Sem Perdão à Bruxa

– Glinda, se aqueles sapatos caírem nas mãos do Mágico, ele vai usá-los em alguma manobra para reincorporar a Munchkinlândia. No momento, eles têm significado demais para os munchkins. O Mágico não pode pegar esses sapatos!
Glinda estendeu a mão e tocou no cotovelo da Bruxa.
– Eles não vão fazer seu pai amar você.
A Bruxa se afastou. As duas ficaram se encarando. Elas tinham história demais em comum para se afastarem por causa de um par de sapatos, mas eles foram postos entre elas, um ícone grotesco de suas diferenças. Nenhuma das duas recuava nem ia em frente. Era tolice, elas estavam presas e alguém precisava quebrar o encanto. Mas tudo que a Bruxa conseguiu fazer foi insistir:
– Eu quero aqueles sapatos.

Um saudoso Olá a todos vocês, meus queridos Ozianos. O mês de Março passou agitado com semanas de provas e alguns trabalhinhos – para aqueles que leram minha despedida de Fevereiro (Dear February), sabem que eu estou lutando para terminar um fichamento de Direito do Trabalho. A batalha está quase ganha. Falta pouco – porém, eles não me impediram de apreciar uma valiosa leitura! É com grande prazer que venho até vocês a fim de dividir os meus pensamentos acerca de: Wicked de Gregory Maguire. Publicado pela primeira vez em 1995 – MEU ANO, OBRIGADA DEUSES DA LITERATURA – e com nova tiragem aqui no Brasil, na minha opinião, após o sucesso do musical nos palcos nacionais. Certamente, o fato de que um ano depois ainda não superei a minha experiência no Teatro Renault, assistindo Fabi e Myra, foi o grande desencadeador da minha leitura.

Comparando peça e livro, a adaptação em si, vários elementos foram deixados de lado, ainda que a essência tenha sido preservada; o que nos trouxe outros três livros para a coleção intitulada: Wicked years. Estes três não traduzidos, ainda. Assim espero. Bem, logo como a essência preservou-se, torna-se seguro dizer que Wicked, por si só, é uma grande crítica… Maguire utilizou muito bem a obra de Frank Baum (autor do Mágico de Oz) e própria análise que ela oferece a uma época da história americana, para lançar novidade e enaltecer outras mazelas. Sempre haverá o que analisar e satirizar no mundo a fim de que se crie uma obra literária de valor. Em Wicked temos a metáfora do preconceito racial na cor verde de Elphaba, temos o fanatismo religioso e suas consequências, também a convivência de várias religiões em um mesmo meio, regimes políticos, golpes de Estado, autoritarismo… Oz é quase um reflexo do nosso mundo, o Outro Mundo.

 De certa forma, foi tanto um erro quanto uma gratificação ter assistido ao musical antes de ler a obra. Erro porque, gostando ou não, certas expectativas de que o que foi adaptado acabasse por se tornar o que realmente acontecia a alguns personagens queridos, tornou-se inevitável. Prometo não dar spoilers, mas… enquanto as lágrimas que derramamos ao final de “For Good” são de uma melancolia até alegre, aquelas que derramaremos aqui são dor pura mesmo. A amizade de Elphie e Glinda é bem menos doce e muito mais ácida. Embora seja indubitavelmente verdadeira, a nossa bruxinha tem um claro crush nela, há no caráter de Elphaba a falta de algo que se percebe muito mais através da leitura. Diz-se que seja a falta de uma alma… assim ela clama. Porém, é muito mais a falta de amor genuíno. Todo o ressentimento que se percebe no musical dentro da família de Elphie é escancarado em pura disfuncionalidade, ressaltado pelas zombarias feitas em voz alta pela personagem que só conhecemos no livro: Babá. A típica pessoa que sabe o que se passa no ambiente e não fica calada a respeito.

Percebemos que Fabala – apelido de infância de Elphaba – chega a Shiz muito menos ingênua acerca das intenções do mágico e deveras mais disposta a desafiar Madame Morrible – traduzida como Morrorosa, RAXEI. Glinda é ainda a menininha do sul preocupada com a imagem, com as amigas cochichando e falando mal de sua colega de quarto. Contudo, tal qual o musical, a constante luta política de Elphaba e sua crença de que Glinda é capaz de pensar, entender tudo tão bem quanto ela, aos poucos vão tornando-a mais humana… especialmente numa fatídica cena envolvendo sua ama, Ama Clutch. Não vinga, todavia, vez que ambas as amigas se separam durante vários anos e ao se reencontrarem já não são mais as mesmas pessoas, apesar de terem um adorável momento no qual se torna visível que, não fosse a situação política – Dorothy acaba de chegar, Nessa está morta e Elphie quer os sapatos, o Mágico tenta comprá-la – elas teriam feito melhor partida. Doeu ler…

Enquanto caminhava pelo átrio de Solos de Colwen, ela cruzou de novo com Glinda. Mas as duas mulheres evitaram os olhares e aceleraram o passo em direções opostas. Para a Bruxa, o céu era uma enorme pedra a pressionando. Para Glinda, era mais ou menos o mesmo. Mas Glinda se virou e gritou:
– Ah, Elfinha!
A Bruxa não se virou. Elas nunca mais se viram.

Algo que me surpreendeu muito, tendo assistido ao musical e lido O Maravilhoso Mágico de Oz, bem como assistido o filme de 1939 – do qual Maguire também pegou várias inspirações, especialmente a de manter os sapatinhos vermelhos e não prateados como no original – foi o quão sexualizada Oz acabou se tornando. Digo… O Mágico de Oz é um livro infantil, não é? E Wicked – O MUSICAL, ainda que possua uma implícita cena de sexo dentro da floresta entre Elphaba e Fyero, não deixa de ser algo “family friendly”. O livro, porém… é bastante explícito em vários momentos. Na verdade, o pai de Elphie é ministro de uma religião – o unionismo – e luta contra a crescente fé no prazer – isso mesmo! – Esta fé nos leva a uma cena num “Clube de Filosofia” que… MEU DEUS! E interessante porque neste momento em particular, Glinda queria ir ao clube com Bock e outros amigos dela e Elphie, mas esta a puxa de volta para o dormitório afirmando que ela não tem nada que se meter na fé no prazer.

A chegada de Dorothy deixa de ser um esquema do Mágico e de Madame Morrorosa, para se tornar algo profético. Ainda na faculdade de Shiz, Elphaba se unira ao Doutor Dillamond a fim de descobrir sobre o que acontecia aos Animais – escritos com letra maiúscula para representar aqueles com alma e, portanto, capacidade de consciência – e durante suas pesquisas, encontrou uma imagem de certa deusa segurando um monstro, uma criatura que anos mais tarde, muito a lembrariam de Dorothy e Totó. A menina chega ganhando a simpatia de todos em Oz, o que leva alguns a murmurarem que ela era uma princesa há muito congelada, esperando o momento para retirar o Poder do Mágico. A já clamada Bruxa Má do Oeste, no entanto, não entende qual o charme de uma caipira como aquela… até estar cara a cara com Dorothy e entender o que via em seus olhos… via a si mesma quando tinha aquela idade e andava com seu pai, enquanto ele catequizava.

Não… e agora seu olhar encontrou o velho espelho cansado, apesar de suas intenções. Ela pensou: a Bruxa com seu espelho. Quem vemos senão a nós mesmos, essa é a maldição – Dorothy se parece comigo mesma, naquela idade, qualquer que seja…
Eu me vejo ali: a testemunha criança, com olhos arregalados como Dorothy. Encarando um mundo tão horrível para compreender, acreditando – por ignorância ou inocência – que por trás desse contrato indestrutível de culpa e censura sempre há um contrato mais antigo que pode obrigar e desobrigar de um jeito mais saudável. Um precedente mais antigo de resgate, que nem sempre precisamos ser atormentados pela nossa vergonha. Nem Dorothy nem a jovem Elfaba podem falar sobre isso, mas a crença está no rosto de nós duas…

– Ela parece uma coisinha medonha – disse a Bruxa. – Ozma, Dorothy… toda essa conversa sobre crianças salvadoras. Sempre detestei isso.

– Sabe o que é? – perguntou Boq, pensando com cuidado. – Como estamos falando dos velhos tempos, eu me lembrei… você se recorda daquela pintura medieval que eu encontrei na biblioteca em Três Rainhas? Aquela com a figura feminina embalando uma fera? Havia um tipo de ternura e espanto naquela pintura. Bem, há algo em Dorothy que me lembra aquela figura sem nome. Pode-se até chamá-la de Deusa Inominável… Isso é um sacrilégio? Dorothy tem uma caridade suave em relação ao cachorro, uma bela ferinha ameaçadora. Você não acreditaria como é repugnante. Uma vez ela colocou o cachorro nos braços e se dobrou sobre ele, cantando, exatamente na mesma pose que aquela figura medieval. Dorothy é uma criança, mas tem um peso nas atitudes que parece um adulto, e uma gravidade que não se encontra com frequência nos jovens. É muito apropriado, Elfinha. Fiquei encantado por ela, para dizer a verdade. – Ele quebrou algumas nozes e macarândias do leste e passou adiante. – Tenho certeza de que você também ficará.

