A Essência do Ambiente Preferido – Essential Book Dezembro

Até agora no projeto Essential Book, tentei manter minhas escolhas longe de um lugar comum. A decisão sobre o meu ambiente favorito, contudo, não conseguiu se afastar muito dele… e acredito que nesse caso a minha previsibilidade vai ser perdoada.

Estamos em Dezembro. Existem vários motivos pelos quais eu amo este mês. Férias, Natal, Ano Novo, aniversário de Jane Austen e Maggie Smith, comida de natal, sobras da comida de natal, amigos secretos, todo mundo se desejando felicidades nas redes sociais. Vários motivos. Contudo, um deles se destaca dentre os outros. Por alguma razão, esse mês em particular me associa muito ao universo de Harry Potter. Mais do que Outubro, com a morte de Tiago e Lilian ou mesmo Julho, aniversário de Harry e JK Rowling. Talvez sejam as lembranças do primeiro livro e filme com a riqueza de detalhes acerca da celebração do Natal na escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts… e, afinal, desde que houve um loop da câmera e avistamos aquele castelo noite adentro… nunca mais estivemos em casa em qualquer outro lugar, certo?

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Não sei se atendo aos propósitos do tema, mas, sim. Hogwarts é o meu ambiente favorito dentre todos os universos nos quais já coloquei meu nariz. A essência desse lugar é, sem sobra de dúvidas, casa. Lar e ele reúne todas as facetas… os alunos se afastavam de tudo e, apesar da presença dos professores, como no exemplo de Sirius Black, estavam longe das próprias convenções de suas famílias, o que lhes permitia maior liberdade para explorarem suas verdadeiras personalidades. Seria como sete anos de festas inesquecíveis com seus melhores amigos… as provas de poções do Snape soam como um preço muito pequeno a se pagar. Nós vimos apenas o ponto de vista de Harry, Ron e Hermione que, como viviam se metendo em encrencas, não nos permitiam imaginar como seria a vida de um aluno comum de Hogwarts…

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Para uma lufana de coração, temos as tardes tranquilas no iluminado salão comunal da Lufa-lufa… a facilidade de conseguir lanchinhos noturnos da cozinha – melhor localização de dormitório – a preocupação inerente com os exames que não pode faltar a vida de um estudante, principalmente quando seu professor é Snivellus Snape. E também aquele professor que é uma espécie de padrinho, sempre disposto a dar um conselho e ouvir as frustrações de seus alunos… Remus Lupin. Sim ou claro? Aquela professora que te tira do sério pelo tamanho da exigência, mas que no fundo você não consegue deixar de admirar… Minerva McGonagall… O professor que, de tão excêntrico, você acha engraçado, ele sabe disso e é super nice a respeito… Filius Flitwick… E, no caso, a chefe da sua casa, que te conhece e sabe de toda a sua sujeira, digo, trajetória, na escola desde o início, com quem você tem mais liberdade de trocar ideias do que todos juntos, porque ela é quase a sua mãe ali dentro… Pomona Sprout.

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E entre essa bagunça toda, você consegue um tempinho apenas para explorar a sua escola… que é um FREAKING CASTELO DE MAIS DE MIL ANOS… encontra aquele cantinho perto do Lago Negro para simplesmente contemplar a vida ou o quanto se deu mal naquele exame de História da Magia, onde você e suas amigas se reúnem após os N.O.M.s para discutir as respostas das questões. Quem sabe? Mesmo sendo uma aluna da Lufa-lufa, faria amizade com Fred e Jorge da Grifinória e iríamos juntos vistoriar todas as passagens no Mapa do Maroto…

E depois de passar por tudo isso, é chegado o dia da formatura e talvez você nunca mais veja aquelas paredes de pedra, o lago, o dormitório, suba até o corujal ou encontre a sala precisa. Se despede de seus amigos, embora vá vê-los outra vez, seja pelo mundo ou em algum departamento do Ministério, dizer adeus para o que parecia ser apenas o plano de fundo de todas as suas aventuras é muito mais complicado. De repente, Hogwarts acaba se tornando tão personagem quanto qualquer outro. Afinal, ela é cheia de espírito e lhe proporcionou mais alegrias do que, talvez, a sua própria casa. E, finalmente, quando você mirou a vista a distância pela última vez, antes de pegar o trem, teve certeza de que não estava indo para casa… não mesmo.

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O Detetive e A Mulher

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Em post anterior, comentei a respeito do “Um Pequeno Truque da Mente” de Mitch Cullin, aqui: Mr. Holmes – O cavalheiro solitário. Um livro baseado no universo de Sherlock Holmes e que explorava o período de aposentadoria de Holmes e alguns de seus demônios pessoais a partir da narrativa de seu último caso. A obra bastante sensível é bem sucedida em trazer novas nuances ao caráter da grande celebridade literária, já demasiadamente utilizado por seu criador, ao reuní-lo com novas personagens além do tão amado Doutor John Watson. Foi adaptado para o cinema e, embora a atuação de Sir Ian McKellen como Sherlock mereça todo o aplauso, o filme falha em realçar detalhes que apenas a prosa é capaz de passar ao seu leitor.

