Mas só o tempo transforma

Um segundo. Cinco palavras.

Eu não quero ser bailarina.

Dez anos depois. Uma oração inteira.

Meu maior arrependimento foi não ter começado ballet quando menina.

Coisa engraçada, o tempo. Num momento nos faz feliz, no outro nos leva às copiosas lágrimas. Outra hora nos faz ansiar por agito, por vida. Noutro segundo requer silêncio e reclusão. Dizem que só ele cura. Na verdade, só ele transforma. Não existe, de fato, uma cura… é possível se curar de uma gripe, febre, enxaqueca… mas isso a que o ditado popular faz referência… isso não é algo que requeira cura. Apenas uma mudança de perspectiva. E sim, isso só o tempo concede. Mudança. Ele que é movimento inconstante e desafiador da lógica, vez que não tem pé nem cabeça, mas é. Um menino pode ser um homem e um homem pode ser um menino, a recíproca é verdadeira para as grandes meninas e pequenas mulheres; tudo vai depender da perspectiva do tempo. O gozador… frio, imperdoável gozador…

Ele poderia ter me sussurrado ao ouvido que eu deveria dançar ballet; que estava brincando comigo naquela idade, ao me dizer que isso era coisa de menininha fresquinha… Eterno gozador, só foi me revelar isso dez anos depois, quando me concedeu nova perspectiva; por me transformar. Pobre tempo, tão solitário e incompreendido quanto a morte, sua amiga mais íntima. Desejamos incansavelmente que ele fizesse mais por nós. Nos desse mais tempo… nunca é o bastante… e mesmo suas transformações parecem chegar tarde demais, pois as minhas articulações já se achavam rígidas demais para que eu conseguisse tocar o céu… ele me arrancou as pernas, mas me manteve o coração… o que raios eu haveria de ter feito para que me castigasse com o vil sentimento da impotência? Talvez, garantir-me o beijo da arte tenha sido seu golpe de misericórdia…

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Eis que tornou minha vida mais bela com os olhos de quem sonha; de quem um dia sonhou, mas ainda anseia e ama. Os pés de uma bailarina estão destruídos por ele; perfurados com cicatrizes de seus êxitos anteriores… provavelmente fora isso que se passara na cabeça de Einstein ao descobrir a sua relatividade; e não uma fórmula maluca de física. Pode até ser que haja física naquilo que a mantém sobre a ponta de seu pé, mas os olhos de quem sonha conseguem ver apenas o coração… O tempo já fez várias vítimas dessa maneira. Talvez por isso as salas de cinema, peças de teatro, sarais, apresentações de ballet estejam tão abarrotadas de público… Talvez essa seja a maneira mais dura de equilibrar o mundo… através do tempo e sua gozação, a sua eterna ironia… a sua inconstância…

Pois só o tempo transforma.


Esse texto faz parte do Pena & Tinta, um projeto de escrita criativa que tem como objetivo a criação de textos (crônicas, contos, poesias, relatos pessoais etc…) em cima de temas predeterminados mensalmente. Neste mês, escolhi o tema TEMPO.

Tem um blog e quer participar das próximas edições do Pena & Tinta? A gente está te esperando aqui: bit.ly/2dEXQEF 

xoxo

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Até logo, Baker Street.

Este não vai ser um post curto e muito menos direto. Embora eu tenha esperado vários dias após o ocorrido que me trás a ele para compô-lo, ainda não acredito que meu raciocínio esteja totalmente descontaminado da forte emoção, ou seja, muito provavelmente eu não consiga ser imparcial e acabe dando um tiro no meu pé. Contudo, este é um texto – textão – que por diversos motivos precisa ser escrito. Ficar protelando não irá clarear minha mente e trazer o esclarecimento de que tanto preciso, me conheço muito bem para saber. Sendo assim, vamos, ao som de Postmodernjukebox, falar sobre a quarta temporada de Sherlock. Mais especificamente, o seu season finale.

Até o momento, já existem várias críticas, comentários de fãs, muito mais versados nas artes do que eu e muito mais capazes de clareza. Vamos tentar entender isso aqui como um desabafo que, quem sabe, eu também consiga passar alguma coisa, qualquer coisa a vocês que leem este blog. Gostaria de começar dizendo: Sherlock Holmes significa o mundo para mim. Foi a razão primordial para que um dia eu desejasse conhecer Londres, é o meu grande amor no mundo da literatura – mesmo com toda a polêmica circundando sua sexualidade – o propulsor da minha “carreira” como escritora amadora/autora de fanfics. O carro chefe na minha estante de romances policiais, um dos personagens mais interessantes já escritos, enfim, William Sherlock Scott Holmes penetrou tanto a minha existência que agora é parte da minha alma. E, citando Emily Brontë em O Morro dos Ventos Uivantes: “Não posso viver sem a minha vida, não posso viver sem a minha alma!”

Não há quaisquer dúvidas de que esta tenha sido a última temporada e que foi a última vez que assistimos à novas nuances na atuação de Bennedict Cumberbatch, à novas tramas na vida de Holmes e Watson. Logo, a primeira dor que tive que enfrentar e ainda estou tentando superar, enquanto a trilha sonora crescia e os créditos subiam, foi o fato de que estava dizendo “adeus” para uma das melhores adaptações feitas acerca destes personagens seculares. Não a minha favorita, mérito este que sempre pertencerá a série da rede Granada de televisão de 1984, com Jeremy Brett no papel principal. As tantas adaptações existentes, assisti-as todas e a recente feita pela BBC, finalizada agora, realmente ousou em muitos aspectos, pecou em outros e trouxe várias referências que a tornaram uma das melhores séries da era. Abençoado seja Bennedict que homenageou em vários momentos o finado senhor Brett durante sua performance e ganhou seu lugar nos corações dos amantes do cânone, trazendo mais novos sherlockians para Baker Street.