Espero ter a paciência para conseguir terminar a série, mas posso dizer que, enquanto livro solo, Wicked é grandioso por si só. Nos aproxima mais da “vilã” que foi a Bruxa Má do Oeste e engrandece a terra de Oz, muito maior do que provavelmente seu pensador esperava que fosse. Libertando-a da fantasia e mergulhando-a em um misticismo sombrio, controverso e demasiadamente real.

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xoxo

É Melhor Não Olhar

Gostaria de começar esse post pedindo para que vocês:

Não seguirão meu conselho? Pois muito bem, espero até o final deste post conseguir nada mais do que explicar todos os livros pelos quais vocês não devem, em hipótese NENHUMA, ler sobre a vida dos irmãos Baudelaire. Afinal, se você gosta de histórias com finais felizes, em que os mocinhos sempre triunfarão sobre o mal ao final do dia, certamente não deve ler este livro, mas sim aquele outro… como era mesmo o nome? Ah sim, “O Menorzinho dos Elfos”. Eu recomendo mil vezes mais que você vá ler este livro e desista completamente da empreitada de acompanhar as desventuras dos Baudelaire. Violet, Klaus e Sunny. Quer dizer, quem em sã consciência gostaria de ler sobre…

Uma menina de 14 anos com grandes habilidades de inventora, um garoto de 12 anos com um gosto voraz para leitura detentor de grande capacidade para resolver enigmas e memorizar fatos, uma bebê com valiosos dentes capazes de triturar qualquer superfície dura a que tiverem acesso e também, no futuro a serem revelados, dotes culinários. Não. Realmente estas não são as pessoas sobre as quais gostaríamos de ler. Principalmente após terem suas vidas arrasadas por um incêndio que lhes custaria os pais e também o lar… de que nos importa tais infortúnios? Um agente de banco, Sr. Poe, indiferente, apático as mandou morar com um homem pérfido e inescrupuloso que, apesar de ter sido desmascarado, continua a perseguir os meninos por treze livros, colocando-os nas mais detestáveis situações? O que temos com isso? Não é problema nosso.

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O senhor Lemony Snicket passou muito tempo pesquisando e catalogando fatos a respeito destes acontecimentos, como recorrentemente insiste em nos lembrar, mas isso não quer dizer que devamos nos interessar, não é? Não quer dizer que devem ou merecem ser lidos. Ele brincou com a sua inteligência parecendo criar uma fórmula durante os seis primeiros livros, inserindo pequenas dicas aqui e ali indicando que tudo se trata de algo muito maior, e depois reviravoltar para estrondosos definidores de caráter tanto para nossos heróis quanto para nossos vilões? Aff… nem um pouco interessante. Gosto de livros com personagens previsíveis e sem nenhum mistério. São os melhores não é mesmo? Do que me importa descobrir o significado de C.S.C, qual a real ligação entre Lemony e a famosa Beatrice, qual a motivação do Conde Olaf, o que é e o que está dentro do maldito açucareiro? Os Quagmire estão vivos? Eles se reencontraram com os Baudelaire? Não. Não preciso saber de nada disso. É inteiramente dispensável.

Ah, e sentimento. Quem precisa disso? Eu não gosto de livros que me fazem criar tamanho vínculo com as personagens ao ponto de me acabar em lágrimas quando, talvez, só uma hipótese, estão na cadeia em pleno aniversário de um deles. Não. Isso nunca aconteceria, porque livros construídos para catarse entre leitor e personagem são os PIORES. Pessoas presentes nas histórias de seus livros não deveriam ser interessantes… relatos sobre corações partidos, o crescer forçado de uma criança fora de sua zona de conforto, não não, “O Menorzinho dos Elfos” com certeza é a melhor pedida. A constante provocação para certas hipóteses e a falta de respostas concretas que nos levam a raciocinar e nos envolver ativamente na história, não, BORING.

Pessoas nobres são sempre os mocinhos. Vilões são sempre os piores exemplos de espécimes a cruzar a terra. É assim e ninguém deve cometer a audácia de lançar um outro olhar a respeito. Nós gostamos de preto e branco. Bom é bom, mau é mau. Um meio termo é tão impossível de ser alcançado, nem sei porque as pessoas ainda tentam. Quem gostaria de ler sobre personagens humanos luz e trevas dentro de si… detestável! É BEM melhor não olhar… pessoas puras, recatadas e do lar como vocês sequer deveriam estar se dando ao trabalho de completar a leitura desta resenha. E eu sinto muito por você que… embora receba estas palavras, ainda assim irá desafiá-las e abrir estes livros… sinto do fundo do meu coração… você não merece conhecer tantos infortúnios, quando poderia estar satisfeito com histórias cheias de finais felizes…

E bem, se também ousar olhar acreditando que vai encontrar um final feliz…

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O mundo aqui é sereno.

Lemony Snicket à parte, leiam!!!!

xoxo

Os Irmãos Karamazóv

Ano passado, tive a primeira oportunidade de conhecer Fiódor Dostoiévski com “Crime e Castigo”. Sua literatura, como pude perceber, é recheada de indagações elevadas a respeito do espírito humano, especialmente a sua relação com o divino. No primeiro caso, como o verdadeiro castigo e a verdadeira salvação provém de Deus. Em “Os Irmãos Karámazov”, enquanto último romance escrito pelo autor, vemos serem levantadas ainda outro mar de questões: a separação entre o Estado e a igreja, por exemplo, que a partir da vivaz terceira onisciente pessoa de Dostoiévski – quase assemelhada a uma primeira – percebe-se ser algo desaprovado por ele.

Os irmãos Karamázov é o último romance de Dostoiévski. No fundo, ele resume toda a criatividade do escritor, trazendo à baila as “malditas” questões existenciais que o afligiram a vida inteira, com especial relevo para a flagrante degradação moral da humanidade afastada dos ideais cristãos. Cheia de peripécias, a narrativa põe em foco três protagonistas irmãos, representantes dos mais diversos aspectos da realidade russa – o libertino Dmítri, o niilista Ivan e o sublime Aliocha -, a fim de alumiar as profundezas insondáveis do coração entregue ao pecado corrompido por dúvidas ou transbordante de amor.

Esta obra foi dividida em 12 livros e mais um epílogo, se iniciando com uma pequena biografia desta família russa que deverá nos ajudar a entender o passado e caráter de nossos protagonistas, assim como as suas motivações. É muito raro que um livro me conquiste desde o prólogo e esta foi uma destas bem-vindas exceções. Nele, Dostoiévski deixa claro quem é o seu verdadeiro herói, Aliocha, contudo, conforme a narrativa vai progredindo, fica cada vez mais claro que este não deveria ser um livro solo. É possível que a ideia do autor foi a de separar esta história em dois volumes, porém sua saúde não permitiu dar fim ao plano. Como resultado, aparentemente, temos a história não de Aliocha, mas de Dmítri.

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Dmítri, Ivan, Aliocha

De início, uma certeza: Fiódor Pavlóvitch Karámazov é alguém de quem não gostamos. Personalidade repulsiva e corrupta. Casado duas vezes com mulheres que foram notadamente infelizes, a segunda sendo taxada como louca. Dmítri Mítia Karamázov sendo seu filho mais velho e fruto único de sua primeira relação matrimonial, ao passo que Ivan e Aliocha compartilham o sangue de sua mãe. O primeiro sempre teve a pior relação com o pai e talvez porque ambos possuem traços de lascívia em suas personalidades. Em todo caso, a criação de Dmítri fora deixada à cargo do criado mais velho da casa de Fiódor: Grigóri, que ironicamente viria a ser seu grande algoz no futuro. Por fim, a oportunidade para se livrar do filho surgiu com a chegada de um primo da mãe de Dmítri: Piotr Alexândrovitch Miússov, que o levou para viver em Paris consigo ao perceber a indiferença do pai para com o menino. Longe das vistas do pai, o primogênito cresceu cheio de ares por acreditar que era herdeiro de uma grande herança, agindo como um verdadeiro bon vivant. Seu pai, sempre preocupado de que seus filhos viessem lhe tomar dinheiro, resolveu punir a ganância do mais velho enviando-lhe pequenas somas de dinheiro. Chegado o momento do acerto de contas, quando este atingiu a maioridade, Fiódor revelou-lhe que aquela soma era tudo a que tinha direito, três mil rublos ao total, os quais já havia gasto. Assim, achava-se destituído. Tal situação inaceitável o levaria a tomar suas próximas decisões…

Seus outros dois irmãos, Ivan e Aliocha, apesar de dividirem o mesmo sangue e o mesmo lar, não poderiam ser mais diferentes… como a vida tende a nos ensinar. Ivan frequentou uma universidade e ao retornar para casa, levantando muitas contradições por todos que conheciam a família, passou a representar a consciência e o juiz para as rusgas entre o irmão mais velho e seu pai. Apesar de todas as chances, Fiódor parecia se dar bem com este filho. No entanto, salvo engano, o único de que realmente parecia gostar e dissera amar – o que todos diziam amar – era Aliocha. Um anjo na terra. Crescido, recolheu-se ao mosteiro de onde tomava os ensinamentos do alto sacerdote Padre Zózimo, a quem amou como seu mais querido professor. Alma gentil e caridosa, por quem as mulheres locais detinham o mais alto respeito e dirigiam seus dilemas. O plano de Aliocha sempre parecia ter sido, de fato, seguir os passos de seu mestre dentro do mosteiro. Contudo, no início da história descobrimos que Zózimo está enfermo, prestes a morrer e antes que isso ocorra, como um favor a Aliocha, juntos tentam conciliar o pai com os irmãos. A reunião, é claro, sai extremamente errada e ao seu final, Zózimo tem um ataque final ao olhar para Dmítri e aparentemente prever as próximas decisões que tomará… suas últimas palavras a seu pupilo são para que ele deixe o mosteiro, pois ele pertence ao mundo. Talvez, ele houvesse de fato previsto os fatos seguintes e queria se certificar de que Aliocha estaria lá para socorrer sua família.