Aparentemente, existem várias obras mundo afora que se utilizam da figura de Holmes e alguns outros personagens do cânone, tendo eu mesma o feito em fanfics. E, até pouco tempo, só havia me deparado com a versão de Cullin e de Laurie King, com a saga de Mary Russell Holmes. Aconteceu que uma amiga autora de fanfics, e querida crítica do meu trabalho, me chamou a atenção para o trabalho de uma americana bem especial: Amy Thomas. Membro do honorável grupo Baker Street Babes, Amy escreve com Holmes, sim, mas sua identidade no papel é, impreterivelmente, Irene Adler. É a primeira vez, mesmo para os leitores do cânone, que a vemos tomar um papel mais ativo e independente da mente do detetive. A Irene de Thomas, de fato, sobressai aquele que deveria ser o nosso suposto protagonista e facilmente nos envolve no enredo dos três livros com seu ponto de vista. Um quarto livro já está em andamento, portanto, àqueles que se apaixonarem pela trilogia inicial, nada temam! Seremos presenteados com mais!

Infelizmente, os livros ainda não foram traduzidos para o português *pausa para o ooooh coletivo*, porém, a senhorita Thomas me revelou pelo twitter – ela é uma graça, pessoal! Responde os fãs, troca ideias, um amor! – que já está conversando com seus editores acerca da expansão das traduções de seus livros para mais línguas. Enquanto isso, me arrisquei na versão original mesmo e, devo dizer, não é uma leitura que requer o inglês mais arcaico. É uma leitura gostosa. Bem fluída. Como um Harry Potter e, ouso dizer, o próprio Sherlock de Conan Doyle. Bem, os livros são divididos entre capítulos na primeira pessoa de Adler e na terceira pessoa de Holmes, uma visível tática de preservar o andamento do caso e não entregar o principal mistério: o coração/mente/corpo/alma do pomposo detetive.

O início da narrativa nos traz, então, a figura de Adler em luto – externo, apenas – pela morte de seu marido, o notório Godfrey Norton. Só o que se sabia pelo cânone e adaptações é que Norton aparentava ser o típico advogado de classe média da era vitoriana, mas, gentil e apaixonado por sua noiva. Amy desconstrói totalmente essa imagem ilusória e a transfigura na de um marido abusivo bastante crível, visto que esses abusos acabaram em muito mais do que algumas marcas na pele de Irene, mas, na sua perda de autoconfiança e um pouco da garra que a tornou A MULHER para Sherlock Holmes. Falando no dito cujo, o caso deste livro se passará durante o período de hiato na saga sherlockiana: quando Holmes falseia sua morte na queda das cataratas de Reichenbach junto a Moriarty. Estando disfarçado, fazendo o mundo acreditar em sua partida desta para a melhor, mantém apenas a correspondência com seu mano Mycroft (<3), recebendo a tarefa de descobrir a identidade destes dois homens que estão atrás de uma tal senhorita ‘A’; ao passo que Irene retornou aos palcos, a música seu último alicerce… e sim, ela é a senhorita ‘A’.

Essa situação coloca-os juntos para a resolução do mistério cujo custo é a segurança física de Adler. Nenhum dos dois está confortável com isso. Nenhum dos dois confia no outro. Ainda assim, embarcam no velho arquétipo de “vamos fingir ser um casal” para resolver esse caso. A mentira até que funciona com a maioria do seu grupo de amigos – círculo que conta com a própria figura de Thomas Edison, famoso inventor. É interessantíssimo e deveras divertido assistir esse primeiro lampejo de dinâmica entre ambos. Os dois velhos inimigos que agora estão obrigados a trabalhar juntos e, sem perceber, acabam desenvolvendo uma profunda amizade. Como reitera Holmes, “Adler não é Watson”. Sem querer desmerecer o doutor, ela é bem mais proativa e disposta a brincar com o detetive, tornando-se muito divertida para nós. O ponto alto para mim é como sempre parecia estar com fome quando as coisas iam ficando tensas, ao passo que seu parceiro mal tocava em qualquer coisa que fosse.

A trilogia tem como base o nome “The Detective and The Woman” e não é para menos. Irene é a grande estrela desses livros, à medida que a vemos recobrar sua confiança. E o principal responsável por isso é Sherlock. Ao final do primeiro livro, ele lhe concede sua casa em Sussex Downs, onde Irene começa a cultivar seu apiário e vive uma vida mais pacata, campestre, mas que a preenche vividamente. À primeira vista, soa estranho que a glamourosa senhorita Adler, renomada cantora e atriz, se retire para o campo e escolha a apicultura como hobbie. Mais estranho que, ao final do livro, no epílogo, haja uma troca de cartas entre os protagonistas nas quais ALERTA DE SPOILER: admitem estarem interessados romanticamente um no outro e a palavra casamento é deixada implícita… porém, quando o segundo livro começa, nada disso é mencionado. Buscando explicação, indaguei a minha amiga que indicou o livro e ela me disse que o epílogo se passa anos depois e que o segundo livro volta a linha cronológica normal, ainda trabalhando melhor essa amizade entre os dois. Estranho, né? Mas, continua excelente. FIM DE SPOILER 