Os casos sempre foram muito bem adaptados para o nosso presente a fim de criar-se algo inédito. A trilha sonora… a música de um filme, uma série, minissérie, é aquilo que irá ajudar a criar o tom do que estamos vendo; se existe algo sem o qual um ser humano como eu não consegue viver é a música, portanto, a meu ver, trata-se da primeira coisa a ser pensada a fim de enlaçar o imaginário e a empatia do telespectador. Não houve pecado nisso em Sherlock. Foi brando quando precisou ser, intenso e grandioso da mesma forma. O elenco escolhido a dedo também nunca decepcionou. O fato de que alguns fãs questionarem a “existência” desse ou daquele personagem não diminui o empenho que foi colocado em cada fala, em cada cena do seriado. Na verdade, me deixa imensamente abismada como o ódio ou o descaso que alguns fãs possuem sobre este ou outro membro do universo sherlockiano, muitas vezes os fazem rechaçar aqueles que deram vida a eles e que simplesmente seguiam um roteiro. Cada mínimo detalhe premeditado, uma equipe de produção ferrenha, paletas de cores que se alternavam a cada temporada… e, se vocês notaram, esta última foi extremamente corroída, o que ajudou a dar o tom de que tudo estava se fechando sobre nossos garotos e garotas, sim garotas… a senhora Hudson é a rainha dessa série, ai de quem falar o contrário!

Antes de passar para o próximo passo, só gostaria de dizer: BENNEDICT SEU ATORZÃO DA PORRA! Acho que isso resume muito do que poderia ser falado a respeito de sua atuação, mas, vamos tentar aqui… Jeremy Brett. O ator que todos os amantes de Sherlock Holmes afirmam: foi Sherlock Holmes. Não um performista. Não um ator. Ele era o Sherlock Holmes. E, tal qual Benne, nos trouxe várias faces da personalidade do detetive na era vitoriana; o que já demonstra grande marco, visto o que se poderia esperar de alguém interpretando a própria definição de gentleman para a Inglaterra Vitoriana. Contudo, Brett nos ofereceu um Holmes imponente, mas ao mesmo tempo brincalhão, elétrico e taciturno, frio e caloroso. Humano. Uma montanha russa. Do começo até o mais próximo do fim que conseguiu… para aqueles que não sabem, Jeremy sofria de distúrbio bipolar e, após a morte de sua esposa, seu quadro piorou muito… os últimos episódios da série são dolorosos de se assistir a qualquer um… a tradução mais dura possível de O show deve continuar. Acabou falecendo de uma falha no coração antes de concluir a gravação de todo o cânone, como esperava fazer a TV Granada. Bem, toda essa montanha russa que Brett nos ilustrou, como disse, Benne trouxe de volta e eu imagino como uma homenagem. Ao mesmo tempo, criou seu próprio estilo… os sorrisos, os pulinhos de excitação, o sarcasmo mais negro, ir só de lençol para o palácio de Buckingham…

E aqui passamos para o próximo passo. Antes de mais nada: eu sou uma pessoa que shippa. Eu shippei dentro do universo de Sherlock. Eu shippo dentro do próprio cânone. Eu criei uma personagem original para este mesmo fim, como demonstrado em outro post neste blog. Todavia, mesmo eu uma pessoa que shippa reconhece que: o que pode ou não ter tornado essa temporada ruim – não acho que foi, mas, para aqueles que acham isso, seu argumento não deve ser – não é o fato de que Sherlock e John não ficaram juntos VISIVELMENTE ou CANONICAMENTE. Houve queerbaiting? Houve. Mesmo eu que nunca shippei Johnlock – e não venha me chamar de homofóbica por isso – posso ver que sim, houve. Porém, isso diz mais sobre o “caráter” dos nossos autores do que sobre qualidade ou não de uma série. Minha opinião. O fato de que Moffat brincou com as nossas emoções durante todos esses anos não é motivo para tamanho ódio contra essa temporada que fecha um ciclo daquilo que sempre foi o ponto chave: Sherlock Holmes deixando de ser uma máquina (“sou um cérebro, Watson, o resto é mero apêndice”) para se tornar um ser humano, a GOOD ONE.

É sobre o crescimento de Sherlock que estávamos falando e isso não deixou a desejar em nenhum segundo! Meu Deus, você imaginaria a epítome do cavalheiro vitoriano sentado na cadeira de uma terapeuta?! A máquina pensante e fria abrindo seus horizontes e desenvolvendo laços inquebráveis com outros seres humanos? Sherlock finalmente chamando Lestrade de Greg?? Quebrando caixões porque magoou alguém? Não! Você não imaginaria! Mas foi isso que ganhamos e foi BONITO/MARAVILHOSO DEMAIS!! Porque, na minha opinião, como disse certa vez na minha ode à Downton Abbey, nada é mais gratificante do que assistir ao crescimento de uma pessoa. Na literatura é o que faz a história ganhar significado e os personagens adquirirem a empatia do público. Foi porque Sherlock Holmes não era o mesmo homem do Um Estudo em Vermelho quando caiu das cataratas no Problema Final que os fãs imploraram para que retornasse. E foi o desenvolvimento psicológico que Doyle deu a ele nos contos posteriores que o fez consagrado por muitos. Não foi um romance com John Watson, com Irene Adler, com Violet Hunter. Não. Foi o crescimento e amizade de dois homens… e aliás…

Sabe por que eu nunca consegui shippar Watson e Holmes? Entendam-me: você que acredita que eles tinham um envolvimento amoroso do tipo Erus, eu entendo o seu motivo. Eu respeito o seu ship. A sua opinião. Mas, eu, Ana Carolina nunca vou shippar porque: seria a mesma coisa que shippar Harry e Hermione, sabe por quê? Porque, aparentemente, duas pessoas não podem mais ter um laço profundo, uma cumplicidade majestosa e serem os melhores parceiros um do outro, a não ser que eles incontestavelmente, invariavelmente, sejam o interesse amoroso um do outro. A velha história do: não existe amizade entre homem e mulher. Entendem? John e Sherlock são o maior exemplo do universo de irmandade, de amizade sincera, de que “escolhemos uma família”. Claro, é muito bom pensar que a pessoa com quem vamos passar o resto da vida seja o nosso melhor amigo, mas, muitas vezes, não é assim! Então, podemos ter os Harrys e as Hermiones; as Marys e os Toms, os Victors e as Emilys, os Johns e os Sherlocks! Eu nem quero imaginar o que teria acontecido se o Percy e a Annabeth não tivessem ficado juntos no final… Está faltando mais BROTPS e menos OTPS. Nesse quesito, a série foi muito ampla e nos deu a chance de acharmos o que quiséssemos, porque foi justamente o que o Doyle fez… nada nunca foi claro. Apenas teorizadores recentes levantaram as primeiras hipóteses e, quotando a mim mesma de outro texto: “Não por preconceito, creio eu, mas porque, nesse caso, “não saber” é o que torna Sherlock Holmes, Sherlock Holmes.”