Certamente, para alguém que tinha pretensões de seguir os passos filantrópicos de um sacerdote, o caçula dos irmãos Karámazov demonstra possuir, ainda que contidos e menos exorbitantes do que os de seu irmão mais velho e pai, sentimentos tidos como lascivos. Mítia chega a dizer para seu irmão que ele não está isento da luxúria que assola os homens da família. Assim, temos um momento em que Aliocha confessa estar apaixonado por Lisa, sua amiga de infância e esta lhe devolve o afeto. Ambos trocam promessas para o futuro, mas por algum motivo acabam não cumprindo-as. Lisa o chama de covarde… e não a vemos mais. Provavelmente esta porcentagem da história deveria receber um final melhor num segundo volume, mas algo de que podemos ter certeza é que a natureza de Lisa é muito mais mundana e contraditória se comparadas com a bondade inerente de Aliocha. Dostoiévski, durante o prólogo do livro, disse que Aliocha é um herói que fica à margem e que por isso seria difícil para as pessoas acreditarem nele como tal. De fato, especialmente quando toda a motivação aparente da história circunda pai e filho mais velho.

Pois bem. O grande x da questão aqui é: pai e filho estão de olho na mesma rapariga, *risos*. Uma moça de nascença e caráter duvidoso, mas que na verdade apenas sofreu muito com a vida e não gosta de se deixar enganar, mas de manipular um pouco as pessoas como forma de realização pessoal, talvez. Em todo caso, Agrafena Alexandrovna ou Gruchénka é o motivo de grande desquite entre pai e filho. Ela brinca com ambos, apesar de Dmítri amá-la de verdade. Mesmo assim, este procura uma herdeira, Katerina Ivanova, a fim de se casar com ela… mas acaba lhe roubando dinheiro que foi-lhe confiado por ela  para que enviasse uma carta a sua irmã em Petersburgo. A partir desse roubo, nasce um rombo no coração de Mítia que deseja apenas quitar essa dívida para ver-se livre de Katerina e recomeçar com Gruchénka – embora ela não tenha lhe feito promessa alguma de que pretendia se casar com ele. Todavia, Katerina está obcecada por Mítia, num misto de amor e boa samaritânisse… apesar de estar claro que na verdade seus sentimentos reais são para Ivan, o irmão do meio. Em todo caso, neste luta por Gruchénka, o filho põem-se em várias vigílias na casa do pai para assegurar-se de que sua amada não vai visitá-lo, vez que se o fizer… sangue vai escorrer do pescoço de alguém ali… e isso se repete ao longo das noites…

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Ivan e Katerina; Dmítri e Gruchénka; Lisa e Aliocha

 Entrementes, temos o encontro de Aliocha com os meninos de rua, a publicação do artigo de Ivan… algo análogo ao que o autor fizera em “Crime e Castigo”; utilizar-se de algo que um personagem teria escrito e que soasse contraditório ou revolucionário, a fim de expor sua própria visão acerca das grandes questões que o atormentavam. Neste caso, seria a existência de Deus, questionada a partir daquela célebre frase: se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo, de Voltaire, e que se estende para também se questionar o dever do amor ao próximo e que nos leva ao maior questionamento relacionado a esta obra:

ele (Ivan Fiodorovitch Karámazov) declarou em tom solene que em toda a face da terra não existe absolutamente nada que obrigue os homens a amarem seus semelhantes, que essa lei da natureza, que reza que o homem ame a humanidade, não existe em absoluto e que, se até hoje existiu o amor na Terra, este não se deveu a lei natural mas tão-só ao fato de que os homens acreditavam na própria imortalidade. Ivan Fiodorovitch acrescentou, entre parenteses, que é nisso que consiste toda a lei natural, de sorte que, destruindo-se nos homens a fé em sua imortalidade, neles se exaure de imediato não só o amor como também toda e qualquer força para que continue a vida no mundo. E mais: então não haverá mais nada amoral, tudo será permitido, até a antropofagia. Mas isso ainda é pouco, ele concluiu afirmando que, para cada indivíduo particular, por exemplo, como nós aqui, que não acredita em Deus nem na própria imortalidade, a lei moral da natureza deve ser imediatamente convertida no oposto total da lei religiosa anterior, e que o egoísmo, chegando até ao crime, não só deve ser permitido ao homem mas até mesmo reconhecido como a saída indispensável, a mais racional e quase a mais nobre para a situação.

Então, se Deus não existe, tudo seria permitido? No entanto é muito bela a certeza que possui Aliocha de que ele, de fato, existe e que acaba convertendo algumas das pessoas que veem a cruzar seu caminho. Dentre estes estão os meninos de rua que acabam se familiarizando a Aliocha, muito embora este tenha possuído graves desavenças com um deles no início da história. Voltamo-nos, então, mais uma vez para o ciclo principal. Pai e filho e Gruchénka. Dmítri está cada vez mais desesperado em quitar sua dívida com Katerina, porém, acaba abrindo mão deste pedaço de si, desde que consiga arrumar os três mil rublos a que acredita ter direito e que também acredita terem sido roubados por seu pai, para fugir. Ele está dentro do jardim e vê seu pai olhando pela janela como se esperasse alguém. Mítia acredita que ele espera por Gruchénka, contudo, horas antes ele a havia escoltado para a casa de outra pessoa… ela não poderia ter mentido. Buscando sair para se assegurar, acaba sendo visto por Grigóri que o agarra e grita “Parricida”. Sem entender, Mítia tenta se livrar dele e o acaba ferindo gravemente na cabeça. Achando ter matado alguém, desespera-se e foge em busca de sua amada. Questiona a criada e acaba por fazer uma pequena viagem atrás de Gruchénka que partira atrás do homem que há muitos anos havia cuidado dela e por quem se apaixonara, um oficial Polonês.

Este que, contudo, acaba por tratá-la com indiferença frente a seus amigos em um bar. Finalmente, diante do estado de Mítia, ela aceita se casar com ele, afirmando-o que de fato o amara mais do que somente por uma hora. Ambos passam a noite no mesmo bar, com o mais velho Karámazov matutando sobre o homem que com certeza havia matado. Contudo, quando os oficiais os encontram a fim de prendê-lo, afirmam que fora seu pai quem ele matara. Alguém matara Fiódor Karamázov naqueles segundos em que ele estivera e não estivera na janela, não se sabe quem e suspeita-se de Smerdiakóv, suposto filho bastardo de Fiódor, criado por seus dois empregados e que teria todos os motivos para cometer tal assassinato devido a maneira como fora tratado durante seu tempo de servidão dentro da casa. Porém, de fato, nunca foi realmente descoberto quem e Mítia acaba sendo culpado quando é inocente… e nesse meio tempo, Ivan chega a enlouquecer… os motivos não irei revelar, porque quero que vocês leiam! O julgamento de Dmítri é maravilhoso! Para uma aluna de Direito ler, chega a ser um tapa na cara atrás de um tapa na cara, porque enquanto leitora, eu sei que ele é inocente, mas, se estivesse ali assistindo aquilo tudo… muito provavelmente, na falta de outro suspeito, visto que Smerdiakóv falece de um de seus ataques – ele era extremamente doente – logo após o ocorrido, também o teria chamado de culpado…

Que os juízes se interessavam pelo ocorrido não por um enlace moral envolvendo o caso ou pela pena que sentiam de Mítia, mas pelo simples fato de que aquele caso oferecia novas análises modernas para a jurídica russa e talvez mundial é… repugnante de certa forma. De fato, um estudioso, um cientista deve se animar frente a novas descobertas e os fatos que as propiciam a eles, mas, esquecer-se da própria humanidade das circunstâncias – como se espera que aconteça, tendo em vista a imparcialidade – foi um pequeno tapa na cara… pelo menos eu interpretei assim. E há uns tantos outros milhões de assuntos abordados dentro deste livro que, embora eu tenha gostado mais de “Crime e Castigo”, não posso não dizer que: enquanto obra da literatura mundial russa, “Os Irmãos Karámazov” é o romance melhor. Ele é mais rico. Mais forte. Portanto, não pode não ser lido.