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O segundo livro, The Winking Tree, é, de longe, o meu favorito entre todos. Por quê? Explora um aspecto que amo da personalidade de Holmes: crianças. A forma como ele perde um pouco da frieza aparente para se relacionar com elas e acaba tratando-as com mais igualdade do que muitos de seus companheiros de idade. A garotinha em questão é Eliza, filha do fazendeiro cujo desaparecimento extraordinário fez com que Irene escrevesse para seu amigo a fim de que viesse ajudar nas investigações. O mistério, apesar de parecer simples, à primeira vista, traz até figuras da infância/adolescência de Holmes para a cena. Eliza, no entanto, é a cerejinha do bolo! Gente… que criança linda!! Charmosa, com aquela inteligência infantil deliciosa de ler! A passagem de tempo entre 1º e 2º livro nos permite visualizar melhor o crescimento de Irene dentro da pequena comunidade a qual passou a chamar de família/amigos/lar… uma síntese feita por um comentário de Sherlock, ao compará-la com uma abelha rainha. No que concerne a senhorita Adler, no entanto, o charme está em não saber disso.

Ele seguiu A Mulher para as colméias e assistiu enquanto ela interagia com as abelhas. Seus gestos eram calmos e intuitivos, perfeitamente em casa entre elas. Fazia sentido, ele pensou, pois ela era uma delas. Não, não uma operária. Ela era a rainha. Ele havia percebido durante aqueles dias de visita, o quão frequentemente as pessoas de Fulworth vinham até ela, se consultavam com ela, até a amavam. O pequeno chalé na colina estava rapidamente se tornando o centro de todas as coisas. O charme de Irene Adler era que ela não tinha nem ideia. Ela era a rainha totalmente inconsciente do fato de que o reino era dela.

Tradução direta do original por mim.

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Embora suspeite que muitos não ousarão enfrentar a leitura do inglês, espero que essas palavras o incitem a requerer a primeira cópia quando finalmente a tradução chegar nas nossas livrarias! Sendo assim, não quero dar muitos detalhes sobre os casos em si. Afinal, por mais intrigantes que sejam, a magia destes livros é justamente a forma como cada autor trabalha essas figuras históricas. Como colocam sobre eles traços originais seus, mas, ainda assim com a integralidade que teria satisfeito Doyle – eu espero/imagino. Nesse sentido, passamos para o terceiro livro – The Silent Hive. Aproveitando-se de um fio solto no caso “As Cinco Sementes de Laranja”, Thomas traz de volta a problemática da Kux Kux Klan, bem como outro personagem do cânone, para finalizar essa trilogia inicial, colocando Holmes em uma situação de saia justa ao vislumbrar pessoas de sua estima e confiança sendo usadas ao bel prazer de um sofisticado jogo de vingança.

As tramas de Thomas contêm tudo. São o pacote completo: a familiaridade que somente um ambiente conhecido e amado traz, mas com o frescor dos traços de sua caneta. É envolvente, carismático e sincero. Logo, por qualquer amante de Sherlock Holmes, merece ser lido.

xoxo

Como Fred e Ginger

Eu achava que sabia o que queria.

Ledo engano. No entanto, um engano, imagino, que muitos cometem. Então, tudo bem estar errada, certo? Tudo bem errar, se você não é a única que já pisou na bola? Ok. Espero que sim. Me peguei andando em círculos pelo quarto… é claro que ninguém sabe o que quer. Pelo menos, não de cara. Especialmente quando se é alguém incapaz de se contentar até mesmo com o plano de fundo da “lockscreen” do celular. Enfim, eu acreditava que queria você… que tudo bem ser, numa metáfora bem tosca, doce, porque seu lado salgado me completaria.

Acreditava nos debates, entende? Na “provocação saudável” que tanto me deslumbrava nos meus casais favoritos de contos infantis e nos romances de Shakespeare. Juro juradinho que cria com todas as minhas forças no amor de Catarina e Petruchio e que não era capaz de enxergar a exaltação ao machismo em detrimento do feminisno naquela relação. Enquanto Beatrice e Benedito se bicavam e discordavam de tudo… sabe? Os amantes que em nada se acertam, além do amor que sentem um pelo outro. Eu achava que queria isso. Numa espécie de busca enfadonha por emoção e por uma chama incessante… eu busquei o meu Benedito e o meu Petruchio…

Estou olhando para aquelas fotos que tiramos na formatura da Luiza. Estamos tão obviamente embriagados… por Deus, você estava usando um poá cor de rosa chiclete! Jesus como deixei alguém colocar um chapéu verde limão na minha cabeça, em contraparte ao meu vestido azul, quase uma ode à bandeira brasileira?! Estou rindo sozinha. Mas, assim, se qualquer pessoa entrasse aqui e visse essa imagem, entenderia. Nos divertimos, não? Nem parece que entre esse casal sempre existiu uma espécie de abismo preenchido com todas as questões as quais nunca conseguiram chegar a um ponto em comum.

E não. Nem envolvia política. Nós dois reconhecemos que as questões estavam atreladas aos assuntos mais banais… porém, não se pode duvidar que essa banalidade é deveras importante. Eu acho. Porque ainda estou sentindo o que a falta dela traz. Aquele vazio que, se a gente ignorar, nem parece que incomoda tanto, mas que deixa margem para tanta irritabilidade… Por que você não entendia ou, sequer tentou entender, a razão do meu fascínio por… sei lá… Percy Jackson? Literatura medíocre?! E daí?! Eu também leio Dostoievski… e eu tentei dar outra chance para Dom Quixote por você; por que cargas d’água não conseguia simplesmente defender um pouquinho do meu amor pelo cabeça de alga? Isso para citar um dos exemplos mais bestas de todos!