No mesmo texto em que digitei essas palavras acima, disse que houve, certa vez, tentativa de fazer algo com Sherlock e John como casal e os donos dos direitos do cânone vetaram porque isso nunca foi especificado pelo Arthur Conan Doyle. É preciso que se respeite a obra do autor, não é? E, na minha opinião, isso é o mínimo a ser observado, visto que não compõe algo de grande diferença para o andamento do que é mais importante. Resumindo: seu ship não ter virado canon não diminui o valor dessa série e você pode shippar quem você quiser. Apenas não deixe seu amor pelo amor de outra pessoa te cegar, coleguinha.

Enfim, passamos para o ponto que mais me atingiu nessa série… as mulheres de Moffat e como foram usadas, em relação ao canon. À exceção, talvez, da Senhora Hudson? Que no cânone era uma figura de proa e na série ganhou uma personalidade mais ativa: “I’m not your Housekeeper”, ex-esposa de um chefe de tráfico, dona de um carrão, vastas propriedades, aponta uma arma como ninguém, ouve rock pesado enquanto passa o aspirador… posso estar desejando uma série só dela? Enfim, talvez com exceção da Senhora Hudson… não podemos dizer que o senhor Moffat seja a pessoa mais… abençoada? Quando se fala em escrever personagens femininas e usá-las de forma positiva. Arthur Conan Doyle nos presenteou com vários nomes – várias Violets – no cânone e que, embora não fossem protagonistas ou recorrentes, não deixavam de ser veneradas e bem quistas ou mesmo vilãs belamente ardilosas. Isadora Klein em “The Three Gables”. Violet Hunter. Porém, vamos primeiro analisar a personagem presente na série da BBC e no cânone: Irene Adler.

Direto ao ponto. No conto “Um Escândalo na Boêmia”, Irene Adler consegue enganar Holmes completamente e este perde para ela, não sendo capaz de recuperar a foto comprometedora que tirara com o Rei. No episódio “Um Escândalo em Belgravia” Irene é utilizada para despertar discussões acerca da sexualidade de Holmes, tal qual sua irmã do cânone, mas de formas distintas, e embora seja uma personagem igualmente de personalidade forte, Moffat simplesmente não permitiu que nosso amado detetive tivesse seu momento de derrota. Houve uma derrocada, mas, para segundos seguintes fazê-lo se reerguer novamente, impiedoso, mas vitorioso. A grande aventureira e atriz Irene Adler, de memória duvidosa, mas de importância suficiente para render uma série de livros próprios para outros autores e mesmo outra trilogia recentemente resenhada por mim, perdera seu grande trunfo: Sherlock Holmes fora derrotado x vezes no cânone, uma delas, ele admite, por uma mulher. Contudo, na série da BBC, embora Holmes possa ter seus defeitos enquanto ser humano, estes não se estendem em absoluto para seu trabalho. Inconclusivo, mas nunca um perdedor. Esse pequeno ocorrido, essa vitória de Adler a tornara A Mulher, o que revela certa prepotência da parte de Holmes, pois, ela se destacaria do sexo em geral vez que fora a única capaz de derrotá-lo. Entre Pulver e Cumberbatch, no entanto, ela se destacara como A Mulher porque… por quê? A Irene de Doyle, até onde eu sei, é considerada um modelo feminista, especialmente por ter sido criada por um homem e na época na qual fora escrita, a de Moffat poderia ser chamada assim por abraçar sua sexualidade e não possuir body shame? Mas apenas isto, tendo em vista que um de seus maiores “traços de caráter” fora substituído por uma cena, admito, com excelente atuação e trilha sonora, seria suficiente para torná-la A Mulher outra vez?

 Não consigo chegar numa resposta. Adoraria saber a opinião de vocês. Seguindo temos: Molly Hooper. Sim, vou colocar o dedo na ferida. Eles mesmos fizeram isso comigo quando não fizeram um funko para ela. A senhorita Hooper que não fora escrita para ser uma personagem oficial, mas, que permaneceu devido ao brilhantismo na atuação de Louise Brealey, tornou-se um dos melhores exemplos de catarse da história. Uma personagem simples, mas complexa, humana. O oposto de Adler, a femme fatale. Amor não correspondido, mas amizade incondicional, desprendimento para tentar seguir em frente. Que, após ter ganhado certo destaque na vida de Sherlock, eu esperava que também fosse ganhar mais respeito e screen time dos roteiristas, mas, não. Sua participação nos dois primeiros episódios da série foi mínima… e quando finalmente a tivemos de volta como influência… depois de um noivado quebrado, talvez outros relacionamentos… foi para que partíssemos seu coração novamente? É claro que ela sempre amaria Sherlock, mas é doloroso ver como tiraram proveito disso para quebrá-la; foi a minha reclamação com o final da temporada: eu queria um pedido de desculpas, uma explicação, algo que justificasse a entrada dela em Baker Street com aquele sorrisão! Visivelmente, Holmes ficou aborrecido pelo que fez – quebrou um caixão e tudo o mais – mas, e Molly? Me enojou muito as palavras seguintes de Moffat para uma coletiva: “Ela provavelmente saiu para tomar um drink, transou com alguém, eu não sei. Molly estava bem”. O senhor conhece alguma coisa… qualquer coisa, sobre o coração humano?