O Detetive e A Mulher

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Em post anterior, comentei a respeito do “Um Pequeno Truque da Mente” de Mitch Cullin, aqui: Mr. Holmes – O cavalheiro solitário. Um livro baseado no universo de Sherlock Holmes e que explorava o período de aposentadoria de Holmes e alguns de seus demônios pessoais a partir da narrativa de seu último caso. A obra bastante sensível é bem sucedida em trazer novas nuances ao caráter da grande celebridade literária, já demasiadamente utilizado por seu criador, ao reuní-lo com novas personagens além do tão amado Doutor John Watson. Foi adaptado para o cinema e, embora a atuação de Sir Ian McKellen como Sherlock mereça todo o aplauso, o filme falha em realçar detalhes que apenas a prosa é capaz de passar ao seu leitor.

Aparentemente, existem várias obras mundo afora que se utilizam da figura de Holmes e alguns outros personagens do cânone, tendo eu mesma o feito em fanfics. E, até pouco tempo, só havia me deparado com a versão de Cullin e de Laurie King, com a saga de Mary Russell Holmes. Aconteceu que uma amiga autora de fanfics, e querida crítica do meu trabalho, me chamou a atenção para o trabalho de uma americana bem especial: Amy Thomas. Membro do honorável grupo Baker Street Babes, Amy escreve com Holmes, sim, mas sua identidade no papel é, impreterivelmente, Irene Adler. É a primeira vez, mesmo para os leitores do cânone, que a vemos tomar um papel mais ativo e independente da mente do detetive. A Irene de Thomas, de fato, sobressai aquele que deveria ser o nosso suposto protagonista e facilmente nos envolve no enredo dos três livros com seu ponto de vista. Um quarto livro já está em andamento, portanto, àqueles que se apaixonarem pela trilogia inicial, nada temam! Seremos presenteados com mais!

Infelizmente, os livros ainda não foram traduzidos para o português *pausa para o ooooh coletivo*, porém, a senhorita Thomas me revelou pelo twitter – ela é uma graça, pessoal! Responde os fãs, troca ideias, um amor! – que já está conversando com seus editores acerca da expansão das traduções de seus livros para mais línguas. Enquanto isso, me arrisquei na versão original mesmo e, devo dizer, não é uma leitura que requer o inglês mais arcaico. É uma leitura gostosa. Bem fluída. Como um Harry Potter e, ouso dizer, o próprio Sherlock de Conan Doyle. Bem, os livros são divididos entre capítulos na primeira pessoa de Adler e na terceira pessoa de Holmes, uma visível tática de preservar o andamento do caso e não entregar o principal mistério: o coração/mente/corpo/alma do pomposo detetive.

O início da narrativa nos traz, então, a figura de Adler em luto – externo, apenas – pela morte de seu marido, o notório Godfrey Norton. Só o que se sabia pelo cânone e adaptações é que Norton aparentava ser o típico advogado de classe média da era vitoriana, mas, gentil e apaixonado por sua noiva. Amy desconstrói totalmente essa imagem ilusória e a transfigura na de um marido abusivo bastante crível, visto que esses abusos acabaram em muito mais do que algumas marcas na pele de Irene, mas, na sua perda de autoconfiança e um pouco da garra que a tornou A MULHER para Sherlock Holmes. Falando no dito cujo, o caso deste livro se passará durante o período de hiato na saga sherlockiana: quando Holmes falseia sua morte na queda das cataratas de Reichenbach junto a Moriarty. Estando disfarçado, fazendo o mundo acreditar em sua partida desta para a melhor, mantém apenas a correspondência com seu mano Mycroft (<3), recebendo a tarefa de descobrir a identidade destes dois homens que estão atrás de uma tal senhorita ‘A’; ao passo que Irene retornou aos palcos, a música seu último alicerce… e sim, ela é a senhorita ‘A’.

Essa situação coloca-os juntos para a resolução do mistério cujo custo é a segurança física de Adler. Nenhum dos dois está confortável com isso. Nenhum dos dois confia no outro. Ainda assim, embarcam no velho arquétipo de “vamos fingir ser um casal” para resolver esse caso. A mentira até que funciona com a maioria do seu grupo de amigos – círculo que conta com a própria figura de Thomas Edison, famoso inventor. É interessantíssimo e deveras divertido assistir esse primeiro lampejo de dinâmica entre ambos. Os dois velhos inimigos que agora estão obrigados a trabalhar juntos e, sem perceber, acabam desenvolvendo uma profunda amizade. Como reitera Holmes, “Adler não é Watson”. Sem querer desmerecer o doutor, ela é bem mais proativa e disposta a brincar com o detetive, tornando-se muito divertida para nós. O ponto alto para mim é como sempre parecia estar com fome quando as coisas iam ficando tensas, ao passo que seu parceiro mal tocava em qualquer coisa que fosse.

A trilogia tem como base o nome “The Detective and The Woman” e não é para menos. Irene é a grande estrela desses livros, à medida que a vemos recobrar sua confiança. E o principal responsável por isso é Sherlock. Ao final do primeiro livro, ele lhe concede sua casa em Sussex Downs, onde Irene começa a cultivar seu apiário e vive uma vida mais pacata, campestre, mas que a preenche vividamente. À primeira vista, soa estranho que a glamourosa senhorita Adler, renomada cantora e atriz, se retire para o campo e escolha a apicultura como hobbie. Mais estranho que, ao final do livro, no epílogo, haja uma troca de cartas entre os protagonistas nas quais ALERTA DE SPOILER: admitem estarem interessados romanticamente um no outro e a palavra casamento é deixada implícita… porém, quando o segundo livro começa, nada disso é mencionado. Buscando explicação, indaguei a minha amiga que indicou o livro e ela me disse que o epílogo se passa anos depois e que o segundo livro volta a linha cronológica normal, ainda trabalhando melhor essa amizade entre os dois. Estranho, né? Mas, continua excelente. FIM DE SPOILER 

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O segundo livro, The Winking Tree, é, de longe, o meu favorito entre todos. Por quê? Explora um aspecto que amo da personalidade de Holmes: crianças. A forma como ele perde um pouco da frieza aparente para se relacionar com elas e acaba tratando-as com mais igualdade do que muitos de seus companheiros de idade. A garotinha em questão é Eliza, filha do fazendeiro cujo desaparecimento extraordinário fez com que Irene escrevesse para seu amigo a fim de que viesse ajudar nas investigações. O mistério, apesar de parecer simples, à primeira vista, traz até figuras da infância/adolescência de Holmes para a cena. Eliza, no entanto, é a cerejinha do bolo! Gente… que criança linda!! Charmosa, com aquela inteligência infantil deliciosa de ler! A passagem de tempo entre 1º e 2º livro nos permite visualizar melhor o crescimento de Irene dentro da pequena comunidade a qual passou a chamar de família/amigos/lar… uma síntese feita por um comentário de Sherlock, ao compará-la com uma abelha rainha. No que concerne a senhorita Adler, no entanto, o charme está em não saber disso.

Ele seguiu A Mulher para as colméias e assistiu enquanto ela interagia com as abelhas. Seus gestos eram calmos e intuitivos, perfeitamente em casa entre elas. Fazia sentido, ele pensou, pois ela era uma delas. Não, não uma operária. Ela era a rainha. Ele havia percebido durante aqueles dias de visita, o quão frequentemente as pessoas de Fulworth vinham até ela, se consultavam com ela, até a amavam. O pequeno chalé na colina estava rapidamente se tornando o centro de todas as coisas. O charme de Irene Adler era que ela não tinha nem ideia. Ela era a rainha totalmente inconsciente do fato de que o reino era dela.

Tradução direta do original por mim.

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Embora suspeite que muitos não ousarão enfrentar a leitura do inglês, espero que essas palavras o incitem a requerer a primeira cópia quando finalmente a tradução chegar nas nossas livrarias! Sendo assim, não quero dar muitos detalhes sobre os casos em si. Afinal, por mais intrigantes que sejam, a magia destes livros é justamente a forma como cada autor trabalha essas figuras históricas. Como colocam sobre eles traços originais seus, mas, ainda assim com a integralidade que teria satisfeito Doyle – eu espero/imagino. Nesse sentido, passamos para o terceiro livro – The Silent Hive. Aproveitando-se de um fio solto no caso “As Cinco Sementes de Laranja”, Thomas traz de volta a problemática da Kux Kux Klan, bem como outro personagem do cânone, para finalizar essa trilogia inicial, colocando Holmes em uma situação de saia justa ao vislumbrar pessoas de sua estima e confiança sendo usadas ao bel prazer de um sofisticado jogo de vingança.