Era legal discutir e debater nossas ideias, num eterno episódio de Law&Order… e, pensando bem, pensando sensatamente, amarmos as mesmas coisas não deveria fazer com que eu te amasse menos ou mais. A ideia de que os opostos se atraem é tão bonita em mente, mas, para mim, não dá mais para acreditar que seja prática em prática… por que não sou forte ou madura o bastante? Talvez porque, no momento, estou cansada de dar explicações dignas de uma coluna editorial? Vai saber!

Eu ainda não sei o que quero.

Mas não acho que estará tão embuído de ceticismo. Provavelmente, o que se deseja nem seja o positivo e o negativo… eu poderia citar exemplos, mas, ninguém entenderia referências da década de 50. Contudo, acho que podemos resumir nisso: tudo bem você não surtar por filmes em preto e branco, desde que tente entender meu fascínio por eles. Tudo bem não amarmos os mesmos livros, porque nós amamos livros e, sem nos darmos conta, estaremos tentando ler as recomendações um do outro. Tudo bem você ser da Sonserina e eu da Corvinal. Tudo bem que eu não seja uma garota esportiva, porque isso sempre me deixará do seu lado num churrasco de família. Tudo bem porque… você me olha como Fred olha para Ginger enquanto eles estão dançando. Tudo bem porque, nesse tempo todo, você se deu ao trabalho de aprender o que isso significa.

 


Esse texto faz parte do Pena & Tinta, um projeto de escrita criativa que tem como objetivo a criação de textos (crônicas, contos, poesias, relatos pessoais etc…) em cima de temas predeterminados mensalmente. Neste mês, não consegui me decidir, então, vamos começar com o tema OPOSTOS.

Tem um blog e quer participar das próximas edições do Pena & Tinta? A gente está te esperando aqui: bit.ly/2dEXQEF 

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Amarelo, ela é amarelo.

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Sinto falta de um lar que nunca foi meu. que nunca foi de ninguém, de fato. Eu costumava ter essa fixação com lares e casas. De fato, sempre acreditei que nenhuma jamais se compararia a minha. Não que ela fosse grande coisa. Era pequena e mal planejada, mas também, eu nunca precisei de muito espaço ou fui a favor de seguir planos à risca. Mesmo assim, eu queria um lar. Um espaço que me preenchesse à completude. O imagino com grandes venezianas brancas e livros no espaço abaixo da escada. No centro. Sempre no centro. Afinal, a ideia de me revolver reclusa no campo sempre me pareceu absurda… não parece?

Um dia, eu subi uma colina, no entanto. Calçava meu melhor par de botas de camurça… havia acabado de garoar… eu sentia meus pés afundando na lama… o inconveniente pelo qual não precisaria passar se estivesse na cidade… contudo, aquela era para ser uma aventura. Segui a estrada para fora da minha zona acarpetada de conforto e o que obtive? O mundo. Ao final daquela colina, não havia nada… nada além de quilômetros… não havia nada e tudo ao mesmo tempo. Era alto, isso era. Lá de cima assisti outras sete colinas e o mar, ao passo que me sentia sendo jogada contra algo… a verdade… e o conhecimento… tudo era verde e azul, mas… mas…

Amarelo. Aquela descida foi completamente amarela. Não havia espaço na sua paleta de cores para qualquer outra cor… você seria capaz de compreender Van Gogh. Enquanto descia, foi como se o mundo vivesse dentro de doze girassóis numa jarra, com uma grande lata de tinta amarela envolvendo-o; uma tela irreproduzível. O sol às costas era morno e começava a se pôr e quando me dei por mim… o mundo era amarelo. Pessoas seriam capazes de atestar quantas vezes enunciei meu ódio por tal cor. Contudo, naquele momento, ele foi meu lar. Afinal, lar, segundo dizem e eu nunca ousei buscar definição diferente, é onde seu coração está em paz… Aquele ali: com os tons de dourado pairando sobre a planície, sobre os lagos, em cada folha e por todo o céu… a água sussurrando aos meus ouvidos e no silêncio da completa contemplação… aquele era meu lar.

Poderia ser terra de ninguém. Simplesmente existindo para que outras pessoas se sentissem daquela maneira. Mas era meu. Eu queria acreditar que sim… que por anos eu fizera aquela caminhada ao topo pelo bel prazer de descobrir a descida várias e várias vezes. Para descobrir o amarelo várias e várias vezes. Justo eu… uma criança que sempre tivera crises de ansiedade e acreditava com todas as suas forças que seu lar teria venezianas brancas… eu encontrei paz. Eu fui paz. E, desculpem os intérpretes, ela nunca foi branca. Ela foi amarelo.


Esse texto faz parte do Pena & Tinta, um projeto de escrita criativa que tem como objetivo a criação de textos (crônicas, contos, poesias, relatos pessoais etc…) em cima de temas predeterminados mensalmente. Neste mês, escolhi o tema CORES.