Você que passou anos da sua vida amando uma pessoa, sendo forte o bastante para tentar seguir em frente e ainda manter um vínculo de amizade saudável com a dita pessoa, faria e fez tudo que pôde por ela… ao ser usada daquela forma – porque, afinal, Molly não sabia o que o eu te amo significava no momento – forçada a revisitar aqueles sentimentos que nada mais trouxeram do que frustração e graças àquele que, tudo bem, apesar de não corresponder aos seus sentimentos, parecia finalmente ter entendido que você é um ser humano que importa. Bem, depois dessa montanha russa, de ser quebrada novamente, depois de um péssimo dia, de enfrentar um fantasma deste tamanho… você iria sair para tomar um drink? Iria dormir com outra pessoa?? Por despeito?? What?? O senhor sequer conhece a personagem que diz ter escrito?? Dizem por aí que: Molly deveria estar morta dentro do caixão e que isso foi demais e que eles foram obrigados a reescrever… assim?? Usando-a apenas para ter seu coração partido mais uma vez? Eu não consigo colocar em palavras… me ajudem!! O que concluo apenas é que Moffat não sabe usar as mulheres que escreve ou talvez devesse ser proibido de escrevê-las.

No entanto, ainda assim, eu consegui aproveitar outras partes do que me foi oferecido… os irmãos Holmes tocando violino, se comunicando através da música porque ela possui este poder… os garotos de Baker Street, o monólogo final da Mary que, apesar da dubiedade de uma ou duas linhas, resumiu muito bem e fechou gloriosamente. Embora eu desejasse por um melhor fechamento a outros personagens, foi um final… e um final que nos permite sonhar com, sei lá, assim como Gilmore Girls, um revival algum dia… mais episódios dali alguns anos? Aventuras sempre existirão para os garotos de Baker Street e nem que seja pela minha própria pena, eu irei visitá-los… porque não posso viver sem a minha vida, não posso viver sem a minha alma…

P.S: Está claro que não consegui dizer tudo, me faltam palavras… sintam-se livres a complementar, criticar… sejam livres!

xoxo

Precisamos falar sobre 2016…

What a fucking year this was. Perdoem o meu francês. Mas sério, esse foi sem a menor dúvida o ano mais controverso, cheio de altos e baixos de toda a minha existência. Refletindo comigo mesma, eu tenho todos os motivos para falar super mal de 2016, mas, ao mesmo tempo todos os motivos para falar super bem! Então, vamos lá? Juntem-se a mim nesta retrospectiva do melhor/pior ano de nossas vidas, afinal, não existe um ser humano na terra capaz de afirmar que 2016 foi SUPER MARAVILHOSO, MEU DEUS MELHOR ANO DA MINHA VIDA, NÃO ACONTECEU NADA DE RUIM!! E, se você estiver lendo e já se preparando para falar isso nos comentários… por favor, não seja essa pessoa. Não seja a diferentona estagiária de Machado de Assis; esse é o meu trabalho. Obrigada. De nada.

Todo ano eu faço maratonas de duas séries: Friends e How I Met Your Mother. Sim, um pouco dos dois mundos. Dessa vez, a segunda foi a que eu vi quando já estava de férias da faculdade e a primeira eu fui intercalando com as minhas várias horas protelando os estudos porque… bem, porque Phoebe Buffay me inspira a pensar. E Chandler Bing é quem eu preciso ter ao meu lado durante os anos escolares desde a primeira vez que ouvi: I’m not great at the advice. Can I interest you in a sarcastic comment? Enfim, eu sou aquele tipo de pessoa que sempre busca morais para a sua vida baseada nas escolhas de personagens ficcionais. Irresponsável? Talvez. Mas I give Love a Bad Name está tocando no momento em homenagem a Barney Stinson e eu não me arrependo. E especialmente sobre How I Met Your Mother nós temos um nome na ponta da língua quando o assunto são morais. Ted Mosby.

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Nunca me enganei. Eu sou uma Robin Scherbatsky. Porém, 2016 fez de mim uma Ted Mosby, com a mais absoluta certeza! E, na vida do Ted existiu um ano… 2009… que acabou virando um dos melhores episódios ever da série, o final da quarta temporada, e que nos rendeu essa quote:

That was the year I got left at the altar. It was the year I got knocked out by a crazy bartender. The year I got fired. The year I got beat up by a goat, a girl goat at that. And dammit, if it wasn’t the best year of my life.

Ted fez sua análise, apenas com os aspectos ruins daquele ano e ainda assim chegou a conclusão de que fora o melhor de sua vida. Sendo bem clichê: porque são as coisas ruins que vão fortalecer seu foco para chegar ao melhor resultado. Vejamos, então, esse foi o ano em que eu tive o menor aproveitamento ever de uma matéria que eu gosto na faculdade, sem falar que foi o ano em que repeti sem parar com meus colegas sobre como ambos os semestres haviam sido… ruins. Ruins mesmo. Esse foi o ano em que mais me coloquei para dormir depois de sentar por horas chorando. Foi o ano em que mais duvidei da minha capacidade e do que queria para a minha vida, mesmo estando a essa altura do campeonato. Foi o ano em que acordei em um mundo sem Alan Rickman, Debbie Reynolds ou Carrie Fisher; sim, isso deixou meu 2016 muito triste. Foi o ano em que tudo sempre parecia dar errado, mesmo quando eu me matava para dar certo…

Também foi o ano em que, pela primeira vez na minha vida, matei aula para viajar para São Paulo e assistir, também pela primeira vez, o musical Wicked. Sem esperar nada de ninguém, planejei tudo… correu tudo mais ou menos como o esperado, mas, foi melhor. Aliás, foi a noite em que recuperei meu amor pelo teatro, pela arte. Foi o ano em que abri minha conta no smule e descobri como trabalhar a minha ansiedade de uma forma que não precisasse correr para o hospital ao menor sinal de tensão: cantando em alto e bom tom/som. Foi o ano em que fiz milhares de novas amizades por causa disso. Foi o ano em que meu amigo me disse que ia ter uma palestra com a Ellen Degeneres; e eu pirei. Foi o ano em que me fantasiei de Bellatrix Lestrage pela primeira vez em anos e gritei pelo shopping que matara Sirius Black again. Foi o ano em que ganhei o segundo lugar de um concurso de cosplay e fiz mais amizades por causa disso. Foi o ano em que cheguei ao fundo do poço e encontrei o caminho para cima. Foi o ano em que o In My Own Little Corner fez um ano de vida e, que surpresa, eu não havia desistido dele com apenas 3 meses.