As tramas de Thomas contêm tudo. São o pacote completo: a familiaridade que somente um ambiente conhecido e amado traz, mas com o frescor dos traços de sua caneta. É envolvente, carismático e sincero. Logo, por qualquer amante de Sherlock Holmes, merece ser lido.

xoxo

As Peças Infernais de Cassandra Clare

Primeiramente, gostaria de ressaltar que este post é um oferecimento da minha amiga escritora/blogueira Carol Santana, conhecida por mim como Padfoot, proprietária do fofo/bem escrito blog Horinhas de Descuido que vocês podem conferir através deste link: Horinhas de Descuido. Não. Nada me está sendo pago para fazer este pequeno Merchandise… se bem que um Ouro Branco viria a calhar neste momento… Enfim! Já há algum tempo, séculos talvez, quem sabe? Eu ouvi a Padfoot elogiar e elogiar uma dona chamada Cassandra Clare. Preferindo manter-me na minha bolha de ignorância (um local muito aconchegante, por sinal, onde ouvimos trilhas sonoras variadas continuamente), apenas ouvi-a falar sobre o assunto…

Até que, nos primeiros meses deste ano controverso (convenhamos, 2016 está sendo um ano controverso), enquanto fazia minha leitura de “Como eu Era Antes de Você” e me apaixonava por Will Traynor, resolvi fazer uma declaração de amor no Twitter. Obrigada Deus, Merlin, Athena por me fazerem recriar minha conta nessa rede social maravilhosa! Em resposta ao meu amor eterno, recebi uma reply da Padfoot:

E, através dessa troca de tweets, eu resolvi me entregar à trilogia “As Peças Infernais” de Cassandra Clare, formada por: Anjo Mecânico, Príncipe Mecânico e Princesa Mecânica. Sem nenhum preconceito com a autora, mergulhei de cabeça em sua Londres do século XIX e já me senti perfeitamente em casa, visto que: Londres + Século XIX = Amor. Lembro-me de que a minha primeira impressão ao ler o prólogo e logo em seguida o capítulo primeiro foi de puro medo. Talvez, mais até do que quando li alguns contos de terror de Poe, porque com ele eu sei o que esperar; enquanto escritor gótico, o terror psicológico já era algo a que estava acostumada; no entanto, com Cassandra, não tinha a menor ideia do que me aguardava e a atmosfera sombria do começo da narrativa me pegou completamente desprevenida. Resumo: Sra. Dark e Sra. Black entraram na lista de personagens da literatura de quem eu tenho medo. Se eu acordar no meio da noite e criaturas meramente parecidas com elas estiverem ao meu lado, eu morrerei com um ataque de pânico.

Tentarei me conter o máximo possível com possíveis spoilers. Dito isso: Nossa narrativa começa com a apresentação da jovem Tessa Gray, uma jovem cujos pais faleceram há muito e que foi criada por sua tia Harriet junto a seu irmão Nate em Nova York. Certo dia, seu irmão sai em viagem para Londres a fim de alcançar seus objetivos de “dar um futuro mais digno e uma vida mais confortável para a família”. Neste ínterim, Tessa escreve várias cartas ao irmão e continua a viver com tia Harriet, até o fatídico dia de sua morte. Pouco tempo após o ocorrido, ela recebe uma carta de Nate pedindo-a para vir para a Inglaterra. Tessa, sem nada que a segure no local onde está, embarca no navio e deixa sua querida América para trás. Chegando ao porto de Londres, quem a encontra não é seu irmão, mas uma figura assustadora ( AAAAAAH! SENHORA DARK!) que a leva até uma construção: A Casa das Irmãs Sombrias.

Lá, Tessa descobre que seu irmão foi abduzido por essas duas criaturas horrendas, as Irmãs Sombrias, e que nada de mal acontecerá a ele enquanto ela concordar em obedecê-las, permanecer na casa e treinar suas habilidades. Habilidades estas que a garota não sabia que possuía e sobre as quais suas tutoras não se designam a explicar a origem. Simplesmente a torturam incessantemente para que atinja a perfeição. Aparentemente, Tessa consegue realizar uma proeza nunca antes vista e certamente não da maneira que faz: através do contato com o objeto de um indivíduo, tanto vivo quanto morto, ela consegue assumir sua forma com todas as suas características, inclusive com acesso a alguns de seus pensamentos e memórias. Uma parte do enigma começa a ser desvendado por Tessa quando, depois de finalmente atingir um resultado considerado aceitável pelas Irmãs Sombrias, descobre que está sendo treinada para servir a um tal Magistrado. Este, que deveria se tornar seu marido.

Tomando conhecimento disso, nossa heroína de saias começa a tomar providências para uma fuga. Um cálculo de possibilidades. Como que enviado pela providência divina, nos surge Will Herondale. Rapaz de beleza estonteante, grande habilidade para decorar poesias e trechos de livros, fazer comentários hilários e lutar como um furacão. Mistura perigosa, hein ladies? Will aparenta estar bêbado, apesar de Tessa pontuar que ele não cheirava a bebida, em todo caso, ao vê-la ali, começa a lhe fazer perguntas. O resultado é uma fuga conjunta, bem como a descoberta de que A Casa das Irmãs Sombrias era um bordel. Fugindo, o senhor Herondale leva sua companheira até o Instituto, onde conhecemos o melhor ser humano do mundo: Charlotte Branwell. Tessa, então, vê-se envolvida por uma trama que, até ali, só considerara ser possível nos vários livros que lera ao longo da vida (sim, nossa protagonista é uma leitora voraz). No Instituto vivem os Caçadores de Sombras, Nephilims, de Londres, liderados pela incrivelmente pequena e aparentemente jovem Charlotte e seu marido sem um pingo de autoridade mas igualmente INCRÍVEL/ADORÁVEL, o inventor visionário, Henry Branwell. Acho que já deixei claro quem são meus personagens favoritos, né?

Os Caçadores de Sombras são pessoas marcadas com o sangue do Anjo Raziel e que dedicam suas vidas à captura e extermínio de Demônios a fim de proteger os mortais (NÓS!). Ao mesmo tempo, existem uma série de Acordos e Leis que regem as relações entre Nephilims, Feiticeiros, Vampiros, Lobisomens, Fadas e Demônios. Quero dizer que, apesar da minha explicação soar vaga e muito whatever, na verdade, há, de fato, uma enorme lógica no mundo de Clare e nas relações entre essas variadas raças. Leis muito rígidas e que acarretam consequências absurdamente terríveis quando quebradas… não vou dar spoiler, mas; segundo livro, uma personagem faz uma cagada e é punida… ser humaninhos… foi nível Umbrigde, para dizer o mínimo! Os três livros são igualmente bons, mas, o primeiro foi o meu favorito, pois acredito que teve a dose certa de tudo, mas, para explicar esse ponto, vamos continuar.

Além dos Branwell, Tessa e Will, temos também James Carstairs ou simplesmente Jem. Rapaz de compleição quase angelical, de cabelos prateados e olhos igualmente brilhantes; apaixonado por música, especialmente seu violino, e melhor amigo de Will. Para compor a última personalidade que se encontra no Instituto ainda como aprendiz de caçador, temos Jessamine Lovelace. Resumindo: um projeto de Regina George, mas com seus momentos , nos quais realmente somos capazes de sentir empatia por ela… raros momentos. Já disse que esse ser humano me rendeu sentimentos contraditórios? Em todo caso, em se tratando do primeiro livro, eu ODIAVA a Jessie. Ainda não a amo totalmente, mas… OPA! SPOILER! Deixa quieto. Leia os livros e venha conversar comigo depois. Em todo caso, o que me chamou atenção foi que todos esses três aprendizes, Will, Jem e Jessie, muito diferentes entre si, tiveram uma jornada muito tortuosa para chegar até ali, se compararmos com a de Charlotte, por exemplo. Ela herdou a liderança do pai dela… não fugiu de casa, seus pais não morreram forçando-a a ficar ali e ela certamente não estava sendo caçada por um demônio e precisava de uma droga oriental para sobreviver!

Algo que com certeza valorizei na escrita de Cassandra e que me faz relevar uma crítica pessoal que farei a respeito dessa trilogia, aos olhos de tantos, perfeita: o quanto seus personagens, sem exceção, foram cativantes. Dos vilões até a criada de cozinha. Eu me deixei ser envolvida por cada um deles e suas personalidades. E até alguns que julguei serem incapazes de serem desenvolvidos para além de sua aparente função na trama, me surpreenderam no fim! De fato, esse talento tão visível que ela tem de criar personagens críveis e amáveis me leva a querer buscar novas obras de sua autoria, quando acreditei que só leria esta trilogia e pronto. Meu relacionamento com Clare já estaria completo, posso morrer feliz. Não. Estou curiosa! Quero ver mais! Deixei-me ser levada pelas mesmas opiniões dos protagonistas, no primeiro livro, durante a resolução de um “mistério” envolvendo Tessa e quando a verdade chegou, eu realmente não a vi vindo! Não foi como “O Chamado do Cuco” em que, sem nenhuma arrogância, desvendei a identidade do assassino já nos primeiros capítulos. Não! Aqui, a autora me fez experimentar a mesma reação que os seus personagens! E foi ótimo! Pela primeira vez na vida, fiquei contente em ser enganada! Ok… acho que isso foi um possível spoiler… perdão…

Bem, a minha crítica. É óbvio que eu adoro um bom romance; uma bem contada história de amor. As Peças Infernais não falha nisso. Contudo, assume um risco muito alto. Pessoalmente, nunca fui muito fã de triângulos amorosos, o que temos com Will, Jem e Tessa, a partir do segundo livro. Apesar de ter sido bem escrito e bem trabalhado, senti que tomou uma grande parte do que eu gostaria de ter visto sendo usada para desvendar o passado de Tessa e em planos para destruir o Magistrado. No primeiro livro, como disse, a dosagem foi perfeita. Ainda não tínhamos um triângulo amoroso, mas, tivemos o começo do enlace entre a nossa protagonista e seu sir Galahad (como Will se autoproclama ao resgatá-la da casa das Irmãs Sombrias); este romance ficou perfeitamente justaposto com o desenvolver do mistério e de ações para resolvê-lo. No segundo livro, talvez não necessariamente no terceiro, tivemos, sim, excelentes diálogos energizantes em que a história andou e se desenvolveu, mas apenas um grande clímax ou uma grande batalha épica ou momento em que a atenção de Tessa não estivesse voltada para seus sentimentos. Posso estar sendo muito “mala” ao falar assim. Outros que leram e adoraram podem discordar, defender que o ritmo escolhido por Cassandra foi o melhor para o andar de sua obra, e por mais que no fim tenha funcionado, acredito que ela sabia que funcionaria não pelo ritmo em si, mas pelo carinho dedicado aos personagens. Cada um deles teve tempo para resolver suas pendências de forma que, ao final, tudo fez sentido. Cada escolha, a personalidade com que chegaram até ali, tudo se encaixou perfeitamente.