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Essential Book: A Essência do Livro de Fantasia Favorito

Outubro sempre foi um mês extremamente adorado por mim. E sim, pela simbologia cultivada na cultura estrangeira acerca do misticismo rodeando a terra, em outras palavras: O Dia de Todos os Santos. Desde pequena, me senti compelida a acreditar que existe um pouco de magia no mundo e que, se estivéssemos na Idade Média, eu seria queimada por Bruxaria *risos*. Sendo assim, fiquei mais do que feliz com a escolha do tema do Essential Book deste mês fabuloso que é Outubro e, apesar de Harry Potter ser grande parte da minha vida no universo da fantasia, incrivelmente ou não, não foi o título que me veio à mente ao escolher a obra a ser homenageada por aqui.

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Pode-se dizer, no entanto, que foi mais um nome: Juliet Marillier. Autora da Nova Zelândia e que, ao menos nas suas obras as quais tive acesso primeiramente, gostava de se utilizar de contos de fada famosos, mas transformando-os em algo inteiramente novo e seu. De fato, era sobre o primeiro livro que li da autora a que faria menção… porém, algo falou mais alto. A Dança da Floresta (o primeiro que li) marcou muito a minha pré-adolescência e me permitiu conhecer essa pessoa maravilhosa que é Juliet. Ela escreve em primeira pessoa e, não obstante minhas reservas com essa voz, em seus livros esse é um traço muito importante e que torna suas histórias tão envolventes. No entanto, a obra escolhida foi: A Filha da Floresta. Reli-o em uma semana – graças à Deus pelo fim das provas – a fim de escolher as melhores passagens e experienciar novamente todas as sensações que o tornaram tão marcante na minha vida e, claro, para tornar essa homenagem a mais “de coração” possível.

Este livro, baseado no conto “Os Cisnes Selvagens” dos Irmãos Grimm, conta a história de Sorcha, a sétima filha de seis irmãos, Liam, Diarmid, Cormack, Conor, Padriac e Finbar. Li duas postagens de outras participantes do projeto, Marcia e Nina – os links para tais estarão dispostos ao final desta explanação, obrigada – e assim… acho que vou estar me repetindo, mas, que culpa tenho eu se somos tão lindinhas a ponto de nos sentirmos atraídas para certos aspectos da fantasia? Pois sim, este livro também está carregado de menções ao celticismo e ao druidismo, uma vez que Conor dá sinais de que virá a ser o druida da família; bem como a importância que tais tradições possuem frente à criação destas crianças e a maneira com a qual enxergam o mundo. Eles vivem em Sevenwaters, uma fortaleza bem protegida na Irlanda do Norte, notadamente pelo fato de estar envolvida por uma floresta completamente mística e que age em prol desta família, vez que eles respeitam os rituais e seres daquele, na obra chamado, povo do Outro Mundo.

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O enredo em si é bastante simples. A chegada de uma madrasta malvada, vide feiticeira, começa a trazer empecilhos para os irmãos, até o derradeiro momento em que, tentando buscar ajuda dos seres da floresta, eles se veem emboscados por ela, Lady Oonagh, que para seus fins ardis, os transforma em cisnes. Todos, à exceção de Sorcha, que terá a derradeira tarefa de trazer seus irmãos de volta ao normal. Para tanto, ela deverá costurar seis camisas a partir das fibras de uma planta espinhosa que irá destruir suas mãos, antes delicadas mãos de curandeira, chamada “estrela d’água”… enquanto o faz, não deverá proferir nenhum som. Muda. O que torna a primeira pessoa utilizada por Juliet tão essencial para o livro, pois é a única forma de sabermos como nossa protagonista enfrenta seus demônios e medos em meio à empreitada. Sorcha é uma protagonista maravilhosa e memorável, mais até do que as dos próximos livros. Sim, este é o primeiro de uma trilogia que agora se abrirá para mais livros, porém, para mim, o primeiro traz consigo muito mais força e caráter ao estilo adotado por Marillier.

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São cisnes. *São patos, diz a consciência*. São C-I-S-N-E-S. Foto by: Maysa Battistam que gentilmente me emprestou. Thanks Maysa!

 Se passarão anos durante o trâmite desta história, o que torna o sacrifício de Sorcha pelos irmãos muito mais doloroso para mim. Contudo, a essência de A Filha da Floresta, ao menos para mim, foram as reflexões que Juliet nos leva a fazer ao longo da leitura. Como disse, desde criança me senti fascinada pelos contos de fadas e pela magia que poderia haver no mundo; tanto a negra quanto a branca. Sabe a velha dicotomia? Pois bem, o que noto em todos os livros de Juliet é que nem sempre, na verdade quase nunca, os seres do Outro Mundo – aqueles que representam a fantasia, a magia daquele universo – estão ali unicamente para facilitar as vidas das pessoas ou para atuarem como bons samaritanos. O “mundo mágico” de Marillier é sombrio. Não é como Hogwarts que você se sente compelido a querer participar de pronto. Não. Ele é cheio de regras, ardis, recompensas à preços que machucam e deixam cicatrizes eternas nestes personagens.