Foi o ano que li E o Vento Levou e descobri meu novo livro e filme favorito. Foi o ano em que voltei de vez para o Twitter e só tive a ganhar com isso… porque a mãe de uma amiga que fiz lá, tirou snap da Maggie Smith e mandou para nós… então, também foi o ano em que vi a Maggie Smith fazendo compras. Foi o ano em que finalmente entendi e me apaixonei pelo final de How I Met Your Mother, aliás. Foi o ano em que voltei a fazer aulas de piano. Foi o ano em que descobri que também possuo minhas Padfoot e Prongs, porque sou a Moony. Foi o ano em que recomecei a ler Guerra e Paz, e vi Cormoran Strike chegar de penetra no casamento da Robin Ellacott e ela dizer “aceito” olhando para ele e não para seu noivo… MEUS DEUSES, VÃO LER CARREIRA PARA O MAL! Ah, também foi o ano em que Apolo, o Deus, foi primeira pessoa num livro do Rick Riordan e foi LEGENDARY PORQUE DESCOBRI QUE ZEUS TEM SNAPCHAT! ASUHAUSHAUSHAU Nem sei porque ainda acho isso engraçado.

Foi o ano da melhor reunião de natal de todos os tempos, com o melhor amigo oculto de todos os tempos, com as melhores piadas e referências de todos os tempos. E foi o ano em que a magia voltou… Animais Fantásticos e Onde Habitam nos trouxe de volta para casa e com ele veio Newt Scamander, Jacob Kowalski, as irmãs Goldstein, Porpentina e Queenie – a minha nova personagem favorita da vida! Aviso que no futuro teremos cosplay, porque sou dessas. Um filme que superou minhas expectativas enquanto fã e admiradora da genialidade de JK Rowling e que me fez chorar de nostalgia. Pela personagem que poderia ter sido apenas um rostinho bonito generalizado e sem importância, mas que foi muito mais e agora ninguém mais vai ligar para Dolores Umbridge quando falarem em rosa no universo de Harry Potter. FOI O ANO EM QUE DEUS FOI MARAVILHOSO E ELA ENTROU NA PADARIA!!! ❤

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tumblr_oh8w8q1zm81tnrb35o1_1280Ano dessas fanarts maravilhosas em que todos me marcaram no facebook porque me conhecem bem e estavam lá quando, após o filme, fiquei meia hora falando de nada mais do que Queenie e Jacob… ❤

O ano em que velhas amizades foram resgatadas, atuais foram colocadas à prova e sobreviveram, e novas conquistadas…

Sim, tivemos grandes perdas e reviravoltas este ano… mas, pensando como Sabrina Fairchild, foi um ano em que a vida aconteceu… e não pudemos fugir dela… e, de fato, 2017, you’ll have some very large shoes to fill…

emily blunt the devil wears prada emily charlton
Nós somos a Emily com as muletas…

 

Feliz Ano Novo, meus queridos… quem quer que esteja lendo este post. Espero continuar com vocês em 2017!!

xoxo

A Essência do Ambiente Preferido – Essential Book Dezembro

Até agora no projeto Essential Book, tentei manter minhas escolhas longe de um lugar comum. A decisão sobre o meu ambiente favorito, contudo, não conseguiu se afastar muito dele… e acredito que nesse caso a minha previsibilidade vai ser perdoada.

Estamos em Dezembro. Existem vários motivos pelos quais eu amo este mês. Férias, Natal, Ano Novo, aniversário de Jane Austen e Maggie Smith, comida de natal, sobras da comida de natal, amigos secretos, todo mundo se desejando felicidades nas redes sociais. Vários motivos. Contudo, um deles se destaca dentre os outros. Por alguma razão, esse mês em particular me associa muito ao universo de Harry Potter. Mais do que Outubro, com a morte de Tiago e Lilian ou mesmo Julho, aniversário de Harry e JK Rowling. Talvez sejam as lembranças do primeiro livro e filme com a riqueza de detalhes acerca da celebração do Natal na escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts… e, afinal, desde que houve um loop da câmera e avistamos aquele castelo noite adentro… nunca mais estivemos em casa em qualquer outro lugar, certo?

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Não sei se atendo aos propósitos do tema, mas, sim. Hogwarts é o meu ambiente favorito dentre todos os universos nos quais já coloquei meu nariz. A essência desse lugar é, sem sobra de dúvidas, casa. Lar e ele reúne todas as facetas… os alunos se afastavam de tudo e, apesar da presença dos professores, como no exemplo de Sirius Black, estavam longe das próprias convenções de suas famílias, o que lhes permitia maior liberdade para explorarem suas verdadeiras personalidades. Seria como sete anos de festas inesquecíveis com seus melhores amigos… as provas de poções do Snape soam como um preço muito pequeno a se pagar. Nós vimos apenas o ponto de vista de Harry, Ron e Hermione que, como viviam se metendo em encrencas, não nos permitiam imaginar como seria a vida de um aluno comum de Hogwarts…

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Para uma lufana de coração, temos as tardes tranquilas no iluminado salão comunal da Lufa-lufa… a facilidade de conseguir lanchinhos noturnos da cozinha – melhor localização de dormitório – a preocupação inerente com os exames que não pode faltar a vida de um estudante, principalmente quando seu professor é Snivellus Snape. E também aquele professor que é uma espécie de padrinho, sempre disposto a dar um conselho e ouvir as frustrações de seus alunos… Remus Lupin. Sim ou claro? Aquela professora que te tira do sério pelo tamanho da exigência, mas que no fundo você não consegue deixar de admirar… Minerva McGonagall… O professor que, de tão excêntrico, você acha engraçado, ele sabe disso e é super nice a respeito… Filius Flitwick… E, no caso, a chefe da sua casa, que te conhece e sabe de toda a sua sujeira, digo, trajetória, na escola desde o início, com quem você tem mais liberdade de trocar ideias do que todos juntos, porque ela é quase a sua mãe ali dentro… Pomona Sprout.