Tão perfeitamente que, o fato de ter se focado num triângulo amoroso ou não, pouco importa. Ficamos até o fim porque queremos saber tudo o que pudermos sobre essa família, pois é isso o que os Caçadores do Instituto de Londres se tornaram ao final, uma grande família; tendo eles parentes vivos ou não do lado de fora do Instituto. Para sempre eu me lembrarei de Tessa, Will e Jem; Henry e Charlotte,  de Sophie, Thomas, Bridget, Cyril, Gabriel, Gideon, Sra Black e Sra Dark, Magnus, Camille e até mesmo de Jessamine Lovelace. Durante o epílogo, porque esta é uma trilogia que antecede a Cidade dos Ossos, fiquei imaginando se, neste outra, haveria menções dos protagonistas destas obras. Juro que se houver, lerei-as com prazer. Provavelmente até mesmo para ter novos personagens por quem me apaixonar, por quem torcer e por quem chorar… e acreditem, durante o último livro as lágrimas não foram poucas. Concluí essa saga com um enorme aperto e certamente meu luto literário vai durar por vários dias; o que é chato porque eu tinha uma programação de quantos livros ler nas férias, mas, é inevitável, acredito, um pouco do vazio que nós leitores sentimentos ao ver-mo-nos forçados a deixar um universo e seguir em frente…

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Afinal, fazia muito tempo desde que me permitia ficar até às 3:00 da manhã virando páginas e páginas… por sorte li-os no leitor digital ou meu pobre braço teria apodrecido ao segurar uma lanterna por tanto tempo. Em todo caso, Obrigada, Padfoot, por mais uma vez agir em meu benefício e me mostrar os caminhos da luz! Você é sempre boa com a sua Moony! Àqueles que leram e assim como eu, apesar das aparentes ressalvas, amaram, que lindo! Vamos discutir nos comentários! Para aqueles que também nunca haviam ouvido falar ou ouviram e não deram uma chance, eis a sua hora de tentar, não acha? Pelo Anjo, vocês não se arrependerão!

xoxo

Crime e Castigo

Fiódor Dostoiévski foi um grande romancista russo, cujas obras permanecem exercendo grande influência sobre seus leitores. Chamado de Romancista das ideias, seus escritos formam um compêndio de referências acerca de estados patológicos (doentes) da mente humana e que levariam a loucura, ao assassinato; a autodestruição do indivíduo enquanto ser. Desde “Gente Pobre” até seu último, o célebre “Irmãos Karamazov”, Dostoiévski explanou as suas filosofias ao mundo, sendo considerado talvez um dos pais do Existencialismo, e, ao fazê-lo, garantiu seu lugar ao sol junto a outros nomes da literatura russa.

Não me considero, em absoluto, dotada de grande habilidade acadêmica para analisar a obra deste mestre. Esta resenha, portanto, reunirá apenas as impressões de uma leitora mediana apaixonada por essa literatura. Para aqueles que não sabem, curso a faculdade de Direito e durante anos, desde o início desta jornada, ouvi professores e veteranos mencionarem a obra a que esta resenha fará referência: Crime e Castigo. Desse modo, eu já possuía uma tenra ideia do enredo do livro. Raskólnikov (um nome que não consigo pronunciar de forma certa, a menos que esteja lendo em voz alta *risos*) é o grande protagonista sobre quem recairá as questões existenciais exploradas pelo autor. A história é, na maior parte do tempo, narrada de seu ponto de vista, embora não em primeira pessoa, e ele a inicia nos deixando intrigados e suspeitosos sobre um tal negócio que deseja fazer.

Em poucas linhas, Dostoiévski nos traça o perfil de uma pessoa reclusa e “batida” pela vida. Contraditoriamente, no segundo capítulo o vemos com um repentino desejo de gente. De querer estar entre as pessoas e em um extenso diálogo com um estranho num bar. Este, logo se apresenta como Marmeládov e começa a relatar ao seu companheiro de mesa a trágica história de sua miserável existência. Seu problema com a bebida e como isso afetou sua esposa e filhos. Ambos dividem tal momento que, apesar de curto e singelo, se refletirá na vida de Raskólnikov pelo resto da narrativa. Um daqueles pequenos encontros que mudam nossa vida para sempre. No caso dele, imagino que gostaria de dizer que proporcionou-lhe a redenção; uma mudança de ideia sobre o negócio que iria executar. A essa altura, nós leitores já conseguimos deduzir que ele deseja cometer um assassinato, quando o vemos entreouvindo uma conversa entre dois estudantes a respeito de sua vítima: uma agiota.

Uma senhora de idade avançada, Aliona Ivânovna, que costumava realizar penhores. Rodion (primeiro nome do protagonista) a considerava nada melhor do que um inseto. Um mal social que deveria ser expurgado. Tal decisão é apenas reforçada ao receber uma carta de sua mãe. Vale dizer que Rodion nascera em uma aldeia distante da capital russa e fora enviado para lá a fim de completar seus estudos em Direito (coincidência? Acho que não!) numa espécie de salvador de sua família. Mas, eles eram pobres e, ao contrário de seu melhor amigo, Razumikin, quem se dispunha a realizar traduções para conseguir dinheiro extra, Rodion considerava-se tão genial que tais tarefas soavam-lhe insultos à sua capacidade. Portanto, no momento do recebimento da carta, ele não era mais um estudante, mas sim um ex-estudante, como explica a Marmeládov. Sua mãe lhe diz que sua irmã, Dúnia, está noiva de um homem influente, Piotr Pétrovich Lújin e comenta os enormes benefícios que o próprio Raskólnikov poderá receber pela união. Um emprego, por exemplo. O irmão logo percebe que ela o aceita pensando no dinheiro que estará trazendo para a família e no fardo que estará retirando dos ombros dele.

Revoltado, Rodion dá início ao planejamento de seu crime. Matar Ivânovna, pegar o dinheiro da velha e utilizá-lo, como ele diz, para uma boa causa: terminar seus estudos, talvez até dar uma boa vida a mãe e a irmã sem que esta tenha que se vender a um homem que não ama. Aqui, temos contato com algumas das filosofias do protagonista acerca do crime e da polícia, o que nos leva a uma enorme passagem que ganhou o primeiro destaque cor de rosa da leitura. Um trecho:

Raskolnikov cismava numa coisa: por que quase todos os crimes eram investigados e punidos com tanta facilidade e por que os rastros de quase todos os criminosos se tornavam tão manifestos? Chegou, aos poucos, a várias conclusões curiosas, em sua opinião, a causa primordial não consistia apenas na impossibilidade material de ocultar o crime, mas principalmente no próprio criminoso,  o qual se via exposto,  no momento do crime, a certo  enfraquecimento da vontade e do juízo, quase sempre substituídos pela fenomenal leviandade infantil, naquele exato momento em que ele mais precisava de raciocínio e cautela.

A partir destas divagações, ele passa a planejar seus passos, de forma a realizar o crime perfeito. Para tanto, escolhe sua arma. Um machado. Faz uma simulada visita aos aposentos da vítima para saber qual horário ela estaria em casa. Costura um fio dentro de um sobretudo para esconder o machado apropriadamente dentro da manga. Age calculadamente e sem hesitar, até atingir seu objetivo.

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Seu plano envolvia apenas a morte de Aliona, mas acaba também matando sua irmã Lisaveta que, inesperadamente, se encontrava na casa. Outros empecilhos surgem para dificultar sua fuga da cena do crime. É uma cena/trecho realmente tenso e cheio de suspense. Não vou spoilar ninguém, mas, claro, ele foge, do contrário o título só se concretizaria em metade: Crime e não teríamos o castigo, da forma como Fiódor nos relata e, a partir de sua fuga, temos uma reviravolta mudança e aprofundamento na reclusão de Rodion. O destino, nesse caso de nome Dostoiévski, “joga” as mais inquietantes situações para cima de Raskólnikov, literalmente para testar sua força de vontade em não ser pego. Sua mãe e irmã chegam na cidade. Ele é chamado na delegacia por uma dívida que estabelecera com a morta. Seus amigos o levam na casa de outros amigos. E, nesses dois últimos, a paranoia de Rodion é tão visível e palpável que chega a ser risível! Em resumo, ele chega a pensar: tenho que demonstrar tal e tal emoção, assim eles jamais suspeitarão de que cometi um assassinato. É dolorosamente divertido ver como Dostoiévski brinca com seu fantoche.