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Os elementos do druidismo, que ganham até maior destaque a partir do segundo quando Conor já retorna como druida, nos remetem a momentos de uma luz intensa e maravilhosa. Porém, a partir do momento em que os seres do Outro Mundo começam a insurgir-se nas vidas do povo de Sevenwaters, até mesmo os momentos de ajuda passam a ser vistos de maneira duvidosa por nós leitores. Isso torna, a meu ver, a escrita e o mundo celta de Juliet tão maravilhoso e interessante! Neste primeiro livro, Sorcha, como visto na foto anterior, é abusada sexualmente e estas são cicatrizes que nunca se curam realmente. A Dama da Floresta, rainha do Outro Mundo, aparece para Sorcha logo após este abuso e suas palavras, embora pragmáticas, são deveras secas e duras para a menina que ainda se sente morta e suja por dentro.

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Também, uma vez tendo resolvido a maldição de seus irmãos e retornado para casa, nós esperaríamos um final feliz e que tudo voltaria a ser como era antes. Mas não. Os irmãos cresceram sempre admitindo uns aos outros que eram partes de algo único, portanto, fortalecendo a ideia da união familiar. Todavia, se veem totalmente divididos ao final, cada qual seguindo seu caminho; numa apologia a vida como ela é, de fato. A verdade nas histórias de Juliet, como até mesmo aquele mundo que, em nossas mentes maravilhadas infantis acreditavam, deveria estar ali para nos envolver em algo brilhante e mágico/magnífico, na verdade, contém grande parcela de trevas e a inconstância do tempo, tudo isso trabalhado em uma primeira pessoa cheia de vida, tornam estes livros os meus favoritos em matéria de fantasia. 

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Outro ponto de encontro entre suas protagonistas se encontra em sua autoconfiança. Todas – as que li – as meninas de Juliet não se acham bonitas ou detêm aquela noção de que ficarão solteiras para sempre porque tudo bem, não me importo e porque acreditam que jamais irão encontrar uma pessoa que as olhem como tal pessoa olha para tal pessoa, sempre há um paradigma para a comparação. No caso de Sorcha, como seu irmão Liam olhava para sua noiva Eillis. Para, então, envolvê-las com alguém que virá a ser seu interesse amoroso, embora elas nunca percebam que eles estão apaixonadas por elas, por esses mesmos motivos, e daí vir um ser do outro mundo e reafirmar as outras qualidades que elas possuem, acompanhadas de, sim, beleza física. É um traço recorrente e que por alguma razão eu acho tão bacana, porque, querendo ou não, estes livros são destinados a um público pré-adolescente e, pelas mudanças da idade, cheios de inseguranças. Ter em mãos mensagens tão positivas, de amor próprio e autoconfiança significa muito!

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E por fim, porque todo livro tem aquele momento que o torna especial ou que aumenta o tom de especialidade a seu respeito… Sorcha havia sido encontrada e levada para Harrowfield, na Bretanha, por Lord Hugh – Red – o senhor de tais terras. Ele havia sido escolhido para ser seu protetor e, ainda que católico, enquanto a levava para fora da Irlanda, teve breve contato com os seres da floresta. Bem, durante seu período em Harrowfield, apesar das palavras censurantes de todos os moradores avisando-a para que parasse com aquele trabalho que obviamente a fazia sofrer, Sorcha não fez outra coisa senão tecer… Red observava a tudo com peso no coração. Até que um dia, resolve levá-la para tirar um dia de folga. Ela nunca havia visto o mar…

Meu coração batia com a emoção da liberdade. Continuei a correr sobre as pequenas ondas, a barra do vestido azul ficando molhada e cheia de areia. Corri pela praia toda, com as gaivotas voando e gritando acima de mim. Corri até ficar tonta e sem ar, até chegar ao fim da praia, onde o muro de rocha se erguia na areia branca. Encostei nele e fiquei ouvindo meu coração bater e respirando o ar marinho. Não sabia; não tinha percebido o peso que havia sido colocado sobre minhas costas até aquele momento, até aquele instante de liberdade por um dia.

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Sorcha tem o cabelo preto e cacheado… óbvio que isso ajudou na catarse…

Espero que tenham gostado. Este post faz parte do projeto:

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O post do mês de Setembro você encontra aqui: Essential Book: A Essência do Casal Preferido

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Nós Somos as Crystal Gems

Tem se tornado o sentimento comum entre a presente geração acreditar que crescemos com os melhores contos animados para a televisão; que por não termos passado pela febre ensandecida da Peppa Pig ou da Galinha Pintadinha, mas pelas manhãs com Disney Cruj e tardes com Animes, obtivemos algum tipo diferente de percepção sobre o mundo ou mesmo alguns valores que o permeiam. Neste último caso, podemos citar especialmente o exemplo de Animes, tais quais, Digimon, Dragon Ball, Fullmetal Alchemist; todos com sua própria moral.

Cada qual com aquele desenho ou história que o marcou mais. No meu caso, foi Avatar: a lenda de Aang. Uma animação do canal Nickelodeon e que, apesar dos primeiros episódios leves, logo demonstrou a que veio, ao começar de pronto a explorar o passado e personalidade de seus personagens. Criando, assim, um dos melhores shows e nomes que jamais serão esquecidos. Bem como uma charmosa tradição de pai e filha: assistir todas as temporadas no fim do ano.