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E entre essa bagunça toda, você consegue um tempinho apenas para explorar a sua escola… que é um FREAKING CASTELO DE MAIS DE MIL ANOS… encontra aquele cantinho perto do Lago Negro para simplesmente contemplar a vida ou o quanto se deu mal naquele exame de História da Magia, onde você e suas amigas se reúnem após os N.O.M.s para discutir as respostas das questões. Quem sabe? Mesmo sendo uma aluna da Lufa-lufa, faria amizade com Fred e Jorge da Grifinória e iríamos juntos vistoriar todas as passagens no Mapa do Maroto…

E depois de passar por tudo isso, é chegado o dia da formatura e talvez você nunca mais veja aquelas paredes de pedra, o lago, o dormitório, suba até o corujal ou encontre a sala precisa. Se despede de seus amigos, embora vá vê-los outra vez, seja pelo mundo ou em algum departamento do Ministério, dizer adeus para o que parecia ser apenas o plano de fundo de todas as suas aventuras é muito mais complicado. De repente, Hogwarts acaba se tornando tão personagem quanto qualquer outro. Afinal, ela é cheia de espírito e lhe proporcionou mais alegrias do que, talvez, a sua própria casa. E, finalmente, quando você mirou a vista a distância pela última vez, antes de pegar o trem, teve certeza de que não estava indo para casa… não mesmo.

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Este post faz parte do projeto:

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Não deixem de conferir os posts lindos das minhas amiguinhas:

Larissa Escuer | Estefânia | Karla | Sâmella | Carol | Vanessa | Nívine | Mayara | Nina | | Cecília | Marcia |

xoxo

O Detetive e A Mulher

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Em post anterior, comentei a respeito do “Um Pequeno Truque da Mente” de Mitch Cullin, aqui: Mr. Holmes – O cavalheiro solitário. Um livro baseado no universo de Sherlock Holmes e que explorava o período de aposentadoria de Holmes e alguns de seus demônios pessoais a partir da narrativa de seu último caso. A obra bastante sensível é bem sucedida em trazer novas nuances ao caráter da grande celebridade literária, já demasiadamente utilizado por seu criador, ao reuní-lo com novas personagens além do tão amado Doutor John Watson. Foi adaptado para o cinema e, embora a atuação de Sir Ian McKellen como Sherlock mereça todo o aplauso, o filme falha em realçar detalhes que apenas a prosa é capaz de passar ao seu leitor.

Aparentemente, existem várias obras mundo afora que se utilizam da figura de Holmes e alguns outros personagens do cânone, tendo eu mesma o feito em fanfics. E, até pouco tempo, só havia me deparado com a versão de Cullin e de Laurie King, com a saga de Mary Russell Holmes. Aconteceu que uma amiga autora de fanfics, e querida crítica do meu trabalho, me chamou a atenção para o trabalho de uma americana bem especial: Amy Thomas. Membro do honorável grupo Baker Street Babes, Amy escreve com Holmes, sim, mas sua identidade no papel é, impreterivelmente, Irene Adler. É a primeira vez, mesmo para os leitores do cânone, que a vemos tomar um papel mais ativo e independente da mente do detetive. A Irene de Thomas, de fato, sobressai aquele que deveria ser o nosso suposto protagonista e facilmente nos envolve no enredo dos três livros com seu ponto de vista. Um quarto livro já está em andamento, portanto, àqueles que se apaixonarem pela trilogia inicial, nada temam! Seremos presenteados com mais!

Infelizmente, os livros ainda não foram traduzidos para o português *pausa para o ooooh coletivo*, porém, a senhorita Thomas me revelou pelo twitter – ela é uma graça, pessoal! Responde os fãs, troca ideias, um amor! – que já está conversando com seus editores acerca da expansão das traduções de seus livros para mais línguas. Enquanto isso, me arrisquei na versão original mesmo e, devo dizer, não é uma leitura que requer o inglês mais arcaico. É uma leitura gostosa. Bem fluída. Como um Harry Potter e, ouso dizer, o próprio Sherlock de Conan Doyle. Bem, os livros são divididos entre capítulos na primeira pessoa de Adler e na terceira pessoa de Holmes, uma visível tática de preservar o andamento do caso e não entregar o principal mistério: o coração/mente/corpo/alma do pomposo detetive.

O início da narrativa nos traz, então, a figura de Adler em luto – externo, apenas – pela morte de seu marido, o notório Godfrey Norton. Só o que se sabia pelo cânone e adaptações é que Norton aparentava ser o típico advogado de classe média da era vitoriana, mas, gentil e apaixonado por sua noiva. Amy desconstrói totalmente essa imagem ilusória e a transfigura na de um marido abusivo bastante crível, visto que esses abusos acabaram em muito mais do que algumas marcas na pele de Irene, mas, na sua perda de autoconfiança e um pouco da garra que a tornou A MULHER para Sherlock Holmes. Falando no dito cujo, o caso deste livro se passará durante o período de hiato na saga sherlockiana: quando Holmes falseia sua morte na queda das cataratas de Reichenbach junto a Moriarty. Estando disfarçado, fazendo o mundo acreditar em sua partida desta para a melhor, mantém apenas a correspondência com seu mano Mycroft (<3), recebendo a tarefa de descobrir a identidade destes dois homens que estão atrás de uma tal senhorita ‘A’; ao passo que Irene retornou aos palcos, a música seu último alicerce… e sim, ela é a senhorita ‘A’.

Essa situação coloca-os juntos para a resolução do mistério cujo custo é a segurança física de Adler. Nenhum dos dois está confortável com isso. Nenhum dos dois confia no outro. Ainda assim, embarcam no velho arquétipo de “vamos fingir ser um casal” para resolver esse caso. A mentira até que funciona com a maioria do seu grupo de amigos – círculo que conta com a própria figura de Thomas Edison, famoso inventor. É interessantíssimo e deveras divertido assistir esse primeiro lampejo de dinâmica entre ambos. Os dois velhos inimigos que agora estão obrigados a trabalhar juntos e, sem perceber, acabam desenvolvendo uma profunda amizade. Como reitera Holmes, “Adler não é Watson”. Sem querer desmerecer o doutor, ela é bem mais proativa e disposta a brincar com o detetive, tornando-se muito divertida para nós. O ponto alto para mim é como sempre parecia estar com fome quando as coisas iam ficando tensas, ao passo que seu parceiro mal tocava em qualquer coisa que fosse.