Já no começo da obra, a saúde do protagonista já está debilitada e, com o passar dos dias, chega ao máximo. O peso em sua consciência é tamanho que aos poucos o leva a querer confessar. Realmente chega a fazê-lo para Sônia, filha de Marmeládov. Outra prova viva de que se seu nome é Sônia num romance russo, você está destinada a uma história trágica. Ela, que vendeu sua virgindade em troco de uma forma de ajudar no sustento de sua casa, é uma espécie de espírito puro para Raskólnikov. Alguém que, além de sua irmã, ele deseja proteger e com quem se sente seguro em conversar. Eles acabam desenvolvendo um amor mútuo, mas tão tenro e sutil que, durante a leitura me peguei perguntando várias vezes se eles estavam apaixonados… talvez eu só seja lenta… Enfim, Sônia está sempre lá! E faz com que Rodion confesse, prometendo-lhe que também estaria lá quando ele saísse; quando finalmente poderiam ficar juntos. Chega a ser tocante como, no fim, aos pés da escada da delegacia, ele fraqueja e desiste de confessar, mas, basta olhar para trás e vê-la ali, insistente de que é o único modo dele alcançar a paz interior, retoma o caminho de antes e finalmente assume sua culpa para uma sala repleta de oficiais.

Outro ponto brilhante da narrativa e quase me fez virar uma madrugada, foram os diálogos entre Rodion e Porfíri, o inspetor de polícia. Este, poderia até ser considerado o vilão da obra, não fosse a presença do noivo de Dúnia, mas, logo chegamos nele. Enfim, quando juntos na mesma sala, é quase como assistir Holmes e Moriarty numa disputa de quem é o mais esperto. No entanto, há momentos em que é notório como Porfíri já sabe da culpa de Rodion, simplesmente porque sua doença piorou demasiadamente desde a noite do assassinato e ele sempre parece estar prestes a desmaiar quando o forçam a pensar no ocorrido, e ao invés de simplesmente prendê-lo, ainda lhe concede o benefício da dúvida. Ele admira Raskólnikov de certa forma, deseja entendê-lo. Isso fica claro ao citar um artigo científico de autoria do ex-estudante, no qual ele expõe sua teoria: Raskólnikov acreditava que as pessoas estavam divididas entre “ordinárias” e “extraordinárias”: as ordinárias deviam viver na obediência e não tinham o direito de transgredir as leis, ao passo de que as extraordinárias (notadamente Napoleão) tinham o direito, não declarado, de cometer crimes e de violar leis, desde que suas intenções, se fossem úteis à humanidade como um todo, o exigirem.   

Várias vezes ele é citado durante a obra, aos poucos, até que no confronto final o temos em completo e finalmente entendemos porque Aliona era para Rodion um inseto e porque ele a matou e, mesmo depois de todo o terror psicológico que sofre após tê-lo feito, insiste em dizer que não se arrepende. 

-Será que, indo assim enfrentar o castigo, não lavarias metade do teu delito?
-Delito? Mas que delito? – bradou ele, de chofre, num rasgo de fúria. – O Delito é ter matado um piolho vil e maligno, aquela velha usurária de que ninguém precisava e que sugava o sangue dos pobres, tanto assim que quarenta pecados seriam  perdoados a quem a matasse?

Esse diálogo com Dúnia é o seu momento final com a irmã, no qual ele demonstra ser seu único arrependimento o fato de descobrir que era, na verdade, não um dos “extraordinários”, mas sim um “ordinário”. O vilão, no sentido universal da palavra, é Lújin, noivo de Dúnia e que pretendia casar-se com ela afim de torná-la sua esposa troféu. Em outras palavras, ao se casar com uma moça pobre, ele estaria garantindo a adoração da mulher que, em sua mente, deveria passar o resto da vida a adorá-lo e assentir com suas decisões, visto que demonstrara grande desprendimento de caráter ao escolhê-la ao invés de uma dama de Petersburgo. Afinal, Dúnia não só era pobre, como também acabara se envolvendo em uma fofoca nefasta em sua cidade natal ao, como governanta de uma casa, ser acusada de seduzir o marido, Svridigáilov, de sua patroa. Quando, na verdade, fora este quem a tentava seduzir. Tudo foi resolvido entre ela e a mulher, mas, Lújin ainda esperava tirar proveito da situação, subjugando a noiva e ao se desentender com seu irmão, fazendo-a escolher entre os dois.

Nesse ponto, Dúnica se mostra um verdadeiro monumento feminista. A forma como termina tudo com Lújin é tão satisfatória e o deixa tão deliciosamente incrédulo de que seu plano poderia ter falhado, só me restaram as palmas. Aliás, dentre tantos diálogos e momentos memoráveis com Raskólnikov, o de mais aflição para mim foi quando Svridigáilov chega na cidade e marca um encontro com Dúnia. Ele entreouvira a confissão de Rodion para Sônia e pretendia contar tudo para a outra; numa conversa prévia com Raskólnikov, afirma ainda estar apaixonado por ela, realmente apaixonado e que o dinheiro que sua esposa lhe deixara (ela COINCIDENTEMENTE morre pouco tempo depois do incidente com Dúnia, vejam vocês… Adivinhem quem matou?) deveria ser entregue a Avdótia Românovna (eu estive usando o apelido Dúnia por uma razão, certo?). Ela comparece ao encontro que marcaram, sem querer acreditar em uma palavra do calhorda e, num dos momentos mais aflitivos da minha vida, chegou muito perto de ser estuprada.

Como meu primeiro Dostoiévski, devo dizer que foi uma leitura pesada, mas envolvente. Quando engatada e embalada pelos diálogos bem construídos, é impossível parar.

xoxo

 

Once Upon a December…

Essa resenha vai começar com uma exaltação aos livros físicos. Por quê? Deixa eu explicar meu dilema para vocês. Durante a minha leitura de “As Irmãs Romanov: a vida das filhas do último Tsar”, realizada em um leitor digital, executei várias marcações em pontos que considerei interessantes desta biografia a fim de utilizá-los como citações para ajudá-los a entenderem meus sentimentos relacionados a estas pessoas, os Romanov. No entanto, como um castigo do além, só pode, hoje, quando fui checar, todas as minhas marcações haviam desaparecido. Se fosse em um livro físico, os post it estariam lá ainda, lindos e glamourosos… Vocês não têm ideia do que eu estou passando enquanto digito essa resenha que agora não ficará tão incrível quanto deveria…

Dito isso, vamos lá. Darei o meu melhor.

Reconhecem o título? Pois é, toda criança humana dos anos 90 deve ter assistido ao filme da Twenty Century Fox (NOT DISNEY) intitulado “Anastácia”. Um dos meus favoritos da infância e com certeza da vida toda, que como alguns outros, baseou-se no boato de que Anastasia Nikolaevna Romanova teria sobrevivido ao fuzilamento da família real pelos bolcheviques. Contudo, como todos nós descobrimos eventualmente, o filme apresenta uma enorme série de falhas, acabando na pura ficção. Isso não tira o seu mérito, afinal, eu só fui me interessar por história russa, depois que assisti “Anastasia” mais de dez vezes. Além disso, a trilha sonora é fantástica! Meus filhos assistirão. Fim.

Enfim, porque comentar a animação? Pois existe um ponto bastante explorado nela que se mostrou, ao menos nesta leitura, algo de certa forma mentiroso. À frente, eu explico. Helen Rappaport é uma historiadora britânica, formada na Universidade de Leeds, ex-atriz, especializada na Era Vitoriana (<3) e na Rússia Revolucionária. O gênero biográfico nunca esteve entre os meus favoritos. Digo isso, porque não foram muitos que eu li ao longo da minha história como leitora. De fato, meu primeiro contato com o gênero foi em uma biografia sobre a Marilyn Monroe e, logo em seguida, uma sobre a Duquesa Georgiana de Cavendish (sabe aquele filme “A Duquesa” com a Keira Knightley? Então, essa mesma!). Estas, no entanto, eu li saltadas, não em sequência, como fiz com algumas memórias de Jane Austen.

Contudo, tais memórias apresentavam um estilo que beirava a ficção. Baseado em diários e cartas antigas, o autor criara uma estória para Jane. Algo muito diferente acontece no livro de Rappaport. Como historiadora, ela teve acesso aos vários diários de Nicolau, Alexandra, das quatro grã-duquesas e até mesmo algo escrito pelo Tsaverich, o pequeno Alexei. As citações seriam exatamente de trechos destes diários (ainda com ódio), mas enfim, o livro se chama “As Irmãs Romanov”, mas seu relato começa antes do nascimento das quatro irmãs, com a vida da tsarina Alexandra, como viria a ser chamada após a conversão religiosa, mas que nasceu Alice de Hesse, neta da Rainha Vitória.