Por muito tempo, uma animação não me prendia ou me “falava” tanto quanto Avatar. Entretanto, dizer que nada mais é tão grandioso ou virá para as próximas gerações, seria pretensão e, ademais, burrice. Afinal, esta é a era de Hora de Aventura. É correto afirmar que as animações atuais adquiriram maior liberdade para explorar criatividade, o que, em consequência possivelmente gera um novo conceito de diversidade. Novas gerações se aproximam, de forma que é apenas natural que aquilo que ajudará na sua educação humana, como ajudou na nossa, siga os padrões, ou melhor, o mundo que os acompanha.

Foi nessa linha de pensamentos e por recomendação de uma amiga, das antigas, aquele anjo que conhece o ser humaninho aqui e que já sabia que a sementinha, uma vez plantada, ia florescer feliz, enfim, foi assim que me envolvi com Steven Universo. Envolver mesmo! De não querer fazer mais nada além de assistir episódios, ouvir a trilha sonora, saber tudo a respeito desse universo animado. Talvez, esteja querendo arrastar mais pessoas comigo na minha loucura, mas, é dia das crianças, vamos todos nos voltar com o olhar maravilhado para o show de cores e diversidade que é Steven Universo.

Steven Universe  é uma série de desenho animado norte-americana criada por Rebecca Sugar, cartoonista da Cartoon Network, ex-artista de storyboard, escritora e compositora de Hora de Aventura. Produzida pelo Cartoon Network Studios, essa foi a primeira série do Cartoon Network Studios a ser criada por uma mulher. Estreou a 4 de novembro de 2013 no Cartoon Network dos Estados Unidos, 7 de abril de 2014 no Cartoon Network do Brasil. É uma história coming-of-age em animação que conta a história de Steven, um jovem rapaz de 14 anos de idade que é membro das Crystal Gems, uma equipa de guardiãs humanóides extraterrestres mágicas que protegem a Terra de ameaças com a ajuda dos poderes da sua jóia presente numa parte do corpo.

O Steven vive na cidade fictícia de Beach City com as Crystal Gems: Garnet, Ametista e Pérola. Ele acompanha as Gems nas suas aventuras e ajuda-as a proteger o planeta Terra.

O que tornou este show tão especial para mim, após menos de cem episódios, foi a forma majestosa com a qual aborda assuntos referentes ao mundo adulto e infantil, conseguindo passar mensagens poderosas através de simbolismos aparentemente inocentes aos olhos dos pequenos, mas profundos a nós que conseguimos captar a metáfora. Mensagens referentes a amor, solidão, relacionamentos, estupro, até mesmo sexo que, na minha leitura, encontra representação na ideia da fusão: quando duas Crystal Gems se unem – por vontade própria – a fim de criarem um “novo ser” mais poderoso.

Temos também personagens extremamente ecléticas e fora do padrão, mesmo quando estão tentando seguir um padrão. Você poderia pensar que Garnet é a típica caladona misteriosa, mas daí BAM! Ela se mostra completamente engraçada, cativante, amorosa e compreensiva. Pode, à primeira vista, acreditar que a Pérola é a Mônica das Crystal e que só se importa em estar certa, no que é sensato e em manter tudo lindo e arrumado, e de repente BAM! Ela é um dos personagens mais trágicos e que provavelmente vai te arrancar mais lágrimas de todos nós. E a Ametista poderia ser só uma garota com um grande apetite e senso de humor, mas, seus fantasmas internos e inseguranças a tornam extremamente humana e viva. Steven parece ser um garotinho normal: inocente, ingênuo, esperançoso, disposto a olhar para o melhor da situação, ainda que com olhos infantis, mas então, por um momento, se torna a consciência e, talvez, o mais maduro do grupo.

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Você não pode deixar uma experiência ruim tirar isso de você

É um show que apresenta muita vida e personalidade, com certeza uma recomendação eterna e outro que, se tudo der certo e eu conseguir viciar meu pai, vai se tornar outra tradição de família. Fica a minha sincera dica a vocês.

Nós somos as Crystal Gems, nós sempre salvamos o dia. Não pense que não podemos, abaixo à covardia. E é por isso que todo mundo sempre acredita na Garnet, na Ametista, na Pérola e no STEVEN!!

xoxo

A Vilã de Jane Austen

Uma boa estória pode ser resultado de várias circunstâncias. Por vezes, a própria forma pela qual os fatos são apresentados e conduzidos, por si só, é capaz de tornar uma primeira tentativa em um eterno clássico. Em outros casos, muito do sucesso se dá pela graça das pessoas as quais nos vemos apresentados. Os personagens de uma estória são a sua alma, visto que serão eles a ajudar para a criação de profundidade e significado. Sendo assim, na minha humilde opinião, mesmo o conto mais simplório pode ser considerado de grande valor, se seus personagens cativarem o coração do leitor; e existem incontáveis variáveis para tais personas. Meus preferidos: os vilões. Um bom vilão é capaz de fazer muito pelo seu herói ou sua heroína, pelos seus melhores amigos, seus “minions”… O comentário/crítica/conselho de amiga/recomendação desta semana se trata especialmente de uma vilã. Uma que encontrei no lugar menos provável…

Muitos de vocês sabem ou deveriam saber de minha adoração por Jane Austen. Desde que coloquei minhas mãos em um de seus livros pela primeira vez – Razão e Sensibilidade – me decidi que teria de ler todos os seus romances. Alguns me conquistaram mais do que outros, como é natural que aconteça, mas, é notável que detenho carinho por todas as adaptações cinematográficas já realizadas de todos eles. Há pouco tempo, cerca de dois anos, julgava ter atingido meu objetivo e lido todas as suas obras, quando numa ida inocente até a livraria me deparei com um exemplar de “Lady Susan”. Comprei-o no mesmo instante, tendo ouvido falar se tratar de algo um tanto quanto inacabado. Na verdade, está bem terminado! O diferencial era que, ao contrário de seus outros romances, este se resumia a um cumulado de cartas trocadas entre os personagens e que, ainda assim, deram o tom perfeito para a narrativa que em nada deixa a desejar! Jane era conhecida por escrever excelentes cartas a seus familiares, nesta obra descobrimos o porquê.