A trilogia tem como base o nome “The Detective and The Woman” e não é para menos. Irene é a grande estrela desses livros, à medida que a vemos recobrar sua confiança. E o principal responsável por isso é Sherlock. Ao final do primeiro livro, ele lhe concede sua casa em Sussex Downs, onde Irene começa a cultivar seu apiário e vive uma vida mais pacata, campestre, mas que a preenche vividamente. À primeira vista, soa estranho que a glamourosa senhorita Adler, renomada cantora e atriz, se retire para o campo e escolha a apicultura como hobbie. Mais estranho que, ao final do livro, no epílogo, haja uma troca de cartas entre os protagonistas nas quais ALERTA DE SPOILER: admitem estarem interessados romanticamente um no outro e a palavra casamento é deixada implícita… porém, quando o segundo livro começa, nada disso é mencionado. Buscando explicação, indaguei a minha amiga que indicou o livro e ela me disse que o epílogo se passa anos depois e que o segundo livro volta a linha cronológica normal, ainda trabalhando melhor essa amizade entre os dois. Estranho, né? Mas, continua excelente. FIM DE SPOILER 

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O segundo livro, The Winking Tree, é, de longe, o meu favorito entre todos. Por quê? Explora um aspecto que amo da personalidade de Holmes: crianças. A forma como ele perde um pouco da frieza aparente para se relacionar com elas e acaba tratando-as com mais igualdade do que muitos de seus companheiros de idade. A garotinha em questão é Eliza, filha do fazendeiro cujo desaparecimento extraordinário fez com que Irene escrevesse para seu amigo a fim de que viesse ajudar nas investigações. O mistério, apesar de parecer simples, à primeira vista, traz até figuras da infância/adolescência de Holmes para a cena. Eliza, no entanto, é a cerejinha do bolo! Gente… que criança linda!! Charmosa, com aquela inteligência infantil deliciosa de ler! A passagem de tempo entre 1º e 2º livro nos permite visualizar melhor o crescimento de Irene dentro da pequena comunidade a qual passou a chamar de família/amigos/lar… uma síntese feita por um comentário de Sherlock, ao compará-la com uma abelha rainha. No que concerne a senhorita Adler, no entanto, o charme está em não saber disso.

Ele seguiu A Mulher para as colméias e assistiu enquanto ela interagia com as abelhas. Seus gestos eram calmos e intuitivos, perfeitamente em casa entre elas. Fazia sentido, ele pensou, pois ela era uma delas. Não, não uma operária. Ela era a rainha. Ele havia percebido durante aqueles dias de visita, o quão frequentemente as pessoas de Fulworth vinham até ela, se consultavam com ela, até a amavam. O pequeno chalé na colina estava rapidamente se tornando o centro de todas as coisas. O charme de Irene Adler era que ela não tinha nem ideia. Ela era a rainha totalmente inconsciente do fato de que o reino era dela.

Tradução direta do original por mim.

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Embora suspeite que muitos não ousarão enfrentar a leitura do inglês, espero que essas palavras o incitem a requerer a primeira cópia quando finalmente a tradução chegar nas nossas livrarias! Sendo assim, não quero dar muitos detalhes sobre os casos em si. Afinal, por mais intrigantes que sejam, a magia destes livros é justamente a forma como cada autor trabalha essas figuras históricas. Como colocam sobre eles traços originais seus, mas, ainda assim com a integralidade que teria satisfeito Doyle – eu espero/imagino. Nesse sentido, passamos para o terceiro livro – The Silent Hive. Aproveitando-se de um fio solto no caso “As Cinco Sementes de Laranja”, Thomas traz de volta a problemática da Kux Kux Klan, bem como outro personagem do cânone, para finalizar essa trilogia inicial, colocando Holmes em uma situação de saia justa ao vislumbrar pessoas de sua estima e confiança sendo usadas ao bel prazer de um sofisticado jogo de vingança.

As tramas de Thomas contêm tudo. São o pacote completo: a familiaridade que somente um ambiente conhecido e amado traz, mas com o frescor dos traços de sua caneta. É envolvente, carismático e sincero. Logo, por qualquer amante de Sherlock Holmes, merece ser lido.

xoxo

Como Fred e Ginger

Eu achava que sabia o que queria.

Ledo engano. No entanto, um engano, imagino, que muitos cometem. Então, tudo bem estar errada, certo? Tudo bem errar, se você não é a única que já pisou na bola? Ok. Espero que sim. Me peguei andando em círculos pelo quarto… é claro que ninguém sabe o que quer. Pelo menos, não de cara. Especialmente quando se é alguém incapaz de se contentar até mesmo com o plano de fundo da “lockscreen” do celular. Enfim, eu acreditava que queria você… que tudo bem ser, numa metáfora bem tosca, doce, porque seu lado salgado me completaria.

Acreditava nos debates, entende? Na “provocação saudável” que tanto me deslumbrava nos meus casais favoritos de contos infantis e nos romances de Shakespeare. Juro juradinho que cria com todas as minhas forças no amor de Catarina e Petruchio e que não era capaz de enxergar a exaltação ao machismo em detrimento do feminisno naquela relação. Enquanto Beatrice e Benedito se bicavam e discordavam de tudo… sabe? Os amantes que em nada se acertam, além do amor que sentem um pelo outro. Eu achava que queria isso. Numa espécie de busca enfadonha por emoção e por uma chama incessante… eu busquei o meu Benedito e o meu Petruchio…

Estou olhando para aquelas fotos que tiramos na formatura da Luiza. Estamos tão obviamente embriagados… por Deus, você estava usando um poá cor de rosa chiclete! Jesus como deixei alguém colocar um chapéu verde limão na minha cabeça, em contraparte ao meu vestido azul, quase uma ode à bandeira brasileira?! Estou rindo sozinha. Mas, assim, se qualquer pessoa entrasse aqui e visse essa imagem, entenderia. Nos divertimos, não? Nem parece que entre esse casal sempre existiu uma espécie de abismo preenchido com todas as questões as quais nunca conseguiram chegar a um ponto em comum.