Um casamento com o início conturbado, devido a desaprovação da avó de que sua neta realizasse uma união com o trono russo e também aos receios religiosos da própria Alice. Ela era luterana e a Rússia era Católica Ortodoxa. Também uma mulher de saúde extremamente debilitada. Em resumo, não a mais indicada para se tornar Tsarina de uma Rússia tradicional e que voltaria todos os seus olhares maldosos para ela, caso não fosse capaz de dar-lhes um herdeiro. A velha ladainha de sempre, a qual já estamos acostumados de ouvir em pelo menos 6 a cada 10 filmes de época. Contudo, Nicolau estava apaixonado por Alice e decidido a se casar com ela. Seria uma das poucas vezes em que uma união “real” envolveria sentimentos. Por fim, aconteceu. Eles se casaram, Alice virou Alexandra e a corte russa já torcendo o nariz para uma monarca inglesa “tão delicadinha”.

Pouco tempo após o casamento, veio a primeira gravidez e um trabalho de parto conturbado que trouxe ao mundo a grã-duquesa Olga. Recebida com grande alegria por seus pais, mas nem tanto pela corte e população. O mesmo aconteceu com as outras três, na altura em que Anastácia nasceu, o povo já começava a odiar Alexandra; por ter se mostrado incapaz de gerar um menino. Os monarcas, no entanto, embora soubessem da posição difícil em que se encontravam, especialmente a tsarina, não se importavam. Afastados do mundo no palácio Tsarkoe Seló, viviam tranquilamente como uma família. Esse afaste é o que eu considero um dos maiores erros do Tsar. Certamente, me enternece o coração saber que, o Nicolau do Domingo Sangrento, era um bom marido, bom e amado pai; todavia, ele não era apenas isso. Voltar-se completamente para a vida doméstica não é o que se espera de uma figura pública. Na verdade, nem a atitude de Alexandra fica atrás. É claro, ela possuía seus trabalhos em hospitais e instaurou bons projetos, mas ninguém os via. A família real viria a se tornar um dos grandes mistérios do império.

8-10
Alexei recém-nascido com suas irmãs

Para atender as preces da tsarina, um menino veio. Seu quinto filho e, graças a Deus, antes que sua condição delicada a impossibilitasse de dar a luz. Contudo, a criança trouxera com ela um dos males do ducado de Hesse. A hemofilia. Durante seu crescimento, Alexei Nikolaevich viria a sofrer vários ataques devido a doença e não por falta de cuidados. Desde que descobriram a hemofilia, um médico ficaria sempre a disposição do menino. Porém, o que parecia mesmo curá-lo, eram as orações de Grigori Rasputin. Sim, o vilão da animação foi, na verdade, o grande salvador de Alexei, até a sua morte. Existe alguma biografia apenas sobre ele? Sinceramente, eu preciso ler. Este livro e talvez nenhum, foi capaz de me esclarecer a relação entre o “homem-santo”, como o chamava Alexandra, e as crianças imperiais.

Sendo um camponês, muitos dos membros da família e da própria corte, foram contra a convivência do homem com os pequenos. Seus modos rudes e propensões perniciosas seriam uma má influência. Contudo, do que consta nos diários das duas grã-duquesas mais velhas, Tatiana principalmente, Rasputin foi para eles um sacerdote com quem discutiam as questões religiosas do mundo. Olga, por mais que o admirasse e fosse grata pelo que fazia por seu irmão, notava como sua presença na vida de sua mãe não era positivo. Fez com que ela desenvolvesse uma fé exacerbada e quase doente. No entanto, como não? Seu filho, em momentos de crise, sangrava copiosamente. Um homem, entre tantos médicos e especialistas, se ajoelhava junto ao seu corpo e rezava fervorosamente. Minutos depois, deixava o quarto e se dirigia a ela dizendo “o menino viverá” e assim sempre era! Ele nem precisava ficar em sua presença. Houve ocasião em que por uma conversa de telefone, fora capaz de afastar as dores do garoto. Qual mãe zelosa e que reconhecia a importância de Alexei para a popularidade dos Romanov frente ao povo, não se encantaria com tal personalidade? Quem dissesse qualquer coisa contra Grigori era repudiado imediatamente.

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Anastácia, Tatiana, Alexei, Maria e Olga, respectivamente

Alexandra fizera questão de educar suas filhas nos moldes ingleses. Elas mesmas arrumavam seus quartos, vestiam-se de forma frugal, exceto em eventos oficiais e seus móveis e brinquedos não seguiam a moda opulenta russa, mas o estilo inglês. E, talvez, por viverem longe da corte, desenvolviam suas personalidades com mais liberdade. Ou nem tanta assim, pois Olga sofria diversas reprimendas sobre como sendo a mais velha, deveria dar o exemplo para seus irmãos e ajudar sua mãe na educação destes. Tatiana, a que todos diziam ser a mais bonita (eu, pessoalmente, prefiro a Maria), teve sua cota de amores platônicos e, durante a primeira guerra e trabalhos nos hospitais, era conhecida por ter o coração mais terno e o ânimo inabalável. Mais do que o da mais velha, que sob pressão, descobriu-se, herdara a condição delicada da mãe. Maria era estabanada. Minha citação favorita fora no diário de Nicolau a respeito de sua apresentação a sociedade. Aos olhos estranhos, ela “trupicara” tanto que parecia lhe faltar a graça de suas duas irmãs mais velhas. Por outro lado, para seu pai, fora especialmente divertido e a cara de sua Maria. Anastácia era animada e impossível de controlar. Fazia graça de tudo. Durante o início da transferência da família real pelos bolcheviques, todos sabiam que era ela quem mantinha os ânimos elevados com suas palhaçadas. E Alexei, como recorrentemente as citações deixavam claro, todos o achavam a criança mais bela e gentil. Com vários momentos de crises egoístas e mimadas, como todo filho mais novo e que eram rapidamente cortadas por seu pai.

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Maria, Tatiana, Anastácia, Olga e Alexei em trajes oficiais

É possível dizer que, embora o relato de Rappaport nos leve a simpatizar com a família, talvez com as crianças mais do que com os pais, nada desmerece o ocorrido de 1917. A desigualdade da Rússia imperial era gritante e a insatisfação popular era muita. Há uma citação de Alexandra (se eu a encontrar depois, editarei essa resenha) no período da primeira transferência deles para longe de Tsarkoe Seló, na qual ela faz um comentário extremamente autarquista e que realça a ideia de que não existe um lado só na história e que mesmo ela tendo sido uma mãe e esposa amorosa, seu coração nunca estivera com os cidadãos russos. Não desmereço os ideais da revolução, mas, uma passagem final me deixou enojada com o comportamento dos bolcheviques… Foi a última transferência. Antes de chegarem ao local de fuzilamento. Alexandra, Nicolau e Maria já estavam lá. Eles deixaram Olga, Tatiana, Anastácia e Alexei para trás, pois o menino estava doente e as irmãs, como ex enfermeiras da cruz vermelha deveriam cuidar dele até que estivesse bom para partir.

Da janela do trem Pierre Gilliard e Sydney Gibbes haviam esticado o pescoço para dar uma última olhada nas meninas ao entraram nos droskies que as aguardavam. “Assim subiram, uma ordem foi dada, e os cavalos partiram trotando com a escolta.”
Foi a última vez que as viram aqueles que haviam amado, servido e morado com as quatro irmãs Romanov desde a infância delas.

No caminho até Ecaterimburgo, os guardas costumavam se embebedar durante a noite e fazer comentários sobre o que “gostariam de fazer” com as grã-duquesas que, impedidas de fechar as portas dos compartimentos do trem onde dormiam por ordens deles, incapazes de dormir por medo, ouviam tudo noite adentro. Enfim, são muitos os detalhes e eu não mencionei sequer metade deles. É um livro que, para os amantes de história e da família imperial, merece e deve ser lido. A minha indagação ao final: “entendo” matarem o Tsar. Porém, matar as crianças? E ainda não consigo entender.

“Tudo estava pintado naqueles rostos jovens, nervosos: a alegria de ver seus pais outra vez, o orgulho de jovens oprimidas forçadas a ocultar seu sofrimento espiritual de estranhos hostis e, enfim, talvez, uma premonição da morte iminente […]. Olga, com seus olhos de gazela, lembrou-me alguma jovem triste em um romance de Turguéniev. Tatiana deixou-me com a impressão de uma altiva aristrocrata com ar de orgulho, pelo modo como fitava as pesssoas. Anastácia me pareceu uma criança assustada, aterrorizada, que podia, em diferentes circunstâncias, ser encantadora, despreocupada e afetuosa.”

Por fim, aquele detalhe que eu disse ter sido usado na animação: o amor da avó pela neta Anastácia e que para mim, na leitura, pareceu mentira, se explica pelo fato de que pouco se citou do interesse de Maria Feodoróvna pelas netas, se não para criticar a maneira como eram criada e como pouco se relacionavam em sociedade. Algo que me parece tão mínimo, quando penso em outras tantas provações sofridas por essas crianças…

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xoxo