tinta amarela envolvendo-o; uma tela irreproduzível. O sol às costas era morno e começava a se pôr e quando me dei por mim… o mundo era amarelo. Pessoas seriam capazes de atestar quantas vezes enunciei meu ódio por tal cor. Contudo, naquele momento, ele foi meu lar. Afinal, lar, segundo dizem e eu nunca ousei buscar definição diferente, é onde seu coração está em paz… Aquele ali: com os tons de dourado pairando sobre a planície, sobre os lagos, em cada folha e por todo o céu… a água sussurrando aos meus ouvidos e no silêncio da completa contemplação… aquele era meu lar.

Poderia ser terra de ninguém. Simplesmente existindo para que outras pessoas se sentissem daquela maneira. Mas era meu. Eu queria acreditar que sim… que por anos eu fizera aquela caminhada ao topo pelo bel prazer de descobrir a descida várias e várias vezes. Para descobrir o amarelo várias e várias vezes. Justo eu… uma criança que sempre tivera crises de ansiedade e acreditava com todas as suas forças que seu lar teria venezianas brancas… eu encontrei paz. Eu fui paz. E, desculpem os intérpretes, ela nunca foi branca. Ela foi amarelo.


Esse texto faz parte do Pena & Tinta, um projeto de escrita criativa que tem como objetivo a criação de textos (crônicas, contos, poesias, relatos pessoais etc…) em cima de temas predeterminados mensalmente. Neste mês, escolhi o tema CORES.

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