Cada uma é cheia de espírito e demasiadamente claras na diferenciação de caráter a cada um dos remetentes. Em especial, um remetente, a alma dessa estória. Lady Susan Vernon. Bem, ao longo dos anos, conhecemos vários tipos de personagens provindos da caneta afiada de Jane. Tivemos Lady Catherine De Bourgh, Mrs. Jennings, Mr. Collins, Mrs. Bates, Emma, Elizabeth, Fanny, cada um com sua “mania”, seu traço definidor. Todavia, Lady Susan, creio eu, foi a única verdadeira vilã da senhorita Austen, no sentido literal da palavra e o que ela representa para todos nós ou, como gosto de pensar, que teria significado para os conterrâneos do século 18/19. Uma viúva de trinta anos, extremamente provocativa – ao que denominam atitude coquete – e manipuladora. Dentre todas as personagens de Jane, esta parece ser àquela com quem mais se divertiu ao tocar sua pena no papel, o que torna esta, talvez, a novela em que mais se nota o famoso “Jane’s Wit”, o quão espirituosa sua escrita poderia ser.

Há um escândalo que precede a chegada de Lady Susan à propriedade rural do irmão de seu falecido marido em Churchill. Boatos afirmavam que, enquanto permanecia como convidada em Langford, ela teria sido expulsa pela dona da propriedade, Mrs. Manwaring, por tentar seduzir seu marido e o noivo de sua jovem cunhada. Descrita por sua cunhada, Catherine Vernon, como possuindo “uma mistura rara de simetria, esplendor e graça” logo no início do romance, esses atributos positivos talvez sejam os únicos cumprimentos que Lady Susan viria a receber em toda a história. Sendo inteligente e agradável, com um conhecimento do mundo que torna a conversa fácil e um feliz domínio da linguagem, capaz de transformar o preto em branco, ela orgulha-se, e com o prazer, de converter uma pessoa pré-determinada em não gostar dela em seu mais ferrenho defensor.”

Uma vilã no período Regencial de Jane só poderia ocupar um novo lugar de amor em meu coração, sendo uma de suas melhores personagens, junto a Elizabeth Bennet, Emma Woodhouse e Elinor Dashwood, na minha opinião. Claro, já tivemos seres desprezíveis em seus livros, tal qual a senhorita Lucy Steele, tão deleitada em destruir as esperanças e o amor de Elinor por Edward em Razão e Sensibilidade. Contudo, a novidade em Lady Susan Vernon é o quanto sua personalidade é cativante e charmosa enquanto planeja seus movimentos com cautela. Uma lufada de ar fresco, eu diria e como a crítica também disse quando finalmente tal conquista fora adaptada para o cinema. Ouso quotar…: “Ela é uma vaca, mas, você não consegue não torcer para que seus esquemas tenham sucesso!” Ainda mais quando ouvimos várias de suas cartas proferidas em voz alta pelo charmoso sotaque inglês de Kate Beckinsale.

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A adaptação foi anunciada no ano passado, mas, tão pouco fora anunciado a seu respeito que acabei me esquecendo de sua estreia. No entanto, graças a um tumblr, acabei conseguindo descobrir que ela de fato ocorrera, apenas não recebera o nome de “Lady Susan”, mas “Love & Friendship” – Amor e Amizade – o porquê de tal título, não tenho a menor ideia. Contudo, apenas nisso deixa a desejar. Em resto, é perfeita! Kate está brilhante em seu papel de “maior flerte da Inglaterra”, é impossível deixar de olhar para ela quando em cena. A trilha sonora é magnífica, numa combinação de instrumentos de corda com momentos de coro, e os figurinos… ah, os figurinos… a filmografia, tudo tão brilhantemente iluminado! Parece até um episódio de Downton Abbey. O roteiro adaptado das cartas presentes na novela é sucesso de Whit Stillman, bem como a direção. Correspondendo ao espírito de Austen, temos excelente comédia regencial aqui, na pura tolice do personagem de Tom Bennett, Sir James Martin, o suposto pretendente da filha de Lady Susan, Frederica.

Além disso, podemos dizer que a viúva é perfeita na arte de enaltecer aquilo que a educação inglesa não nos permite dizer em voz alta, mas que todos estão pensando, tornando alguns momentos de desconforto após suas tiradas sarcásticas, simplesmente encantadoramente risíveis. Uma vilã encantadora para a minha lista, livro e filme recomendadíssimos para os fãs da senhorita Austen que nunca falha na arte de nos entreter com suas reflexões acerca de seu tempo e tão à frente dele.

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 xoxo