E não. Nem envolvia política. Nós dois reconhecemos que as questões estavam atreladas aos assuntos mais banais… porém, não se pode duvidar que essa banalidade é deveras importante. Eu acho. Porque ainda estou sentindo o que a falta dela traz. Aquele vazio que, se a gente ignorar, nem parece que incomoda tanto, mas que deixa margem para tanta irritabilidade… Por que você não entendia ou, sequer tentou entender, a razão do meu fascínio por… sei lá… Percy Jackson? Literatura medíocre?! E daí?! Eu também leio Dostoievski… e eu tentei dar outra chance para Dom Quixote por você; por que cargas d’água não conseguia simplesmente defender um pouquinho do meu amor pelo cabeça de alga? Isso para citar um dos exemplos mais bestas de todos!

Era legal discutir e debater nossas ideias, num eterno episódio de Law&Order… e, pensando bem, pensando sensatamente, amarmos as mesmas coisas não deveria fazer com que eu te amasse menos ou mais. A ideia de que os opostos se atraem é tão bonita em mente, mas, para mim, não dá mais para acreditar que seja prática em prática… por que não sou forte ou madura o bastante? Talvez porque, no momento, estou cansada de dar explicações dignas de uma coluna editorial? Vai saber!

Eu ainda não sei o que quero.

Mas não acho que estará tão embuído de ceticismo. Provavelmente, o que se deseja nem seja o positivo e o negativo… eu poderia citar exemplos, mas, ninguém entenderia referências da década de 50. Contudo, acho que podemos resumir nisso: tudo bem você não surtar por filmes em preto e branco, desde que tente entender meu fascínio por eles. Tudo bem não amarmos os mesmos livros, porque nós amamos livros e, sem nos darmos conta, estaremos tentando ler as recomendações um do outro. Tudo bem você ser da Sonserina e eu da Corvinal. Tudo bem que eu não seja uma garota esportiva, porque isso sempre me deixará do seu lado num churrasco de família. Tudo bem porque… você me olha como Fred olha para Ginger enquanto eles estão dançando. Tudo bem porque, nesse tempo todo, você se deu ao trabalho de aprender o que isso significa.

 


Esse texto faz parte do Pena & Tinta, um projeto de escrita criativa que tem como objetivo a criação de textos (crônicas, contos, poesias, relatos pessoais etc…) em cima de temas predeterminados mensalmente. Neste mês, não consegui me decidir, então, vamos começar com o tema OPOSTOS.

Tem um blog e quer participar das próximas edições do Pena & Tinta? A gente está te esperando aqui: bit.ly/2dEXQEF 

xoxo

Amarelo, ela é amarelo.

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Sinto falta de um lar que nunca foi meu. que nunca foi de ninguém, de fato. Eu costumava ter essa fixação com lares e casas. De fato, sempre acreditei que nenhuma jamais se compararia a minha. Não que ela fosse grande coisa. Era pequena e mal planejada, mas também, eu nunca precisei de muito espaço ou fui a favor de seguir planos à risca. Mesmo assim, eu queria um lar. Um espaço que me preenchesse à completude. O imagino com grandes venezianas brancas e livros no espaço abaixo da escada. No centro. Sempre no centro. Afinal, a ideia de me revolver reclusa no campo sempre me pareceu absurda… não parece?

Um dia, eu subi uma colina, no entanto. Calçava meu melhor par de botas de camurça… havia acabado de garoar… eu sentia meus pés afundando na lama… o inconveniente pelo qual não precisaria passar se estivesse na cidade… contudo, aquela era para ser uma aventura. Segui a estrada para fora da minha zona acarpetada de conforto e o que obtive? O mundo. Ao final daquela colina, não havia nada… nada além de quilômetros… não havia nada e tudo ao mesmo tempo. Era alto, isso era. Lá de cima assisti outras sete colinas e o mar, ao passo que me sentia sendo jogada contra algo… a verdade… e o conhecimento… tudo era verde e azul, mas… mas…

Amarelo. Aquela descida foi completamente amarela. Não havia espaço na sua paleta de cores para qualquer outra cor… você seria capaz de compreender Van Gogh. Enquanto descia, foi como se o mundo vivesse dentro de doze girassóis numa jarra, com uma grande lata de tinta amarela envolvendo-o; uma tela irreproduzível. O sol às costas era morno e começava a se pôr e quando me dei por mim… o mundo era amarelo. Pessoas seriam capazes de atestar quantas vezes enunciei meu ódio por tal cor. Contudo, naquele momento, ele foi meu lar. Afinal, lar, segundo dizem e eu nunca ousei buscar definição diferente, é onde seu coração está em paz… Aquele ali: com os tons de dourado pairando sobre a planície, sobre os lagos, em cada folha e por todo o céu… a água sussurrando aos meus ouvidos e no silêncio da completa contemplação… aquele era meu lar.

Poderia ser terra de ninguém. Simplesmente existindo para que outras pessoas se sentissem daquela maneira. Mas era meu. Eu queria acreditar que sim… que por anos eu fizera aquela caminhada ao topo pelo bel prazer de descobrir a descida várias e várias vezes. Para descobrir o amarelo várias e várias vezes. Justo eu… uma criança que sempre tivera crises de ansiedade e acreditava com todas as suas forças que seu lar teria venezianas brancas… eu encontrei paz. Eu fui paz. E, desculpem os intérpretes, ela nunca foi branca. Ela foi amarelo.


Esse texto faz parte do Pena & Tinta, um projeto de escrita criativa que tem como objetivo a criação de textos (crônicas, contos, poesias, relatos pessoais etc…) em cima de temas predeterminados mensalmente. Neste mês, escolhi o tema CORES.

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xoxo